Subversa

Pedra de primavera | Estevan de Negreiros Ketzer


Sob a luz de velas em uma mesa circular um dos velhos homens se levanta, com suas roupas e chapéu pretos, após muitas horas de meditação silenciosa debruçado sobre um livro com letras semíticas muito antigas. Ele pede a palavra, com delicadeza: “Uma mulher vai receber.” As barbas velhas se atiçam na poeira moderada das grandes salas subterrâneas.

— Vedes aqui já na linha da 12ª caverna de Qumran, tanto no Livro de Enoque, e em uma linha das profecias de Isaias, desde a invasão dos anjos até a extinção da raça humana no tempo de Noé. E lá também o seu remédio pelas letras dos Salmos, de David. Escrito foi, é e será.

— Sim, mas fala-nos dessa mulher.

Assim foi que a primeira estrela apareceu no deserto.

***

Zelda entrou sozinha num apartamento velho, amarrotado de lixo por todos os lados. As janelas estavam fechadas em um dia de sol e calor. Isso a desorientou. Com aquele cheiro pestilento o melhor que ela poderia fazer era abrir as janelas com a juventude de seus dedos. De dentro de um dos quartos surgiu um vulto, se aproximando dela com os olhos pequenos e sem brilho, arrastando os passos em andrajos sujos. De sua boca um grunhido estranho às coisas vivas. Pedira desculpas, indicando um lugar para Zelda sentar. Implorava que não reparasse na bagunça! Dava um jeitinho daqui ou dali… Mas e esse odor? Por que as janelas fechadas? A velha se afasta, muda os olhos de direção e sorri de canto, debilmente.

— Gostaria de lhe oferecer mais espaço… — diz a velha senhora.

— E eu gostaria de… — ela se interrompe.

— Fique aqui. — A velha pega a mão da jovem que se afasta contorcendo o rosto. Aquelas paredes cheias de mofo e as montoeiras de coisas empilhadas. Cada coisa fora do lugar porque não há lugares para tantas coisas. Um tufo de cabelo chega aos seus olhos. Cada fio conta uma história muda. — Eu preciso de você para me ajudar…

A sua única maneira de sobreviver foi sufocar e cair. Assim parece que não morreu e não houve reação alguma! Respiração sem som ou movimento. Uma hora depois, com muita coragem, levanta-se da grama ainda abatida pelo choque. Somente agora pode sentir-se ofegante. Nota suas mãos sangrando e sabe que veio do meio de suas pernas.

— Eu tenho de partir. Vim para ver como você estava.

— Desculpe mais uma vez… — A senhora encabulada e desorientada de mãos enrugadas.

A porta bate.

***

Um dos velhos resmunga após ouvir sem vontade aquela história.

— Zelda é uma pessoa comum…

— A profecia foi feita para todos. — Disse um outro, conservando a serenidade nas rugas. — Assim como ela, nós devemos ter cuidado com as palavras para que não tornemos corrupta a língua sagrada, enchendo-a com virulências.

— Tem sido assim há milênios e por isso não podemos esquecer. — Ainda um quarto homem se sentiu calmo o suficiente para arremedar. — As qualidades não possuem imagens, nem corpo. Dá fonte nasce a água que emana sobre a terra em forma de rio. E nada disso podemos saber.

Surge a segunda estrela num céu límpido.

***

As crianças a abraçaram! Um belo casalzinho. Sorrisos e alegria de quem há muito não se via. Ela caminhou na direção do homem à sua frente, segurando os filhotes nos braços enquanto observa-o rapidamente. Ele continua altivo e forte, lindo, como sempre fora. As crianças começam com as novidades para todos os lados, querem brincar o máximo que podem e a puxam com afeto.

— Eles sentiram saudades de você esse tempo. — Disse o homem em seu paraquedas de sensações.

Zelda não foi ao encontro de seus olhos. Nunca mais olharia daquele jeito quando se gosta de alguém ainda lá no fundinho. Tudo aquilo era tão somente para ver como as coisas estão.

— Eu precisei me afastar, mas também sinto falta…

Para ela era possível ver todos os sons emanarem da cabeça daquele íntimo rapaz. Os ruídos proliferavam uma voz perturbada: “Como se só você existisse no mundo”. Martelavam as ideias de que uma fuga seria uma eminente salvação, necessária e urgente, de que o lugar todo não existia. E ela treme. Aquele olho gigante levanta no horizonte de novo, brilha de dentro do rio, destruindo todas as terras, ruidoso no estrondo da queda das montanhas para iluminar os últimos raios de sol no vale. De dentro do olho uma luz que não iluminava, luz negra circundante.

As crianças a puxam para brincarem no escorregador.  Era para ela se movimentar agora. Mais tentativas de ser humana como todos lhe disseram como tinha de ser, repetir, fazer o mais parecido. Uma voz em seu ouvido que sempre dizia para desconfiar dos milagres, dos grupos, da alegria genuína das pessoas idiotas. Ela sentia os seios vazios, a dor da endometriose cortando-a sem lágrimas, porque a última vez que poderia ter sido se tornara o nunca mais. Queria uma pele nova, para ainda ter a nítida crença de ser a salvadora do mundo depois do seu fim.

— Você não está bem. Melhor voltar para casa, Zelda. — O homem diz decepcionado.

Os passos apertados com a pressa imprimem nela a umidade do tempo, fazem o suor escorrer devagar, ardendo um pouco sua vista, deixam insuportável a sola plana dos pés. O sono se impõe à vontade de caminhar. O pôr do sol toma conta do vale lentamente, deixando a cidadezinha cada vez mais distante e cinza, ainda que alguns feixes de luz marquem as copas das árvores durante o crepúsculo colorido. Para muito além entre o olho e as montanhas, a solidão gravita entre os aromas doces das flores ao redor do rio. Sim, ela recebia os aromas ainda. As flores em suas quantidades imensas, também incontáveis pétalas despencavam prematuras. Dentro dela os cálculos da natureza, mantinham a superfície do vale completamente sossegada, ainda que em quinze minutos seu ônibus estivesse na rodoviária para levá-la de volta à cidade grande.

Splak! Ela esbarra em uma pedra. O dedão do pé começa a pulsar de dor. Mas se ela não correr perderá o ônibus! Não faz diferença, pois vem outro ônibus depois… Sozinha mais uma vez na parada, duas horas, caminhando pela cidade, olhando as lojas fechadas, ou escutando o contentamento produzido pelas pessoas naquela que um dia foi a sua cidade, tranquila e pacífica. Zelda sabia que ao entrar no ônibus tudo estaria bem novamente. As coisas seriam assim como sempre foram, inclusive os seres estranhos dentro dela continuariam quietos sem se mover. Isso porque uma vez por mês ela tinha viajar e se esforçar para mostrar aos outros sua aptidão para viver sozinha.

Mas então ela dá o primeiro passo para subir naquele ônibus. Somente aí ela para completamente, vira o rosto para o lado, olhando o caminho percorrido entre o vale e o silêncio embrutecido daquela tarde de primavera. Trepida, num instante, se deveria entrar e voltar para casa ou ficar para resolver o resto de vida que tinha.

***

Quando as primeiras três estrelas apareceram ao céu o conselho dos dez anciões se retirou. Foram todos para suas casas onde lá, cada um com sua família, se reúne para o jantar. Os livros agora fechados um dia estariam cheios novamente de novos acontecimentos. Somente a cabeça do velho homem tinha ainda uma boa intenção depositada, talvez por receber a jovem em seus pensamentos: “Durma bem, Zelda”. Talvez um dia, depois de muitos anos, todas as coisas fariam sentido. Zelda, dorme um sono pesado. E de longe, na vastidão do vale levantava o gigante Eyin Sof, ainda mais uma vez. O olho que não a protegera solta uma lágrima, tão contida e calada, diante da decadência imensa, obstinada em esperar sob o silêncio das eras.


Estevan de Negreiros Ketzer | Porto Alegre, Brasil

 

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