Subversa

Perenes Instantes | Pedro Belo Clara

"Woman at the Piano", Pierre-Auguste Renoir

“Woman at the Piano”, Pierre-Auguste Renoir

 

Os longos dedos do astro maior rompem a delicada neblina matinal, subindo lentos e seguros aos frios telhados das casas. Sedentos de sombra, dum só assalto invadem as mais incautas janelas, tentam conquistar cada recanto das salas ainda imbuídas no silêncio da madrugada, reclamando-as com dignas promessas soalheiras.

Com laivos de mágica criatura que habita em indizíveis sonhos, emerges dos corredores ensombrados para ofereceres o corpo à frescura da manhã.

Na quietude de deuses que não sei, sem som de palavra tomas lugar em frente do velho piano para saudar tão ilustre convidado. Passeias docilmente os dedos pelas teclas que, capitulando à doce carícia, ansiosamente aguardam um toque mais firme. Então, com gestos de quem hesita magoar o silêncio, as breves notas dum secreto acorde entoam e dançam, lentas, na timidez da primeira luz, esboçando as linhas da sua pauta imaginária.

Em sossegos de borgonha esbatido, desejando um poema de perfume nunca antes sentido pelas palavras, esqueço os olhos no teu dorso despido, o caminho regular de tanto prazer, enfeitado neste quadro de improviso pelo porte gentil de violetas recentemente colhidas.

Visita-me sem aviso um sorriso pueril. Memórias frescas da noite de entrega e fantasia povoam os espaços vazios da pequena sala, beijando os nossos rostos de saudade com a húmida certeza do orvalho. Estarei esquecido como estas imagens que nos adornam tão tenuemente evocam o tanto que se perdeu?

E a melodia prossegue como composição de fundo a todo um espectáculo que ignoramos. Numa placidez de anjo renascido vais sentindo cada dor, cada sorriso que a composição sugere, cada essência de instantes idos e tão distintos em si – mas, pairando, parecem urdidos pela arte do mesmo fio. Onde te findas, afinal, onde se queda a primeira nota?

Devolves, enfim, ao silêncio o seu lugar. Na suave meia volta de quem regressa dum estranho sono, de perfil entreolhas-me na cumplicidade e ternura que nos fala e acende os sorrisos, permitindo revelar a proeminência dos teus seios levemente arrepiados – pela melodia cessada ou pela brisa que a cortina deixou entrar?

A manhã já despertou para além da velha janela e dos recortes da varanda de pedra, onde os verdes campos se estendem numa tão aprazível imensidão – mas em nós temos o mundo e tempo nenhum que nos detenha.

Ergues-te sem ruído, deixando que a luz ainda pálida inunde cada contorno do teu corpo de deusa fadada à morte – quais ondas dum mar que devotamente beija margens morenas. Diante do meu abandono, pelo feitiço que nos enlaça pedes para regressarmos aos lençóis de seda pura, ao leito de toda a magnífica criação.

Sem esperar resposta (e para quê o cansaço de te a dar, se gémeo é o meu desejo mais íntimo?), tomas a minha mão, soltando-a da pena que a guiava. Desejosa por unir a nossa nudez, conduzes-me de volta aos corredores ensombrados, até que repoisemos no regaço de tanta partilha, das confissões mais absurdas: o prelúdio do templo erigido em ti.

Esqueço ambições vãs, ideias tolas: o poema não sucumbirá ao peso das pedras, à invasão dos musgos. Já a torrente mágica que hoje vive e baixinho canta em breve terá o destino das rosas.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional prelector de sessões literárias, actualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic hear.

 

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. André Siqueira 11 de maio de 2020 em 21:41

    Muito bom. Um prazer reler e apreciar cada cena tendo o piano presente, esse instrumento tão inspirador e que estimula o labor do poeta. Adorei. Parabéns.

    • Pedro Belo 25 de junho de 2020 em 08:36

      Caro amigo, muito obrigado pelas suas palavras.
      Um abraço.

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