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Pimenta aos (des)bocados II: Mais três respostas de Alberto Pimenta | Morgana Rech (Porto Alegre, RS, Brasil)

₢Sandra Bernardo

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Já contei na primeira edição da revista Subversa, que em meados de 2013, desci do comboio na estação Santa Apolônia, em Lisboa, para encontrar Alberto Pimenta. Relembrando hoje, a cena mais parece um filme. A jovem estudante que passa quase um ano lendo os livros do poeta, tem a chance de finalmente encontrá-lo pessoalmente. A surpresa de ser recebida na estação por Alberto Pimenta foi o suficiente para saber que aquela não seria apenas uma entrevista, mas o início de uma conversa que até hoje influencia alguns pensamentos que tenho em relação à posição da literatura e do artista neste mundo.

            Por serem as três respostas de Alberto Pimenta (das nove que o poeta me respondeu com a precisão de uma espada de Tai Chi) das linhas mais lidas da nossa revista eletrônica, nada mais justo do que compartilhar com o leitor o que mais aconteceu naquela tarde:

MR – O que é mais poético, o instante em que surpreende o Homo Sapiens refletindo-lhes a própria imagem na jaula, ou o texto que escreve depois com os comentários que ouviu?

Pimenta – Creio que poético é um conjunto, das duas coisas. Creio que só uma sem a outra não seria… só a exibição do Homo Sapiens para outros assim sem mais, seria um mero ato circense – o que tem o seu encanto – mas não é poético ainda, é um ato incompleto, tão incompleto que a questão será… mas o que é isto? Indefinidamente todos perguntarão o que é isto. Agora… é definitivo? Não é? Um homem estar dentro da jaula, e como… Agora acrescentando a isso o que uma série de gente anônima que vai ao jardim zoológico ver animais diz perante esta circunstância… temos a dialética perfeita da criação e da receção. Algo de inesperado, algo que quer ter um sentido e que ele adquire nesse momento, no momento em que há uma certa receção, uma certa expressão dessa receção. Então o poético é essa totalidade, e só poderia ser naquela circunstância até em certo ponto real que se chama jardim zoológico. Ou seja, isto feito numa galeria não tinha absolutamente nada de poético… tinha de artístico sim…que é uma coisa diferente… era um ato de artista… Construir uma jaula numa galeria e meter-se lá dentro da jaula, é uma forma artística… uma forma de criação de arte, de estética artística, mas não era poético ainda, não era… Não dava a reação que este deu…. isto teria de ser… só é o que é, sendo de fato numa jaula de jardim zoológico real, embora sabendo depois ou muitos não sabendo exatamente se de fato o homem está compulsivamente ali ou não. Isso é importante. Mas tem que ser alí, de forma que há de fato uma certa angústia em relação à categorização estética de espetáculos onde há a ilusão da prisão, onde há ilusões desse tipo, que são ilusões que duram um espaço… que são metáforas, isso são metáforas. Isto não foi uma metáfora, a diferença está nisso, é que aqui não há metáfora nenhuma… aqui há um homem dentro de quê? Duma autêntica jaula… Um homem autêntico dentro duma autêntica jaula dum autêntico jardim zoológico, que é isto? Voilá.

 

MR – Vê algum ponto em comum entre as políticas do sexo e as políticas do literário?

Pimenta – Há aqui na maneira de pôr a questão uma outra questão… uma questão que de fato, talvez não seja uma questão ((risos)). Eu agora vou ficar em volta disto… uma questão que talvez não seja uma questão para muita gente, mas para mim é uma questão… que é o de falar de política do sexo e de política do literário… ou políticas… Política do sexo em termos literais entendo por exemplo as leis… leis que regulam idades em que é permitido ter sexo, considerando o sexo como um ato, como direi? Um ato fácil de definir, ou um ato elementar numa certa natureza. Leis que consistem portanto nisso, leis que consistem em definir sexos, formas de sexo permitidas e formas não permitidas… ainda num certo limite leis do aborto, já num limite um pouco já ligado a outro aspeto… até aí eu posso falar de políticas do sexo, só nesse aspeto, não é? Nesse aspeto de consideração dos autores das leis, daqueles que fazem as leis, fazem as leis para que o sexo, aquele sexo normativo, aquele sexo que significa uma certa penetração dum órgão num outro órgão mais nada, nem menos nem mais, só isso. E políticas do literário já tenho que entender doutra maneira porque não há legislação sobre o literário a não ser eventualmente uma legislação geral, não sobre o literário mas sobre a escrita… sobre o texto… com limites ao que pode ser dito e o que deve ser censurado… o que não pode ser dito. Bom e então, tentando agora ligar ou desligar as coisas ficam complicadas. Ligar o sexo ao literário em si é uma coisa, ligar as políticas do sexo às políticas do literário é outra, não me parece muito produtivo sequer… a não ser que consideremos que no literário a censura em si essencialmente incide preferencialmente em descrição do sexo ou… elogio dum sexo que a lei não permite, portanto em contradições entre a atitude do literário em relação ao sexo, com a legislação sobre o sexo. Nesse sentido então acho que estamos mais em domínios do legislativo, da legislação, do que noutro. Não estamos num domínio do ((interrupção)). Especificamente tudo o que há de sensual… eu prefiro o sensual, o sexual é sensual, sensorial, sensual no ser humano e a sua manifestação literária, já não estamos exatamente nesse domínio, estamos no domínio da legislação em vigor. Bom legislação não a quero discutir porque acho que legislações não vale a pena discuti-las porque seriam todas tão discutíveis… desde as primeiras… as primeiras da Bíblia são as primeiras legislações… ou antes ainda… as de Hamurabi na Suméria… não são muito diferentes das de hoje… isso é que é curioso. E não vale a pena discutir aquilo que não nos diz respeito, isso não me diz respeito, pode me abranger, claro, posso ser abrangido mas não me diz respeito… eu não me interesso… pela mente de pessoas que fazem leis… ESSE TIPO DE PESSOAS NÃO ME INTERESSA. Agora, deixando portanto isso… se o literário, portanto mais que o poético, o literário em geral… está a tentar, quer, deseja, procura simbolicamente pelas palavras que lhe foram dadas, lhe foram dadas logo ao adquirir uma língua, ou duas ou três, as palavras que lhe foram dadas para conhecer o mundo… se eu quero usá-las de uma maneira tal que, inovando a relação entre elas, que defina aquilo que normalmente não está definido em lado nenhum que é o desejo, que é o móbil que está por trás, aqui está dito sexo… um desejo fundamental, um desejo fulcral, um desejo de raíz, radical nesse sentido, então sim… então a ligação é muito importante porque sendo o sexo talvez um móbil radical do desejo humano, do desejo de existência… que se procura precisamente na legislação fazer desaparecer, apagar, reduzir só à utilidade… se esse desejo é de fato um grande móbil da existência humana… então a literatura não pode ser outra coisa senão uma forma variada de ir procurar essa raiz do desejo que orienta o ato do ser humano… e duma e doutra maneira o literário com raras exceções é aí que vai ter e é em volta disso que se move… nessa raiz de desejos que leva à toda espécie de atos que nós conhecemos por parte do homem. Então sim, então a relação é total.

 

MR – Das inversões que trabalha sob a via do pensamento filosófico da negativa, qual a mais importante para si, hoje em dia?

Pimenta – Há aqui uma referência implícita à teoria da negação crítica de Adorno. Negação de quê? Negação de que a teoria, a palavra, a arte sobretudo, seja uma solução de qualquer espécie… A maior parte da arte no momento em que se identifica com o sistema está a negar-se a si mesma, porque a função da arte é sair do sistema, pôr em causa o sistema e CRIAR valores diferentes do sistema. A negação principal é essa… se a arte não faz isso, se a arte em tudo o que nos dá está dentro do sistema, acho que não interessa.


Morgana Rech (Porto Alegre, RS, Brasil) é psicóloga, mestre em Teoria da Literatura e escritora. Defendeu em 2013 a primeira dissertação acadêmica feita em Portugal sobre Alberto Pimenta. Publicou seus primeiros poemas em Noites Mal Dormidas (Corpos, 2012) e  Casa de Vidro (Multifoco, 2014), coletânea de poesia e prosa. É cofundadora e editora do Canal Subversa.

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1 Comentário

  1. Carmo 9 de abril de 2015 em 18:19

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