Subversa

Over the rainbow | Iris Franco


Aquela sala de assoalho dourado e cadeiras robustamente enfileiradas como soldados vigiava os sonhos dos sentados. Os armários de ferro demonstravam uma solidariedade ímpar aos companheiros de sangue quente, diferente dos outros com corações pulsantes e roupas ininteligíveis que, envoltos em folhas multiplicadas por mais folhas, olhavam na maioria das vezes para frente.

A ansiedade pelo momento seguinte era quebrada pelo choro de alguma das crianças que, se não estava com fome, com certeza era o tédio rompendo as barreiras  pulmonares e ecoando para o mundo a pedante espera inquietante. Na verdade, era o que todos estavam sentindo ali, mas só podemos ser sinceros até uma certa idade, depois, um sentimento hipocritamente dito como tão nobre esbarra em injustos adjetivos, onomatopeias e vocativos nada tímidos.

O ventilador gemendo padecido não ventilava nada, deixava as mulheres com menopausa uníssonas em um único pensamento: “Tem essa bosta pra quê? Seria melhor não ter essa porcaria!.” Usavam as mãos ou alguma revista perdida nos cantos para espantar o calor e, de quebra, alguns problemas, entretanto, a artificialidade não é párea para deter os desejos da natureza.

As conversas paralelas foram cortadas pela indagação:

― Senhor Benedito? Senhor Benedito? ― a moça de cabelos encaracolados procurava na ponta dos pés o objeto do chamado.

Devagar, a artrite e a silicose pulmonar levantavam o Seu Dito, auxiliadas pela bengala. Com a outra mão, tirava o chapéu em respeito à moça, colocava em cima do peito e dava um positivo com a cabeça. Tinha vindo com o terno da Igreja, afinal, nada melhor para receber uma notícia tão importante do que a armadura de Deus, mesmo que cheirasse a um odor característico de naftalina, o qual provocava zombeteiro a rinite dele. Andava lentamente até a sala, com passos não só lentos, mas muito, muito, muito, arrastados. Com a paciência típica de uma jovem criada na geração Candy Crush, os pés inquietos que o chamavam entraram na sala. Era melhor esperar por lá e arrumar os papéis enquanto Seu Dito se desenrolava da tecitura da vida.

Quando finalmente chega na porta, a chamadora da Assistência admirava os sapatos vermelho verniz e lembrou que esqueceu de perguntar se o Senhor queria ajuda. Após o idoso aquiescer, mais pela necessidade de ter calor humano do que pelo favor, as rugas ao redor dos olhos cochicharam acerca dos tempos de outrora.

Ambos acomodaram-se nas respectivas cadeiras. Ele, um ponto de interrogação; ela, uma exclamação pigarreante que quebrou o silêncio do encontro:

― Bom Senhor Benedito…― um suspiro profundo acompanha a fala.

O chão começa a tremer, a sala é rasgada de ponta a ponta.

Seu Dito fica na dúvida se a catarata podia enganar a visão e criar um muro nascendo daquele cubículo. Tijolo por tijolo, perfeitamente assentados por um cimento indecente, iam subindo vagarosamente ao mesmo tempo que tentava olhar fixamente para a moça da Assistência, sem saber se dizia o absurdo que estava ocorrendo por ter medo de ser internado.

A agonia crescia à medida que os tijolinhos ficavam mais atrevidos e floreavam, até que, tamparam o campo de visão do Seu Dito, o idoso começou a bater com a bengala no muro. As bengaladas foram seguidas de gritos e pedidos de socorro. Uma asfixia crescente dominava a percepção da realidade do idoso, atingindo assim o instinto mais animalesco do âmago, o desespero repintava o muro com o sangue das unhas.

Estava tão distraído com o muro que não percebeu os sapatos molhados, a água foi subindo, subindo, subindo até que os pés não tocavam mais os chão. Em situações como essas, a capacidade de sobrevivência sempre vence o medo ou a dor. Por isso, quando um enorme tubarão sedento por carnificina tentou devorá-lo, nadou o mais rápido que pôde.

Por sorte ou por piedade da vida, encontrou uma porta no meio do muro.

Abriu a porta e fechou num piscar de olhos.

Só que, agora, do outro lado, havia um enorme deserto.

O sol deixava a carne macia, a areia temperava o prato e os urubus salivavam pela expectativa de desfrutarem um belo corpo à milanesa. As dunas movimentavam-se alterado qualquer noção que um ser humano pode ter sobre espaço. Cobras, escorpiões, aranhas e outros bichos estranhos que, com certeza, não tinham lá no barraco do dia a dia.

A sede brincava de cabo de guerra com a fome.

Chegando em um penhasco, estava prestes a se ajoelhar e desistir do amanhã, eis que do outro lado avistava um ponto preto. Apertando bem os olhos conseguia ver uma mesa de mogno gigantesca grudada no corpo de um enorme juiz que martelava sem cessar:

― Sua causa foi…

― O quê?―  indagava Dito.

― ajsioaisnansonsonasonansnasonnoncoanoanioONonscokwokkwok odoanolxnos0200200200291oppmjokemrpoemojroempwlçcckkmaamsjnbffkmfejrj9j092u92j09j209jjcdiodanionononckomcsw9i9390j93490u093u0jmomsmcneionefoinnféHIFOKOGOTPPOKPE

― Não “inscuto”, fala mais alto! ― em uma tentativa pífia de berro, insistia com veemente angústia.

―  … PROCEDENTE!!!- PÁ, PÁ, PÁ esbravejava o martelo

― Ganhei ou perdi???

― PÁ, PÁ, PÁ…Ganhou, ganhou!!!

Depois de um obrigado, Seu Benedito saiu feliz da vida daquela sala com um “pocedenti” no bolso.


IRIS FRANCO | São Paulo, Brasil | iris_fr@hotmail.com

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