Subversa

Premonição | Ana Araújo


Quando se perde um sentido, aguçam-se os demais. Eu tinha ouvido falar disso, mas não sabia que seria assim.

Os vizinhos de cima nunca me incomodaram, eu nem sabia quem eram. Já tinha ouvido, nas tardes silenciosas de durante a semana, as patas do cãozinho no assoalho. E, em algumas manhãs frias, fui despertado antes da hora pela vibração do despertador no teto do meu quarto. Era tudo o que eu conhecia sobre o casal.

Um casal. Confesso que nas madrugadas insones passava meu tempo ouvindo o ranger da cama nos seus momentos de intimidade, e imaginava como seriam ele, ela? Era tudo o que eu poderia saber.

Algumas semanas atrás, contudo, o clarão da lua cheia não me permitiu dormir; enquanto virava de um lado a outro na cama, ouvi pela primeira vez uma voz. Vinha do apartamento de cima, e tratava do preço da ração. Na manhã seguinte, quando fui preparar o almoço, esqueci o arroz no fogo. Quando voltei à cozinha, vi com assombro a fumaça inodora. Desliguei o fogo, e dentro da panela, uma diminuta placa de carvão colada ao fundo. Não fiz mais nada para comer, e me virei com alguns biscoitos, porque também não tinha fome.

Não tardaram muitas horas para o início da febre. Tomei logo um remédio e a temperatura baixou, mas o corpo estava exausto, e deitei no sofá, apesar de não ter sono. Ouvi o ranger da porta, abrindo, fechando. Passos ritmados para dentro da sala, até sumirem. Depois, acho que sonhei, os passos continuavam até a janela, o homem descia por uma escada, escapava para a rua. Tinha a barba bem desenhada, marcando o queixo quase quadrado. A máscara subia e descia enquanto o homem balbuciava uma série de números, calculava qualquer coisa em uma longa equação rua acima. Na volta, arrastava uma sacola pesada que tocava o chão, e dizia os mesmos números em contagem regressiva. Não acordei com a campainha, passos, porta, passos em descompasso, 3, 2, 1, um rosto em contraluz respirou bem junto de mim, e abri os olhos: tudo em seu lugar, ninguém no quarto.

Não tenho certeza se quem tinha saído não era a mulher. Ouvi um chinelo arrastando em direção da área, água. A vizinha despejou a ração no pote, o cãozinho latiu agudo. Comecei a ouvir as patinhas no assoalho, e o apartamento foi invadido pelo barulho ensurdecedor de panelas, muitas panelas nas janelas da vizinhança. Não liguei a TV, mas já sabia do que se tratava. Seguiu-se um silêncio pesado. Escuto minha própria respiração, já cansada. Ser lançado mais de 50 anos para o passado cansa. Escuto as expirações cada vez mais espaçadas. Me sinto melhor, levanto para ir guardar a caçarola. Diante da geladeira, apesar do zumbido do motor, ouço com mais clareza:

– Por isso eu não queria trazer ele pra casa.

– É só por ele que a gente acorda toda manhã.

– A gente não vai ter mais o que dar pra ele comer.

A porta bate. Me assento por ali mesmo para comer alguma coisa, descasco uma laranja. Sem o cheiro, ela parece um amontoado de borrachinhas. Mastigo a memória de uma laranja, e confio que segue sendo um alimento, mas nada me indica que de fato seja. Nunca pensei que a gente se alimentasse do cheiro das coisas.

Talvez eu devesse poupá-los dos detalhes irrelevantes, agora que minha principal ocupação tornou-se, quando estou desperto e sem febre, acompanhar o casal pelos cômodos da casa. Sei que não é o mais digno a se fazer, comecei a ler um livro, não entendi o primeiro parágrafo, li de novo, tentei pela terceira vez, depois de infinita meia hora desisti. As cores da TV atacam a dor de cabeça, e o trabalho doméstico me esgota as forças em poucos minutos. Não tenho muita gente com quem me preocupar, embora me preocupe com as mais de mil pessoas que diariamente. Reprimo o pensamento, quem sabe se pensar positivo me ajude a não somar a esse número.

De maneira que agora sei que o homem passa as manhãs de chinelo, e à tarde calça um par de tênis e começa a caminhar pela casa. Nos dias mais quentes, percebo que o pé descalço da mulher gruda no assoalho, e que ela pisa mais forte com a perna esquerda, caminhando em um ritmo sincopado. Sei que ela dá descarga depois de urinar, ele não. Sei que ela lava os cabelos a cada dois dias, ele não. Sei que ela passa as unhas pelo chão do box, presumo que para recolher os cabelos que caem. Ele não. Sei que ela tem o hábito de arranhar a escrivaninha com a tampa da caneta enquanto lê. Ele não. Na verdade, não estou certo de qual dos dois risca o tampo, só percebo o atrito do plástico sobre a madeira.

Sei também quando cozinham alguns alimentos: arroz sempre cai um pouco no chão antes da água borbulhar na panela. Reconheço porque quando pequeno minha irmã fez um ganzá de latinha, que tocava com a maior propriedade. Feijão, evidentemente, apita durante exatos 25 minutos. No caso de carne cozida, o assobio da panela de pressão dura um pouco mais. Ao final de 40 minutos, apita o cronômetro, sempre pontual. Ontem descobri ainda que o gás, quando passa pelo encanamento, faz um barulho suave, como uma expiração contínua. Mas é muito sutil, só consigo percebê-lo na cozinha em absoluto silêncio.

No contínuo dos dias que parecem bastante iguais, hoje pela manhã me coloquei mais alerta. O ar passa por mim fazendo um chiado semelhante ao do gás no encanamento. Talvez fosse o momento de procurar um médico. Mas não me sinto pior, e decido aguardar um pouco mais. Não contei ainda, mas aprendi o nome do cão: Inácia, chama-o a mulher, carinhosamente. É uma cachorrinha. Nuninha, chama-a o homem, com a voz anasalada de quem fala com um bebê. Eu gostaria de ter conhecido melhor os vizinhos, me ocorre que nunca os convidei para um chá, nunca me apresentei. Pois hoje à tarde tocou o telefone. O homem atendeu, passou o telefone à esposa: Fabrício. O homem entrou no banho e me distraí com o barulho do chuveiro, o sabonete que cai no chão – tem o peso de já ter sido gasto pela metade, audível ainda, mas certamente não mais com 90 gramas.

Mais tarde, resolvi ir novamente à cozinha. A manteiga e o sabão de lavar a louça têm a mesma textura.

– É meu irmão, preciso.

– Não precisa não, como precisa? Ele não disse que tinha que ficar lá e trabalhar e que nada estava acontecendo?

– Ele ainda diz. Eu disse pra ele procurar outra opção, mas sei que ele vem.

– Ele não vai subir.

– Ele vai. Eu não tenho como.

O tom da conversa não é cordial como parece quando leio assim, por escrito. As palavras eram essas, mas não o tom. O cachorro, até o cachorro ficou nervoso e começou a latir esganiçado. Um copo caiu no chão, os cacos se espalharam. O homem juntou com uma pá, depois que a mulher saiu da cozinha levando o cachorrinho no colo. Acompanhei a mulher até o quarto, deitei e dormi.

-Letíííícia! Leleeeeca!

Me surpreende um grito bárbaro. Bárbaro não no sentido de maravilhoso, mas no sentido de invasores armados. Eu sei pelo tom do grito, o mesmo de um pré-adolescente tentando afirmar a própria masculinidade gritando com a irmã um nome que a infantiliza, e, ademais, soa como “meleca”. Uma palavra infantil, e que não soa bem na voz grave de homem feito que grita lá de baixo.

Escuto o acionamento do portão eletrônico da garagem, o barulho de um SUV que entra. Sobe cheiro de Diesel, e o motor ruge macio e pesado. A manobra na vaga de garagem provoca o barulho que sempre detestei nos estacionamentos de shopping: a borracha dos pneus em atrito com o chão brilhoso. O ruído agudo e inconveniente não acaba nunca, a manobra é tão longa quanto resolver o insolúvel. A geometria enfim se resolve, um corpo maior dentro de um menor. Ou, mais provavelmente, a minha vaga ocupada sem consentimento, junto à da vizinha do outro bloco, que talvez tenha saído.

As molas do elevador se agitam, e antes da porta abrir escuto os gritos novamente, vindos das entranhas do prédio: “Lelequiiinha, Lelecudinha, você estava morrendo de saudade? Dá cá um abraço. Ei, que é isso, tá com nojo de mim, é? Vem cá, vou esfregar meus vírus em você, minha irmãzinha. Ei, tudo bem, tudo bem, não te encosto, credo, só me deixa entrar”.

O homem não deixa a vizinha falar, não deixa ouvir mais nada, enche a casa dessa voz infernal. Não ouço mais o gás no encanamento, não ouço sequer as patas do cachorrinho, o sujeito é incapaz de silêncio ou suavidade. Ele diz coisas horríveis que me recuso a colocar no papel. Dizem que o papel aceita tudo, mas não é verdade. Digo, é verdade, o papel aceita tudo, mas não impunemente. O papel aceita tudo como um trabalhador aceita tudo: chega um momento em que ele se vingará das ofensas acumuladas. Certas palavras não podem ser ditas ou escritas sem tornar menos humano quem as pronuncia.

Misturados às palavras hostis, começo a distinguir os móveis da casa. A cadeira é arrastada com tanta violência que escuto o som escuro do feltro contra o piso de taco, percebo quando a quina passa pela emenda entre as peças de madeira. Os sons se dispersam pela casa, é raro ouvir os três no mesmo cômodo. Mesmo a cachorrinha está mais agitada, e late durante as madrugadas.

É noite. Assentado na cama, me esforço na inspiração. Confiro as pontas dos dedos, sei que preciso procurar um médico se as unhas tomarem tons lilases, mas elas permanecem rosadas.

– Letícia, amanhã você precisa falar com ele.

– Vou dizer o quê?

– A verdade: mal temos o suficiente pra nós dois.

– Tenho pena.

– Tenho é asco.

Acordo com os gritos do novo habitante. Toda sorte de impropérios a tal ponto que eu, homem e bem adulto, pra não dizer mais, coro de vergonha em ouvir. Me recuso a repetir as palavras, mas preciso dizer do resto, ainda mais indecoroso.

Um estrondo de pancada sobre a carne, um grito da mulher, alguns segundos de silêncio. A cadelinha começa a ganir tão fraco. Sinto muita pena, e choro com ela. As lágrimas me consomem, e adormeço.

Acordei aliviado de me ver contemplado em outra dor. Temi que eu mesmo tivesse coragem de torturar um cãozinho para ter uma expressão de dor em que amparar-me. Mas então não escutei mais as patinhas no assoalho e minha dor foi multiplicada como num túnel de espelhos.

De repente considerei que talvez a cadelinha não tivesse sido a única vítima. Me preparava para chamar a polícia, quando escutei um barulho vindo da sala: arrastava-se um móvel pesado, possivelmente um sofá. Soou a voz chorosa e firme da mulher:

– Ele não volta mais aqui.

– Você não podia ter deixado ele entrar.

– Me perdoa.

O tempo transcorre estranho, já não tenho muita certeza do que aconteceu naquele dia, ontem, hoje, quantos dias fazem já. Me recosto na cama para respirar melhor, decido não ir até a cozinha hoje. Me levanto com esforço, caminho até o banheiro. Me assento na privada, escuto a água que escorre densa pelo cano da descarga às minhas costas.

No caminho até o quarto, escuto meus pés se arrastando pelo chão com o peso de uma cômoda, um baú. Escuto uma cômoda se arrastando pelo chão, escuto uma quinquilharia de diferentes texturas espatifar-se contra o chão: tecidos, metais, plásticos e alguma porcelana se misturam.

Sobre a cama, escuto a campainha. Tento gritar, quem é, já vai, mas não tenho a força de emitir voz alguma. Respiro uma inspiração longa e ineficaz, me contento com o ar escasso. Vejo o homem arrombar a porta, a minha, a do andar de cima, escuto os gritos, Letíiiiicia, outros gritos, palavras que me causam ânsia de vômito, ouço o estrondo da porta. Um som metálico se multiplica, tomando o ambiente como um cheiro muito forte.

Um cheiro é como uma premonição.

Vejo a mulher caminhando até a sala, os passos pesados como quem carrega algo, os pés em ritmo sincopado, os passos de tamanhos irregulares, uma urgência medida, calculada. A mulher tem nas mãos um tronco de árvore. Não. O tampo da pia. Sim, a mulher tem quatro patas sobre o chão, e com as quatro mãos livres carrega o tampo da pia, pesadíssimo. Quatro pés humanos não têm jamais a destreza de um quadrúpede, sequer de um burro manco. Os quatro pés se desencontram arrastando o tampo da pia até a sala.

Prendo a respiração para ouvir melhor. O silêncio dura como um mergulho muito profundo embaixo dágua. Vejo, do fundo do mar, as quatro patas do pássaro que sobrevoa a superfície em circunvoluções. Sinto-me tragado por um redemoinho, não resisto, entrego-me ao movimento circular, não ouço mais nada, agarro-me à pedra da pia como à tábua da salvação.

Olho para cima, vejo o tampo do baú aberto à minha esquerda. Abaixo do tampo, o fundo limpo de madeira, inteiramente vazio. Vejo através do fundo, decerto o baú está no quarto acima do meu. Escuto um coro de respirações ofegantes, sinto o peso inamovível do meu braço, a mulher e o homem tentam arrastá-lo e tem o peso aquoso de um cadáver fresco. Não tenho medo, o espaço do meu quarto é amplo e entra o sol forte pela janela.

Algo desaba pesado, e fecham a tampa do baú. Faz-se um silêncio menos denso agora, o coro intensifica-se com risos, gemidos, sussurros, choros entrecortados. Escuto os passos, três pés em desencontro, um tripé pode caminhar? O triângulo de pés se desfaz, reorganiza-se o ritmo, são quatro, são dois, é nenhum, é uma multidão.

Sinto algo como um cheiro, e digo que não é um cheiro bom.


Ana Araújo | Florianópolis, SC | anaouana@gmail.com

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