Subversa

Prelúdio à redenção | Marco Aurélio de Souza (Ponta Grossa, PR, Brasil)

Ilustração: Helena Barbagelata


Senhor eu sinto a tua bênção sobre mim

E, todavia, nem sou digno de ti

Pois quantas vezes tua graça eu pedi

E quantas vezes nesta vida

Fui babaca?

 

Eu que não sou nada

E que fui tudo

O que é motivo de vergonha

E de repulsa

E que fui frouxo

E que fui manso

E que fui fino

Com quem detinha algum poder

Eu fui babaca.

 

Eu que fiz piadas abjetas

E fiz pior

E o mais baixo

O mais nefasto eu permiti

E fui cruel e fui covarde

E me excedi

Pelo avesso a me entender

Como o melhor.

 

Sendo canalha

Eu fiz piada com o pai

Sentado à mesa

Eu fui o Judas, traidor

E depois disso, no entanto

Mãe amada,

O quanto eu fiz

Me repeti

O mais babaca?

 

Eu com a minha ambição afetada

Eu com o meu egoísmo megera

Eu com o meu desejo mesquinho

Eu com o meu prazer hedonista

E o valor absoluto

Irrefreável

Arrastando a inocência resiliente

Na maré do meu esgoto

De miséria e vingança

Tão babaca…

 

Minha ironia, Deus do céu, foi sempre a mais cruel

Inconsequente, atirei-a ao bel prazer

Em toda gente

E por mim mesmo

E somente assim

Foi sempre superestimada –

Patética… babaca?

 

Fui cretino, Senhor, fui conivente

Com o verme que matava o doente,

E fui ingrato com premissas

Ordinárias

Ao distinguir-me do humilde e inocente.

 

Eu desbastava a cabeleira dos anjos, senhor.

Eu era assim, ser deprimente.

E padecia pelo medo de sofrer.

E tendo medo, no entanto,

Eu padecia,

E tanto mais eu me jogava

A perder.

 

E quantas vezes fui então

Esse babaca?

E quantas vezes vi nos outros

O que era meu:

Certa ausência de moral

Vasto vazio

Que camuflei fingindo estar

No colo teu?

 

Eu que simulava epifanias

Procurando a semelhança dos sensíveis

E algum consolo

No artifício engenhoso

Dos poetas.

 

Quanta bobagem, Senhor, quanto engodo!

Se a transcendência, para mim, foi tão chapada

Quanto o acadêmico chavão que decorei…

 

Eu que tinha sempre algum dinheiro pelos bolsos

Eu que compreendia ou fingia compreender

A vertigem dos livros

Eu que me julgava o gênio

Sendo apenas genioso –

Eufemismo besta para o intransigente

Diminuto – quem era eu?

 

Eu que ignorei os pretos

Eu que maltratei as putas

Eu que desprezei os presos

Eu que acusei mendigos

Eu que dominei os fracos

Eu que enfrentei os mancos

Eu que enlouqueci os puros

Eu que gargalhei das bichas e

Na suprema ignorância dos mais moços

Desdenhei dos velhos

Flertando demoníaco

Com os largos sorrisos do inimigo –

Quantas vezes neste mundo fui tremendo

E completo

O mais babaca?

 

Eu que fui uma, cem e mil

Milhões de vezes o babaca

Ter fé não posso, mas me agarro na esperança

De que a lembrança me transporte do que sou.

Que eu tenha sido e, por milagre, ao relembrar

Possa encontrar à sua mesa um lugar:

Que sendo outro aquele mesmo

Eu já não seja.


MARCO AURÉLIO DE SOUZA é natural de Rio Negro/PR. É autor dos romances O Intruso (2013) e Conexões Perigosas (2014). Participa das antologias poéticas 29 de abril (2015) e Patuscada (2016). Travessia, seu primeiro livro de poemas, tem lançamento previsto para 2016, pela editora Kotter. Vive em Ponta Grossa/PR. | AURELIO.AS25@YAHOO.COM.BR

Marcado com:

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367