Subversa

Pôr do Sol na Cidade | Davi da Motta


No meio do caminho corria uma fila. Rostos cansados, abatidos e apáticos esperando mais algumas horas para chegar em casa para seu descanso. As calçadas eram tomadas por camelôs, mas conforme a tarde avançava, as barracas de roupas e utensílios para celular davam lugar as barracas de comida. Acho que o trabalhador cansado da labuta pensa mais em comer que em comprar uma falsificação de Nike ou de Supreme, uma capinha para o celular, ou um fone de ouvido que em poucas semanas deixará um dos lados mudo. Num canto da calçada tinha uma barraca com milho verde, do outro uma com pastel, mais a frente tinha uma com angu, logo depois tinha um churrasco. Os cheiros se misturavam com os gases dos escapamentos dos ônibus e carros numa fragrância nauseante e tipicamente urbana.

As filas dos ônibus, como sempre atrasados em seus itinerários, se misturavam. As pessoas amontoadas disputavam o espaço com os camelôs. Os transeuntes, muitas vezes, escapavam da disputa por espaço nas calçadas andando entre os carros na rua. Fora de perigo, afinal, o trânsito cheio deixava tudo mais lento. Essa história de ritmo acelerado da cidade é pura metáfora, na prática ninguém anda, nem na calçada nem na rua.

E a sinfonia era bizarra em sua aleatoriedade. A começar, claro, com os sons dos carros, seus motores e buzinas. A rádio nos postes tocavam jingles de estabelecimentos locais, óticas, mercados e toda variação de comércio disputando os ouvidos das pessoas nas filas. Quando o comercial na rádio não era uma opção para o comerciante, ele colocava uma caixa de som na frente da loja e um homem com voz grave para gritar as ofertas. Alguns camelôs ainda tentavam vender suas caixinhas de som irritantes. E, claro, os sons das pessoas. Essas últimas conseguiam ser ainda mais irritantes que os demais. Todos os sons eram espaçados, respeitavam uma cadência, um ritmo, mas o falatório e a gritaria eram constantes, ininterruptos.

Já o tato era invadido. Claro, no amontado de gente não existe espaço pessoal. A cada passo você inevitavelmente esbarra em alguém. Se não tiver cuidado, é até possível que você seja levado pela maré de gente e acabe entrando num dos ônibus ou vans sem querer. A expressão mar de gente nunca fez tanto sentido.

E, no meio desse caos, no horizonte uma grande bola de plasma radioativa se deitava lentamente. Sua luz era cortada pelo ar tornando o céu rosado em contraste com as nuvens negras que se formavam aos poucos. Mas na cidade você não tem muito tempo para observar essas coisas, se ficar muito tempo olhando para o céu você tropeça numa criança, esbarra numa fila, ou derruba uma barraca. Na verdade, por aqui, você só percebe o pôr do sol quando as luzes dos postes acendem e deixam a rua amarela.

Mas quando as ruas finalmente ficam vazias o suficiente para deixar uma pessoa olhar o céu, ele já se foi. Durante a noite o céu, que era azul, toma uma coloração arroxada, não mais pela quebra da luz pelos cristais da atmosfera, ah não. Os créditos para a pintura do céu noturno é todo dos gases poluentes que pairam sobre a cidade, como uma cortina. Mas essa não é a única forma de poluição da qual usufruímos. Olhar para o céu noturno da cidade é olhar para um grande véu roxo, com um pouco de esforço se vê a lua entre os prédios, mas nenhuma estrela. A poluição lumiosa nos deixa cegos.

É uma pena não conseguirmos observar com cuidado o céu. Mas convenhamos, que tipo de idiota tem tempo para parar no meio do entardecer para olhar para o céu? Existem coisas maiss importantes acontecendo. Se eu não correr, chego atrasado em casa. Sim, atrasado, porque estão me esperando, se não chegar na hora – ou ao menos não avisar – ficarão preocupados comigo. Não basta bater o ponto no serviço, tenho que correr para casa para bater o ponto e descansar.

Enquanto eu descanso, o sol se prepara para levantar novamente. Eu não assistirei ao seu renascer simplesmente porque estarei apagado, num estado de semiconsciência só esperando a hora do despertador me assustar. Mas, mesmo aqueles que estarão em pé no momento do espetáculo do sol, dificilmente estarão atentos para ele. Assim como eu estava cansado e distraído quando o sol se deitou, eles estarão quando o sol se levantar.

E assim vai mais um dia e mais uma madrugada. O mundo acontece e ninguém se dá ao trabalho de notar, ninguém tem condição de notar.


Davi da Motta | Rio de Janeiro | motta.davi.da@gmail.com

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