Subversa

Pedir para não roubar | Sérgio Santos (Barreiro, Portugal)

Ilustração: Neal Pickhaver

Ilustração: Neal Pickhaver

Estava na paragem do autocarro, penso que existiria uma fila com cinco pessoas que aguardavam o transporte. Um mendigo ou um drogado aproxima-se e com ar pesaroso pede que lhe facultem uma esmola para diminuir a sua dor. Há medida que as pessoas sobem para o autocarro, ele escuta desculpas ou apenas a mera indiferença. Revoltado e sem argumentos, perante as recusas, finge que pensa em voz alta e afirma.

– Depois querem que um homem não roube! Metem-nos entre a espada e a parede e depois só nos resta pisar a poça e chafurdarmos. Bahhh!!!..

Fico sentado a pensar no assunto enquanto o veículo arranca. Imagino então a seguinte situação: e se outros também fizessem o mesmo pedido ao público anónimo? Muitos para lá do ar respeitável e supostamente digno vivem acossados, antes de cometer o mal irremediável poderiam apelar a que os ajudassem. Fixo-me a olhar para a janela e observando o exterior imagino então as seguintes personagens que se passeiam na rua.

….

Noutra paragem, um homem aparece está bem aprumado de fato e gravata, corte de cabelo impecável e usa um perfume agradável. Dirige-se às pessoas que estão na fila e começa o seu discurso.

– Bom dia! Chamo-me Raimundo Esteves, sou gerente comercial de uma empresa imobiliária. Infelizmente influenciado pela mania das grandezas embarquei numa onda despesista e comecei a gastar mais do que devia. Eu e a minha mulher quisemos comprar um T5 numa zona nobre da cidade e actualmente pagamos uma exorbitância em juros. Temos também uma vida derreada, onde investimos muito em bens materiais e serviços que completam a nossa ilusão de felicidade: Boas roupas de marca, jantares em restaurantes exclusivos, mobiliário de luxo, bons vinhos, férias no estrangeiro de primeira classe, clube de golfe, carro de alta cilindrada. Um dia a bolha tinha que rebentar. As despesas eram mais que muitas, mesmo trabalhando mais horas para ganhar mais prémios de produtividade eu e a minha mulher não aguentamos o barco. Pedimos dinheiro a agências de créditos ao consumo para renegociarmos as dívidas, mas só nos atolávamos mais ainda.

Tudo está hipotecado, desde a nossa casa, carro e escassas poupanças, inclusivamente valores de familiares próximos e amigos que quiseram ajudar-nos e acreditaram nas nossas mentiras e acabaram por ficar como nossos fiadores. Não vou conseguir aguentar mais, tudo se desmorona à minha volta, os tribunais perseguem-nos e eu não tenha mais por onde me virar. Peço-vos que me ajudem, preciso de 50.000 Euros! Já não sei o que fazer para arranjar esse dinheiro.

Tem que me ajudar!!! Senão terei que roubar dinheiro no balanço de conta do imobiliário onde trabalho, falsificar a declaração de IRS, provocar um incêndio na casa dos meus avós e tentar sacar posteriormente o dinheiro do seguro, talvez tenha mesmo que me dedicar ao pequeno tráfico de droga pois sei que alguns amigos meus conseguiram desta forma um rendimento extra bastante agradável.

Não quero actividades desonestas! Peço-vos ajudem-me! Estou desesperado!!! Preciso do vosso auxilio.

……

Mais à frente, observo outra fila e outro interveniente, é um miúdo traz um brinco na orelha, calças largas, ténis desabotoados, casaco desportivo com capucho. Tem um ar gingão e uma atitude desafiante, inicia então uma conversação com as várias pessoas que estão à espera do 145.

-Olá “Barriles”. Saudações! O meu nome é Fernando Gilas mas todos me chamam o “Mãozinhas”, tenho apenas 17 anos mas já estou com muita rodagem!!! Ehhh!!!

Bem!… É assim!… O meu velho é cadastrado e apanhou 15 anos que está a curtir em Monsanto, a minha velha trabalha como empregada doméstica a limpar as sujidades dos que se dizem grandes, mas são apenas ranhosos! Moro na Musgueira, numa casa ilegal e a cair aos bocados. Bem!…. A verdade é esta, eu não vou acabar podre como os que me rodeiam! Hei-de ter tudo o que mereço: Dinheiro, gajas, fama, prestígio, muitos bens materiais….

Como não tenho jeito para a escola que, aliás, também não ia dar em nada, nem para ser explorado num emprego de porcaria onde dou o litro e não ganho nenhum, não vejo outra alternativa senão dedicar-me a uma vida de crime. Já percebi que com pequenos assaltos a supermercados também não vou lá, isto tem mesmo que ser com assaltos à mão armada a ourivesarias e a gasolineiras.

É assim meus, eu não queria entrar nessa vida, porque sei bem o que aconteceu ao meu pai e a amigos meus. Para entrarmos nesta onda, tem que haver uma grande organização e muitos cuidados senão a “judite” e os latas apanham-nos. Sei que não sou cuidadoso e acabaria por cometer erros fatais, ainda acabo numa prisa sodomizado por algum gorila.

De modo que venho pedir-vos, ajudem este puto aqui! Precisava de 780.000 Euros. Acreditem se tiver essa massa vou curtir à boa e não incomodo ninguém. Compro uma alta mansão com piscina, crio uma editora de música Hip-Hop, contrato umas garinas para fazerem parte do meu harém privado, dou altas festas, conduzo grandes carrões e faço altas corridas na minha pista privada, apareço nas revistas de sociedade e na televisão. O mundo ia ganhar uma estrela e todos teríamos a ganhar com isso. Não é justo eu ter nascido nesta condição, não pedi isto! Estou condenado a ser um ranhoso de merda que não tem horizonte nenhum!

Quando eu vejo tantos poltrões que tem uma alta vida e não fazem nenhum, eu penso como tudo isto é injusto! Aqueles “mans” da TV, dizem umas baboseiras e ganham milhões, aproveitam as coisas boas da vida e nós aqui a apodrecer a vermos os outros crescerem.

Não aguento mais! Vá lá dêem-me o dinheiro a bem porque senão tenho que ir buscá-lo a mal. Só peço 780.000 Euros por agora!


SÉRGIO SANTOS é formador  e webdesigner. Fundador do colectivo albatrós dedicado à escrita ficcional colaborativa. Editor da revista digital de BD H-alt. Adora escrever ficção e criar BD. | SERGUS@GMAIL.COM

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