Subversa

Provérbios | Rodrigo do Prado Bittencourt (Coimbra, Portugal)

Ilustração: Karolina Whoo

Rafael Lopes dos Santos é jovem, tem vinte e quatro anos, operário, paulista, negro, morador de Paraisópolis, casado, pai de três filhos, sem posicionamento político definido, católico não praticante e corintiano.

Todo dia, Rafael se levanta às quatro da manhã para ir trabalhar numa fábrica de papelão, em Santo Amaro. Ele trabalha há seis anos nesta fábrica, sempre na produção. Ganha pouco, mas sua esposa também contribui com algo para pagar as despesas e com a ajuda dela, que trabalha como operadora de telemarketing, os dois vão vivendo. Rafael cresceu em Paraisópolis e todos seus amigos são ou de lá ou da fábrica. Sua esposa é de lá. Ele vê muitos amigos da comunidade com uma vida semelhante à sua. Muitos reclamam. Ele não. Está sempre satisfeito; seu lema é “o que vier é três palitos”, indicando que aceita tudo de bom-humor, sem se agastar ou angustiar com coisa alguma.

Os amigos mais ambiciosos acham Rafael um acomodado, que nunca vai vencer na vida. Com efeito, alguns de seus amigos de infância ou mesmo da fábrica estudaram e agora estão em empregos melhores. Outros abriram negócios próprios (um abriu uma oficina e outro uma pequena lanchonete), depois de trabalharem um tempo como empregados e agora estão ralando, mas pelo menos investiram em algo que é seu.

O pessoal da fábrica que é do sindicato acha Rafael um alienado, alguém submisso que aceita ser explorado sem nunca questionar e que é prejudica a si, sua família e sua classe por esta atitude acomodada e passiva. Alguns dentre os amigos de Paraisópolis que fizeram faculdade pensam o mesmo de Rafael e gostariam de vê-lo mais bem informado e mais questionador.

Tantos os ambiciosos quanto estes mais críticos, embora por motivos completamente diferentes, gostariam que Rafael tivesse estudado mais. Ele nunca gostou de estudar, porém, e só o fez enquanto foi obrigado. Quando adolescente, seu pai o pôs para trabalhar como empacotador num supermercado. Depois que ele fez dezoito anos, apareceu a oportunidade – ou maldição? – de ingressar no Exército. Rafael foi convocado a servir e quando seu pai lhe perguntou se ele gostaria de servir, Rafael disse que não sabia o que queria e emendou com a já referida frase que se tornaria, dali pra frente, seu mantra: “o que vier é três palitos”.

Ainda no quartel, ele começou a namorar sua esposa, Jaqueline, que na época tinha quinze anos. No mesmo ano, ela engravidou. Ele a conhecia de vista de Paraisópolis, mas tudo começou numa festa: Rafael estava com um amigo que estava interessado na amiga de Jaqueline e o chamou para juntos se aproximarem das meninas e puxar conversa. O amigo, apelidado de Tota, perguntou-lhe se ele estaria disposto a ficar com alguma menina e Rafael disse que, para ele, qualquer uma estava bom. “O que não mata, engorda”, disse ele brincando.

Foi com este entusiasmo que começou o grande amor da vida de Rafael e foi com este mesmo entusiasmo que ele deixou a cargo de Jaqueline a decisão entre abortar ou não: “Você quem sabe”, disse ele. Ela ficou morrendo de raiva diante do que ela interpretou como o mais absurdo descaso e irresponsabilidade e mesmo rompeu com ele por uns três meses. Só voltaram porque o pai de Rafael, Sr. Oswaldo, homem muito bravo, obrigou o filho a “resolver a situação e assumir a cagada”. Foi um casamento forçado também pelos pais dela, mas Rafael não se importou: se ela não era linda, também não era feia e tinha lá suas qualidades.

Assim, Rafael e Jaqueline foram morar juntos num barraco em Paraisópolis mesmo e assim começou a vida a dois. Precisando de emprego urgentemente para sustentar a nova família, Rafael aceitou o cargo com mais baixo salário numa fábrica em Santo Amaro, uma das que oferecem o pior salário da Grande São Paulo. Quando lhe perguntam do emprego, porém, e se ele pensa em trabalhar em outra empresa ou mesmo mudar de profissão, Rafael sempre responde: “Tanto faz. Trabalho onde der. O importante é trabalhar” e logo emenda com o provérbio “mais vale pingar que secar.”

O tempo foi passando e alguns colegas que começaram junto com ele chegaram a “supervisor”, Rafael nunca conseguiu ascender. Ao contrário, quando os chefes precisaram transferir alguns funcionários de um setor mais tranquilo para o pior da fábrica – mais barulhento, perigoso e estafante – escolheram justamente os mais passivos, aqueles que não reclamariam. Rafael era, dentre os transferidos, o com mais tempo de firma. O pior é que teve gente com menos tempo que ele e que conseguiu se manter no setor desejado, enquanto ele foi transferido. Os colegas, ao verem isso, caíram matando: chamaram-no dos mais diversos apelidos, como “cagão”, “bundão”, “cabaço”, “mulher de malandro”… Rafael só sorria. Não guardava raiva de ninguém. Quanto mais o humilhavam e perseguiam, mais ele sorria. Até que alguns começaram a ficar com dó e pararam de zoar; o que não impediu outros de continuarem com a gozação. Ainda assim, sua postura sempre pacata e amigável sempre lhe trouxe mais amigos que inimigos e garantiu uma boa convivência mesmo com as pessoas mais difíceis. Os encarregados gostavam disso, pois sabiam que poderiam colocar qualquer um para trabalhar com ele, sem ouvir reclamações.

Um dos melhores amigos de Rafael na fábrica um dia, no refeitório, lhe chamou a atenção por ser tão passivo e bonzinho. Rafael ouviu tudo, sem se perturbar, e disse que tentaria prestar mais atenção nas coisas para não deixar isso acontecer de novo. O amigo, porém, percebeu que ele falava da boca pra fora, pra agradá-lo, e que nunca faria nada que desafiasse os chefes. Rafael era incapaz mesmo de pedir, submisso e humilde. Não tinha coragem: deixava tudo acontecer e seguir o curso natural das coisas. “Pra que nadar contra a corrente?”, dizia.

Fato é que, estivesse ele certo ou não, quando veio um período de crise forte, muitos foram demitidos e Rafael fiou. Seja pela dificuldade de encontrar alguém que aceitasse trabalhar naquele setor tão ruim por um salário tão baixo ou pelo fato de que o tempo de serviço que ele tinha significaria um custo alto de demissão, ele permaneceu. É verdade que a demissão até que fez bem para alguns, como o amigo que montou a lanchonete e outros que continuaram como empregados, mas em empresas que pagam melhor. De todo jeito, Rafael optou por deixar o rio seguir seu curso natural e, mais uma vez, não fez nada. Nada além do que sempre fazia.

Os outros filhos vieram. As despesas aumentaram e Jaqueline teve que colocar os filhos na creche mais e procurar emprego. Sem escolaridade e sem experiência, só conseguiu o de operadora de telemarketing: um emprego com pouca possibilidade de ascensão, desgastante e com péssimo salário. Para ela, isso foi uma derrota. Sentiu-se abalada e triste. Rafael não se importou. Poderia ele fazer algo? Não. Então… Rafael se lembrava do que dizia sua mãe: “o que não tem remédio, remediado está.”

Nos anos de eleição, em meio às discussões políticas, Rafael nunca se metia. Nunca dizia em quem ia votar, respondendo sempre que estava ainda decidindo. Também nunca brigava por futebol ou religião. Dizia-se corintiano e católico, mas apenas para ser alguma coisa, apenas porque tinha que escolher alguma opção. Então escolheu as opções da maioria e de sua própria família. Não lhe perguntassem, porém, a escalação do Corinthians ou os dogmas da fé. Nem se lembrava de quando tinha ido à igreja pela última vez e nunca fora a um estádio.

Jaqueline às vezes se zangava com esta atitude sempre calma do marido, mas deixava de brigar com ele quando percebia que ele se esforçava muito para fazer tudo direito e nunca dera motivos para ela reclamar: não era de beber, não saía com outras mulheres, ajudava com os afazeres domésticos, dava a ela todo o dinheiro que recebia… Só não se podia contar com ele para dar bronca nos filhos. Rafael nunca soube repreendê-los com seriedade. Ainda assim, Jaqueline o considerava um bom marido e carinhoso.

Na crise que alguns dos colegas de fábrica perderam emprego, Jaqueline também perdeu. As coisas ficaram difíceis, financeiramente, para o casal e isso acabou deixando-a frustrada e perdida. Sem saber o que fazer, a ela descontava tudo em Rafael, que calado ouvia suas reclamações, sem retrucar. Até que um dia, ela gritou com ele, pedindo para que ele reagisse, que brigasse com ela, que fosse “homem, uma vez na vida”. As crianças choraram; Jaqueline chorou. Rafael ficou sem reação. Esperou que ela se acalmasse, atônito: mais surpreso que magoado. Ela veio abraçá-lo e pedir desculpas e tudo ficou bem. O stress era grande, porém, e os dois estavam mesmo num grande aperto e nenhum deles sabia como fazer para sair das dívidas. Rafael sempre foi de fazer o máximo de horas-extras possível, mas neste período a fábrica já não estava chamando ninguém para fazer hora-extra. O que fazer?

Jaqueline começou a trabalhar de manicure e faxineira sempre que podia, mas nem sempre aparecia serviço. O pai dela emprestou-lhes um dinheiro e as coisas melhoraram um pouco. Ainda assim, não conseguiam passar o mês sem dever. Então, Rafael vendeu seu único bem, seu único luxo: a moto que eles tinham. Na verdade, ela servia mais à Jaqueline, que a usava quando trabalhava na empresa de telemarketing. Rafael sempre foi e voltou da fábrica de condução. Ainda assim, a moto era o xodó e o luxo de Rafael, que a pegava nos finais de semana para ir visitar os pais ou buscar pão.

Ela pensava em manter a casa fora de dívidas por um bom tempo, consumindo aos poucos o dinheiro da moto. Rafael, porém, tinha outros planos: queria comprar um carrinho de cachorro-quente e trabalhar com isso após o expediente. O comedido e pacato Rafael, pela primeira vez, queria ousar. Seguindo os conselhos de um amigo da fábrica, arriscaram, então: com parte do dinheiro compraram o carrinho e com outra parte compararam o material (salsicha, pão…). De dia, uma irmã de Jaqueline, mais nova que ela, cuidava das crianças enquanto ela vendia cachorro-quente. Quando Rafael chegava da fábrica, era ele que tomava o posto.

No começo, não dava muito lucro. Aliás, nos primeiros dois meses deu mesmo é prejuízo. Rafael escolheu um ponto que tinha tudo para dar errado: não era perto de escola, faculdade… de nada! Mas justamente por isso é que não havia concorrente. Sendo o único, ele passou a vender relativamente bem. Afinal, podia não ser próximo de nenhum local para o qual as pessoas vão, mas era um local por onde elas passavam.

O jeito pacato e calmo de Rafael ajudou a conquistar os fregueses: quem não gosta de ser atendido por alguém com um sorriso no rosto, sempre feliz? Com o tempo, valia mais a pena deixar a fábrica e ficar só com o carrinho e foi o que Rafael fez. Jaqueline estava grávida do quarto filho e não podia mais ajudar no carrinho como antes. Já que estava dando certo, ele pediu para ser mandado embora. Apesar de tanto tempo como um funcionário exemplar, a fábrica não aceitou demiti-lo. Ele teve que pedir conta, mas mesmo assim estava feliz. Afinal, o negócio ia bem.

Assim, Rafael foi trabalhando com o carrinho de cachorro-quente; mais uma vez Jaqueline engravidou e assim ficou a família, com cinco filhos (duas meninas e três meninos). Os anos se passaram e Rafael permaneceu sempre tranquilo, vendendo cachorro-quente e levando a vida.

Perdoe-me, você esperava a história de um “self-made man”, que ficou rico vindo de baixo. Nem todos conseguem fazer isso. Aliás, nem todos o desejam. Rafael nunca se preocupou com isso. Também não é esta a história de um grande herói, que lutou e morreu por uma causa. Rafael é alguém que simplesmente não quis ter grandes ambições na vida; quis apenas viver em paz consigo e com os outros. Sua história merece ser contada? Rafael quis apenas ser ele mesmo; por isso viveu fora de seu tempo. Viveu? Rafael soube sempre viver pequenininho. O certo é que ele nunca quis muito e nunca esperou muito da vida: “Quando a esmola é demais, o santo desconfia”.

 


RODRIGO DO PRADO BITTENCOURT cursou Ciências Sociais na USP, não conseguiu deixar a paixão pela Literatura de lado e acabou fazendo mestrado em Teoria e História Literária pela Unicamp; estudando Guimarães Rosa. Agora, estuda Eça de Queirós no doutoramento; na Universidade de Coimbra. Tem seis contos publicados em diversas revistas. | RODRIGOPBITTENCOURT@GMAIL.COM

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367