Subversa

Partidas: sobre a multiplicidade de corpos em “A Chave de Casa”, de Tatiana Salem Levy | Estevan Ketzer (Porto Alegre, RS, Brasil)

“Essa viagem não tem porque existir, nem de verdade nem no papel.”

Tatiana Salem Levy

 

NOVELOS| @mariliamoser ACRÍLICA SOBRE TELA

NOVELOS| @mariliamoser
ACRÍLICA SOBRE TELA

A obra A chave de casa, de Tatiana Salem Levy, não se limita a expor uma viagem turística até a casa de seu avô na Turquia, mas ela tenta compor sua história, chegando ao absurdo de esvaziamento de sua busca. A casa, afinal, já não existe se não em sua fantasia, nas lendas e na história de uma comunidade que enxerga na lei de Moisés mais do que uma mera obrigação moral, mas justamente na lei que não consegue ser seguida, o mandamento que não se compreende, raiz dos problemas modernos entre o nosso desejo e a busca de sua saciedade.

Essa constatação leva a autora à pergunta: quem sou eu diante de mim mesma? Se evitarmos essa pergunta a conseqüência será desastrosa, mais cedo ou mais tarde, pois essa pergunta, de cunho interno, nos leva irremediavelmente a observar o outro, o outro que está em mim e que veio fora de mim. Estamos nesse sentido presos a nossa opção de olhar uma coisa como ela mesma ou como um contato entre coisas diferentes; entregarmos ao certo estado das coisas, ou deixar as coisas saírem do nosso controle. A possibilidade de ver as coisas reunidas nos leva à ética, a algo mais do que uma mera classificação do mundo. Com os movimentos do mundo a autora também acontece. O outro está entre nós. Por que será essa a história que Tatiana nos apresenta ser tão difícil de ler quando tão próxima dela mesma? Ler esse outro criptografado em nós, como uma antiga escrita há muito esquecida, tal como Gabriel García Márquez fez em Cien años de soledad, ao realizar um encontro com a escrita esquecida, eis que a história começa a despertar. Há algo de incerto, inconcluso e remoto ali guardado. A mente consciente descobre, aos poucos, o que o corpo não sabe ter vivenciado e que, no entanto, sempre esteve lá. Eis o recalque freudiano, mudando de nome, gritando por vezes, em outras circunstâncias, desejoso dos disfarces, a embalar o sono e impedindo o contato do corpo com a mente. A experiência surge pelo desafiador aparecimento de um não no lugar tranquilo da aparente natureza das coisas.

Tatiana nos faz lembrar, com o velho ritual judaico do Hosh hashaná (ano novo), a partilha do pão ázimo, sensação do deserto no coração das pessoas; e da maçã com mel, representando a fartura do ego. Nesta cerimônia, o deserto é a metáfora do egoísmo em nossa relação com os outros, quando não conseguimos realizar um gesto de doação ao outro, sofrimento durante a escravidão no antigo Egito; e a maçã como o merecido doce da vitória sobre o sofrimento devido ao exílio forçado em busca da “terra santa” (Eretz Israel). Tatiana nos interroga, em seu trânsito migratório, na origem estranha do povo brasileiro, se não somos também todos judeus, se de fato não estamos todos sob a ação de uma mesma lei, cujo contato perdemos: essa lei do outro provoca a narradora, num esforço sem fim de poder contar pessoalmente essa história, busca de um jeito inteiramente seu de dar corpo a esta sensação. Talvez o primeiro instante seja ainda uma descoberta desse seu mundo interno. Descobrir o que esse estranho corpo quer dizer, estranhas palavras, estranhos desejos, advindos de uma estranha cultura, muito antiga, quase desaparecida pelas perseguições. É um corpo que viaja, impreterivelmente. Ele viaja guardando um segredo. A mente registrando, depois de certo tempo; a vagina gozando, no instante seguinte. A criação de um corpo novo, como o Homem vitruviano de Da Vinci, mas fora do papel.

Entretanto, há aqui um interregno: um desenho visa clarificar, facilitar a entrada do esboço de uma ideia, mas a mente humana não suporta o insuportável, isto é, a verdadeira origem do sofrimento, adquirindo um sintoma para dar conta. Sofrer porque não se pode habitar um caminho verdadeiro sem “isso” (Es) da linguagem freudiana, esse “isso” que me interpela repentinamente e invade meu modo de sentir. Um “compromisso” que a palavra hebraica emuná denota ao demonstrar o desafio entre um corpo e um mundo, girando em sentidos contrários. O corpo foi obrigado a observar que a lei do mundo tinha um sentido também e assim a irremediável constatação de que o mundo está fora da mente, sem origem quanto ao nascer, sem destino quanto ao morrer. Mundo que gera uma angústia na alma, sem horizonte.

Um corpo, embrião de uma responsabilidade para além de si. Responsabilidade política. Politizar esse corpo, por já começar a descobri-lo, nesses territórios fora da lógica e do conhecimento empírico, fora da ciência e da consciência que padroniza as coisas na mesmidade mundana do eterno sempre. Essa descoberta que a mãe da narradora fez com a política, a crítica de sua geração contra a ditadura de Salazar em Portugal. A sina segue: ser caçada em Portugal, ser caçada na Suméria, ser caçada na Palestina, ser caçada na Espanha, ser caçada na Turquia, ser caçada em Auschwitz e chegar ao Brasil com o cansaço do corpo de todos os corpos de um passado imemorial. Quantos corpos sem vida em 5775 anos de história? Desse judaísmo que partilha ritos quebrados, deslocados de uma ordem do mundo tornando caça aqueles que desobedecem as pretensas autoridades de uma única e mesma política que regulou sempre os corpos e os pensamentos. Política inquisitória e sua continuidade através das ditaduras do século XX. Nesse ato contestatório, a política materna reverbera na arte literária da filha. A tradição continua seu reflexo fantasmático, a despertar de um grande sono lentamente. Tatiana escreve, dando vida à voz de sua mãe:

 “Você sabe, essa dor que sinto no corpo, os ombros pesados, é o passado não esquecido que carrego comigo. O passado de gerações e gerações. [Não, minha filha, o que você suporta em seu dorso frágil são os silêncios do passado. Você carrega o que nunca foi falado, o que nunca foi ouvido. O silêncio é perigoso, eu a alertei.]”.

Essa voz vinda de um outro lugar, de um outro tempo, desautorizado e ainda impreterivelmente indagador, em sua tentativa desesperada de trazer os escombros de uma caçada incessante. Judeus na cumplicidade de sua judeidade, revelando o temor da nomeação e com ele todo o perigo de um poder absolutista. Pensar é um pesar, como nos provoca o filósofo espanhol Reyes Matte em sua máxima acerca do povo sem território, errante, ainda à espera de um tempo que se faça como descoberta da vida que vem repentinamente. São tão remotas estas palavras a ponto de não suportarem ídolos de barro ou falsas promessas de paz? Nesse momento a questão vem à tona: quem sou eu sem esse estranho corpo que me carrega enquanto eu busco meu mundo?

Um gesto que se exige fora da página, uma nota em um antigo alfarrábio hebraico. O fim dos ídolos gera outros ídolos? Qual a paz que não é erguida após uma grande batalha? Dentro da página a sequência de paradoxos que levam sempre à mesma pergunta: quem somos quando o outro chegar? E a partir daqui começa ou recomeça a viagem em busca desse estranho esforço decifratório, pelos interstícios de uma sabedoria secreta: Ein sof, o infinito e sua lei própria, base da eterna arte da criação também reverbera dentro de nós.


ESTEVAN KETZER é psicólogo clínico. Doutorando em Letras pela PUCRS. Pesquisa a relação entre poesia, filosofia e psicanálise na obra do poeta Paul Celan. Além de ensaísta.

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