Subversa

Presença | Davi Da Motta


Era um domingo de manhã, sete e cinquenta e duas para ser mais exato, e eu já estava exausto. Não que eu tivesse feito algum exercício, na verdade tinha acabado de acordar, mas foi de um daqueles sonos leves que não descansam nem o corpo e nem a mente. Esses sonos eram comuns para mim naquela época, mas como você poderia saber? Sua vida era simples, sem complicações. Você só descobriu essas noites muitos e muitos anos depois.

De toda forma, lá estava eu.

Eu vinha de uma rotina de trabalho um tanto puxada, e você sabia disso, pelo menos era o que gostava de creditar. Eu dava aulas todos os dias, de segunda a sábado. As noites (por vezes até as madrugadas) eram dedicadas inteiramente à minha tese de doutorado e aos estudos para concursos. Já os fins de semana eram exprimidos entre pôr o sono em dia, preparar aulas, corrigir provas, escrever minha pesquisa e, se desse, passar um tempo com a minha família.

Por isso estava lá no domingo de manhã. Embora no fundo eu quisesse estar na minha cama.

Eram sete e cinquenta e sete, e eu já estava extremamente irritado. Não só pelo cansaço, mas pelo meu contorno. A arquibancada estava lotada de pessoas felizes. Eram pais, tios, avós e muitos outros familiares extremamente extasiados. Já eu estava lá com meus óculos escuros para esconder as olheiras e com um copo de café sem açúcar para tentar levantar o ânimo. Não estava funcionando, só me amargava a boca. Mas lá estava eu, praguejando para mim mesmo o domingo de cão que ainda me esperava, e me sentindo o pior pai possível por não ter a animação que todos ao meu lado tinham.

Era domingo de manhã, oito e duas, e eu vi você sair do vestiário em direção da piscina. Você estava no meio de uma fileira de outros nadadores e ao seu lado estava a sua mãe. Você tinha dez anos de idade recém-completos e pela primeira vez poderia participar do campeonato de natação do clube em que fazia aulas. Você estava ansiosa para isso, falava da competição o tempo inteiro. Até me mandou comprar um novo maiô.

Eu nunca tinha te visto nadar, você tinha aprendido dois anos antes, mas eu nunca tive tempo de sair com você e com sua mãe para um passeio aquático, para ir à praia ou mesmo à piscina do cube. Mas sua mãe te acompanhava em todas as aulas, e ela sempre me dizia que você era boa, tão boa que poderia até se tornar uma nadadora olímpica um dia. Eu nunca levei muito a sério, claro. Você hoje sabe como são os pais, eles tendem a exagerar todas as habilidades e conquistas dos filhos.

Mas lá estava eu, no domingo de manhã. Como poderia perder?

Você se aproximou da sua raia. Vestia um maiô azul-escuro com duas listras verticais rosas. Você detestava aquele maiô, eu só descobri anos depois que a sua fase cor-de-rosa tinha acabado aos sete anos. Mas você nunca fez uma queixa direta. Existem muitas coisas que eu só descobri anos depois, como o fato de você nunca entrar em conflito comigo porque achava que eu te evitava por não gostar da sua companhia. A verdade é que na época eu perdia muito tempo do nosso presente tentando preparar o nosso futuro.

Enquanto sua mãe te ajudava a colocar a touca de natação você vasculhava a arquibancada. Encontrou alguns amigos, para quem acenou, amigos que eu nunca tinha visto na vida e que anos depois não saíram mais da minha casa, pareciam estar sempre por lá. Depois sussurrou alguma coisa para sua mãe. Ela então apontou diretamente para mim. Você abriu um sorriso tão largo que quase não coube no rosto e me acenou um tchau entusiasmado. Eu, claro, retribui o sorriso e o aceno. Você então colocou os óculos de natação e se preparou para o início da prova, ao lado dos seus colegas.

Eram oito e sete e o seu instrutor de natação estava verificando se estava tudo pronto para o início da prova. Mais tarde naquele dia, enquanto voltávamos da natação, sua mãe me contou que você era a criança mais nova na competição. Logo ao seu lado tinha um jovem com quase dezesseis anos. Mas você nem se importou, quando o apito tocou você voou para a piscina com a leveza de uma bailarina.

Nossa, eu nunca tinha te visto nadar, mas sua mãe tinha razão. Você só emergiu quase na metade da piscina, com metros de vantagem do segundo colocado. A água voava e respingava para todos os lados, as famílias ao meu lado gritavam e torciam, mas eu não tinha reação. A prova durou cerca de quatro minutos entre idas e vindas na piscina, com você liderando o tempo inteiro. Por quatro minutos eu não respirei. Por quatro minutos meu coração não bateu. Por quatro minutos eu só ansiava pela sua próxima braçada.

Depois da volta final, você saiu da piscina e abraçou a suam mãe que te esperava com uma toalha. Ela beijo suas bochechas molhadas enquanto eu secava as minhas. Você arrancou os óculos e atirou longe a touca, fazendo voar aqueles lindos cabelos longos que você herdou da sua mãe. Logo depois seus olhinhos me encontraram na arquibancada e você acenou novamente para mim com um sorriso ainda maior que o anterior.

Eram oito e quinze da manhã e meu cansaço e minha irritação tinham acabado. Os pais em minha volta me parabenizavam quando notavam que aquela criança no lugar mais alto do pódio, exibindo com orgulho uma medalha dourada com os inscritos Honra ao Mérito, era criação minha.

Era um domingo de manhã e eu estava lá.


Davi Da Motta | Rio de Janeiro, RJ.

 

 

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