Subversa

QUARENTA-19 | Felipe Eduardo Lázaro Braga


40 dias e três meses, 41 dias há quase um ano, e só o que eu tenho é a minha respiração, e o tempo inteiro ao redor.

Os livros percorrem as prateleiras essenciais, mais essenciais que a despensa lotada de filas com distância segura no chão.

Entre o cansaço protegido das mesmas paredes brancas e penduradas, e as multidões que respiram a sincronia da sua falta,

Uma tequila com limão compartilhada no entre nós de um gole mútuo, na euforia marcada pra dois mil e quando.

Estou sem ar de tanto dançar e sorrir sobre os meus próprios pés, que não esbarram em mais nenhum sem fôlego, encharcados de sexta-feira como outra segunda qualquer.

Devagar, adormeço nu num quarto meio vazio, seguro em um corpo jovem, a respiração lenta e profunda anuncia suas horas mananciais, na ressacada de um sono lotado.

Eu e minha veterana, nos metros quadrados da décima terceira varanda, compartilhamos a proximidade física de um relógio sem trégua: vizinhos de cômodo ao lado, 79 anos cheios, a plenos pulmões.

A fala enérgica e alta de quem impõe uma gargalhada de presença, está quieta. Suas amizades acotoveladas em sambas biográficos, estão quietas.

Meus poucos anos atrás olha suas aglomerações à frente. Minha vida ainda é tanto.

Minha senhora ao lado, com suas décadas e décadas sincopadas, enfurece-se de saúde contida e sambas virtuais, seus anos preciosos estão todos agora.

Minhas insônias encontram-na acordada, esbarramos as mesmas preocupações no corredor estreito repleto de família ausente, sorrindo em fotos de ar aberto – aprecio, no corredor, o comigo das minhas ausências.

Vai passar. Sambam nossos ancestrais. Uma ofegante epidemia. Página infeliz da nossa história. Vai passar. Um desabafado assoviado de meia noite pra tranquilizar minha sambista insone, que me tranquiliza, agora mesmo criança, no apego de uma memória longe.

Vai passar. A ressurreição do abraço incontido é a promessa quase nostálgica de um carnaval vacinado:

Indo adentro de calçadas nagô, ritmo-emaranhadas de interjeições amigas, cortando ruas tumultuadas de fevereiro. Na cidade oxigenada de gente próxima, a supremacia dos corpos à flor da pele reencontra a alteridade da sua nudez, profana e pra hoje.

Até lá, bach e beatles, bituca e batuque, bethânia e beyoncé, lavando a louça e levando o lixo, suando em festas de fone de ouvido.

E o esquenta, como tá? Borbulhando: nosso tempo é fora, entre os passos lentos de um por enquanto.


Felipe Eduardo Lázaro Braga | Osasco, Brasil | braga.felipe@aol.com

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