Subversa

Peito de Frango | Gabriel Correia


Após o quadragésimo quinto dia de minha dieta heterodoxa, comecei a sentir estranhos sintomas que talvez indicassem que já era hora de comer algo diferente de arroz e peito de frango. Já não lembrava se por falta de dinheiro ou outro motivo qualquer havia chegado naquele ponto, o fato é que não aguentava mais sequer olhar para aquela composição culinária. Meu corpo já não respondia às minhas vontades como antes e minha mente pregava-me peças a todo momento. Cheguei mesmo a rir de minha ridícula situação ao me ver prostrado em frente ao prato habitual, enquanto tentava, entre engulhos e soluços, terminar a refeição. Desesperei-me. Voltei um pouco no tempo para tentar visualizar a situação de um ângulo diferente, o ângulo de quem já sabe o final da história. Voltei aos poucos, primeiramente, e de maneira alucinada então, e então e então fui reunindo fragmentos de um passado não distante, porém já esquecido. Fui dispondo esses fragmentos aleatoriamente a fim de que alguma das ordens sugeridas me trouxesse alguma resposta e me indicasse alguns caminhos. A velocidade com que esses fragmentos retornavam à minha mente era tamanha que apenas depois de organizá-los matematicamente numa sequência padrão comecei a enxergá-los como pedaços de uma vida, no caso, a minha. Fragmentos. Um frango vivo correndo assustado no meio da rua movimentada, bico do frango, asa, pessoas andando em direção à catraca do metrô, bois no matadouro, plantações de arroz em algum lugar na Ásia, asiáticos, supermercado, cinco quilos de arroz, prateleiras cheias e coloridas, luz, muita luz, luz branca, carrinho de supermercado, carro de luxo, prateleiras vazias e cinzas, panelas, cozinha, geladeira vazia, gaveta da geladeira com uma tupperware, fogão quatro bocas branco já amarelado de gordura, tupperware com um peito de frango dentro, frigideira, cor estranha, meio cinza, panela no fogão, fogão desligado, arroz duro, arroz frio e duro, boca entupida, crostas de gordura preta escondendo o metal que um dia fora cromado, prato branco, garfo e faca, mesa de cozinha, uma cadeira, lugar vazio, vazio não, comigo dentro, eu comendo, comendo arroz frio e duro . . . e peito de frango, o famigerado peito de frango descongelado quase cinza e com gosto de borracha velha. E outro dia, e mais outro, e frango, e arroz, e eu sozinho comendo, e eu sozinho comendo, e eu sozinho comendo, e eu sozinho comendo. E o fragmento se une a outros fragmentos e juntos constroem uma gigantesca sequência de fragmentos que parece não ter fim. E como nessa viagem não tenho nada para fazer, eu conto o tempo. Os segundos, os minutos, horas e dias. Quarenta e cinco dias, doze horas, vinte e cinco minutos. Treze segundos, quatorze, quinze, dezesseis, dezessete. Entre engulhos e soluços eu conto o tempo quando finalmente chego aqui onde estou agora.

Derrotado, empurro mais um pedaço do frango cinza para dentro de minha goela e bebo em seguida um gole d’água de um copo de vidro enfeitado pela marca do requeijão consumido após o prazo de validade em um passado remoto. Há mais arroz em meu prato, um arroz que não pede para ser devorado e menos ainda para ser deixado de lado. Ele está lá, mas é como se não estivesse. Ele não faz diferença, ele não faz mal, ele não fede, ele não cheira, não é insuportável, mas eu não o suporto. Duro e frio ele sobe direto para a minha cabeça e pesa toneladas. Eu abaixo a cabeça. Encaro também o último pedaço do frango cinza, esse sim que tem um gosto que lembra a minha vida, um gosto que odeio. Poderia ser sucinto e me explicar melhor, mas que posso fazer se ele tem gosto de vida minha. É algo que só sinto dentro das quatro linhas que separam o meu mundo das ideias alheias, e se as ideias alheias não comportam tal comparação entre peitos de frangos e vidas privadas, então não há nada que eu possa fazer pelo observador do mundo exterior.

Paro. Prato. Lado. Nada se move. Um frango metido a galo começa a querer cantar no meu terreiro, ah, diabo, aqui é que não canta, não. Xô, frango sem jeito, vai pro galinheiro que é o teu lugar. Aqui não, aqui no meu prato não! Vai embora, some, some! Se você não sabe voar, a culpa é que não é minha, pois se voasse, oxalá voasse, poderia não ser presa tão fácil como é. Aí, guardado, aprisionado, escravizado como fica, só esperando o dia do seu juízo final, não passa de um futuro pedaço acinzentado no meu prato. Sai desse  prato, procura outro! Fica caro, pede proteção pros ativistas, estimula depressão, pede imposto, dá algum jeito de não vir parar aqui no meu prato. Aprende a voar, frango, aprende a voar!

Quando não há fome, pode haver fome. Arroz e peito de frango, o tempo passa, a tortura aumenta. Um cheiro invade o recinto, cheiro de frango quando é mal cozido, um cheiro cinza. Não consigo mais ficar aqui neste lugar vazio, não consigo mais suportar o cheiro, e o frango não quer ir embora. Ele está aqui, está na cozinha, eu posso sentir. Olha lá! Olha ele ali atrás daquela cadeira, ele está tentando se esconder. Olha á! Á! Á! Deus! Ele está aqui me olhando, sem pele no pescoço e com dois dedos a mais no pé direito. No direito! O cheiro vem dele, do frango. É assustador. Não dá mais para continuar aqui. O cheiro fica mais forte. Mais forte. Forte. E o o. O frango. Frango. O frango faz “pôôrrr” e abana as asas. Tem duas colheres enfiadas na asa direita do frango. Duas!Quando não há fome, pode haver fome. Quando não há fome, pode haver fome. Quando não hã . . . Saio de casa. Nas escadas o cheiro ainda está presente e forte. Chego à rua. Na rua não há cheiro. Deus me ajudou! Livrou-me do mal, amém. Agora sossego e começo a andar tranquilamente pelas ruas tão lindas do meu coração, tão, mas tão lindas!

Adeus peito de frango com arroz, peito cinza com gosto mais cinza ainda e arroz frio, frio e duro. Finalmente me libertei dessa maldição, os quase 46 dias de inferno se foram. E suavemente caminho por aí, enquanto meu estômago olha pra mim e diz que uma comidinha para comemorar nossa vitória viria bem a calhar. Concordo com ele e, agora que minha cabeça começa a pensar cristalino novamente, começo a procurar alguma lanchonete ou algo que o valha. Logo ali na esquina vejo uma placa com os dizeres “Algo Que o Valha” e resolvo entrar para dar uma olhada. Não! Que é isso, menfedrigis? Aqui na rua mesmo está o que preciso, é lindo o que vislumbro. Picanha. Maminha. Alcatra. Bacon. Tudo isso e muito mais ao meu redor na rua, indo pra lá e pra acolá, suculentos ao extremo, exalando um odor que não sentia desde as gloriosas churrascadas na casa do Tu. Um churrasco – rebanho bovino, rebanho divino? – completo caminhando pelas ruas só esperando alguém para saboreá-lo. Esse alguém, caros visitantes, esse alguém sou eu, sou muito eu, sou eu ao extremo. E sim, é claro que sim, eu vou. Eu Vou. Pulo na primeira picanha que passa na minha frente e já arranco-lhe um belo de um pedação. Sigo pra Alcatra e mordo com vontade, já de olho na Maminha. Ela me aguarda. Mas no meio dessa celebração algo me segura e começa a me repreender. É o Bacon. Ele me imobiliza com a ajuda do Medalhão e do Coração, e começa a falar, e diz um monte de coisa que não entendo direito. Bizarra situação essa de ser impedido por um Bacon, mas você que está sentado na janelinha ficará mais espantado ainda quando o Bacon, de maneira violenta e pouco cordial, me dá voz de prisão! Já não entendo nada enquanto sou colocado dentro da viatura da polícia em forma de queijo coalho e levado embora.

Agora é aqui ou conto isso como quem se refere ao passado? Alguém me ajude, pois me livrei de um inferno de malditos frangos cinzas pra depois ser preso por comer churrasco na rua. É inadmissível, é imperdoável, é. Respiro, agradeço ao Espírito Santo pela graça alcançada. Mas qual graça? É. Espero um pouco, decido esperar um pouco, estou numa sala escura sem nada para comer e com uma fome crescente, crescente, cresceu. Não há nada para comer, ou melhor, não havia, pois acabo de perceber um apetitoso pedaço de costela em minhas mãos, e esse não me escapa, dou logo uma mordida boa para garantir um pedaço grande e é como o paraíso. A costela mais deliciosa que comi em toda a minha vida, e a devoro com tanta vontade que esqueço que até agora há pouco eu tinha dedos. E mãos. E braços. E pés. E pernas. E abdômen. E tórax. E pescoço. E


Gabriel C. Correia | Campinas, Brasil | Professor – Cinema e Audiovisual/Radialismo | bielsued@gmail.com

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