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Poesia esférica em “Poemas da meia-noite (e do meio-dia)”, de William Soares dos Santos


por Revista Subversa

 

William Soares dos Santos publicou recentemente seus “Poemas da meia-noite (e do meio dia)”, cuidadosamente editado pela Moinhos. A circularidade da obra chega às mãos do leitor pela capa, pintada originalmente em aquarela pelo próprio William: duas esferas levemente interseccionadas, articulando uma dimensão “cheia” e outra “vazia”, prontas a se eclipsar uma na outra, convidando para a entrada no livro.

Sete ilustrações dividem as sete partes em que os poemas são divididos. A primeira delas, “A dança das esferas”, abre passagem para um espaço literário todo marcado pelo círculo, fazendo uso da geometria em sua marcação rítmica, dosando a matemática neste ou naquele poema para afirmar uma estética do contínuo dos dias. O poeta vai se assentando em estrofes que exaltam o ritmo vital e a harmonização universal: Só há sol / em intervalos / de sistemas / que dançam.

Em outros momentos, o poeta está dessassossegado, contrapondo a geometria cósmica à irregularidade das sensações, ao inexplicável da poesia, como fica mais nítido em “Horizontes”: Em meio a / desassossegos / sem fim, / a terra se aquece / no silêncio. Num tom quase impotente, o último verso de “Big Bang” desespera-se um pouco mais: “Onde eu estava no Big Bang?”. Em “Mitocôndria”, o mesmo contraste aparece, entre o biológico e o mitológico, centro ao redor do qual o poeta orbita em artimanhas estéticas circulares.

Uma das ilustrações mais marcantes é a imagem “Apolo conduzindo a música das esferas”, que faz parte do tratado Practica Musicae, de Franchinus Gaffurius. Cabe lembrar que o teórico musical renascentista desenvolveu o que é comumente chamado de “filosofia da música”, em que trabalha a ideia ligada à tradição pitagórica na qual os sons são tratados em proporções matemáticas. Os números e equações estão presentes no poema Tesla, de William: quais mistérios / encontrarei / ao final / das equações. Curioso é lembrar que Nikola Tesla é considerado um “injustiçado” no mundo da física, apesar de suas contribuições extraordinárias, morreu falido e seu espólio foi entregue, parte do qual ainda é mantido em segredo vetado acesso público. O que faz com que muitos especulem o seu conteúdo, mistério que “não se revela / ao meu ignoto olhar”.

Tal como o Paradigma de Tales, há nos poemas de William um modelo a ser seguido; disperso e fluido como a água, mas ligado a um universo de sensibilidades, ou numa energia tal como definiu Tesla, que nunca se dispersa de todo, está sempre presente ligando todas as coisas: do dia à noite, da morte à vida, do matemático ao inexplicável, do macrocosmo ao microcosmo, da poeira estrelar aos ecos íntimos que reverberam, tal como a pedra, quando lançada à agua. Tudo está ligado, no sentido da teoria de Anaximandro: todos somos feitos da mesma matéria infinita “meu DNA mostra / que estou conectado / quase da mesma forma / à mosca”.  Tudo está composto por contrários que se autoexcluem e, por isso mesmo, se completam: meio-dia ou meia noite.

A cristalização do tempo, diante de sua circularidade infinita, define o que vai permanecer em determinado momento, num eterno retorno de agoras, na filosofia nietzscheana. O pai, que já foi filho, será o pai de um filho que será pai e que terá um filho. O tempo torna-se um eterno revisitar, o déjà-vu, o “repetir / paisagens visitadas / ritmos experimentados, / odores que se perderam no caminho / e que retornam / sem aviso; como um “cometa que volta ao mesmo ponto”.

Se podemos dizer que há uma quebra na sinfonia circular do livro, esta quebra centra-se em “três poemas do desvio”, antepenúltima parte do livro. Sem nunca largar a mão do leitor, o poeta rompe o mundo esférico do dia e da noite internalista e faz alusão a três elementos factuais da realidade nacional (a exploração da natureza, as questões de gênero e a dominação política), explícitos em poemas que estabelecem ligação direta com o real e se situam como um braço social do livro. Ainda que toda a poesia seja política, no desvio está a personificação do poeta político. No badalar dos relógio temporal do livro, é onde os ponteiros fazem pausa brusca, emperram na recolha de momentos que fazem o poeta falar mais alto. “Agora, às margens de Colatina, / quase tudo morreu / inclusive a narcísica figura / do que pensei que fosse eu”.

Por fim, “ecos intimos” encerram o livro com claras referências às influências literárias do autor, que vão desde Manuel de Barros a Stephane Mallarmé, encerrando, novamente, com o devir cíclico do trabalho do poeta, que, de sol a sol, passa pela meio dia e pela meia noite a ler e a escrever a poesia de si e a poesia do universo num movimento infinito.

 

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1 Comentário

  1. SERGIO VIULA 20 de dezembro de 2017 em 19:25

    Que lindo!

    Parabéns, William Soares dos Santos!

    Lindo trabalho!

    Sergio Viula

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