Subversa

Os dois Paulos e Paulinho | Wellington Fioruci (Pato Branco, PR)


Antes me chamavam de Paulinho. Era melhor do que pirulito. Lá no bairro da Prudenciana era como nos filmes do Clint Eastwood, terra de ninguém. Mas no lugar do cavaleiro solitário, vinha o camburão da polícia deixar sempre uma casa mais vazia. Jogávamos bola descalços no campinho da rua de baixo, misto de terra e grama, com a terra em visível vantagem. E minha magreza me fez a fama. Nunca soube se aquela rua tinha nome, como muitos dos meninos que apareciam vez ou outra. A não ser o cacique, que tinha cara de índio mesmo, e era o mais durão dos moleques. O nome dele era José, como o pai, conhecido por silenciar gatos com sua cartucheira, e gente também, segundo alardeavam. Matava a meninada de medo só de aparecer no portão. O campinho ficava nos fundos de um armazém abandonado, onde eu descobri Suzaninha, a Suzita, ela. E aquele verão durou uns cinco anos, algumas festas juninas e vários encontros furtivos no sábado de manhã, atrás da Igreja do bairro, depois da catequese. Eu ia contando nos dedos cada música e sabia que a hora da comunhão era o último ato antes de encenarmos nossa breve escapada. Às vezes eu tinha que fazer uma escolha, entre Suzita ou brincar de polícia e ladrão. Os lábios dela quase sempre decidiam. Eu era ainda um menino ingênuo e cada beijo me fazia tremer por dentro, como um pico na veia. “O que deu na Suzaninha pra ficar com o pirulito?”, era o que diziam, e eu fingia que eles sentiam inveja, e acho que sentiam mesmo, porque era comigo que ela fugia todo sábado. Mas fugir mesmo, de correr insanamente sem olhar pra trás, era quando roubávamos no mercado. Doces, em geral, e às vezes algum brinquedo. Eu e meu comparsa, o bodinho, que era analfabeto de pai e mãe. Preferíamos nos chamar assim, comparsas, e apenas assim podíamos nos sentir poderosos, como gângsters de filmes. O bodinho se chamava Fabiano, e as primeiras marcas da adolescência foram para ele uns ralos pelos que sugeriam um bigode e um cavanhaque. Com o tempo a Prudenciana ficou pequena e nós, rostos conhecidos. Foi aí que expandimos nosso raio de ação e nos aventuramos para os extremos do bairro, em outros territórios. Um dia nos sentamos numa lanchonete nova, point da nata do bairro vizinho, e pedimos o lanche mais caro e uma fanta uva. Pedir fanta uva era como um momento mágico daquela infância, embora eu nem gostasse, tinha um estranho sabor de água de xaxim. De quebra, pedimos uma vaca preta, o ápice da magia. E depois, na hora do pagamento que jamais aconteceria, o código: um sorriso nervoso e o “cavalo louco”, a corrida desesperada para longe. Sebo nas canelas, dizia o desenho. Para nós seria mais como cepo nas canelas e no resto do corpo, se nos pegassem. E foi meu pai quem me pegou, quando algum dedo-duro resolveu acabar com minha vida secreta. A surra que levei foi ainda mais épica do que aquela corrida alucinada. Ele me ameaçou com a casa de minha vó, mas se deu conta de que com a velhinha eu poderia piorar, amanteigar o coração dela. Depois me ameaçou com a Febem, mas minha mãe se recusou. E fui ficando. E logo a Prudenciana ficaria pra trás, junto com a Suzita e o bodinho, que sumira a ponto de eu nunca mais ouvir falar dele. Então nos mudamos para outro bairro, mais distante, e não seria a última mudança. Terminei o ginásio com muito sofrimento, ainda que menos do que deixá-lo. No colegial eu passei a ser uma instituição própria, com meus meios de cabular aula, colar dos nerds, e ir jogar sinuca no bar com os caras. Daí veio a bebida e em seguida os picos. Trampo mesmo, nada, e colégio idem. Em pouco tempo, quando alguém queria um pico ou uma fita K-7 de rap americano tinha que falar comigo. “Ô Paulão, descola um pico hoje à noite” ou “Vê aí uma fita do Eminei”. Eminei, eu ria dos caras, e eles não riam de volta. Um cagueta certa vez me pediu a fita daquela música “Kátia Flávia”. Larguei uma bordoada na orelha do infeliz, um cola brinco que descolou o tímpano dele, segundo disseram. Break, Hip-hop, o diabo a quatro. E eu, comandando os lances, até que a fama do Paulão da Prudenciana chegou nos ouvidos dos homens. Apesar dos pesares eu gostava de ler e certa vez li num livro emprestado de um chapa que a suprema arte da guerra era derrotar o inimigo sem lutar. Era do que eu precisava, vencer sem enfrentar, até porque eu nunca iria ganhar dos homens. Os canas foram sempre mais preparados e mais perigosos também. A Rota, nem se fale, sabia como deixar suas marcas. Dói só de lembrar e fazia pensar que meu pai era um amador. Foi num boteco do Industrial que eu conheci o Mariano, cabo, mas com pinta de coronel. Um armário e um poço de fineza, soprava pra nós o nego manja, como quem sussurra a voz do demônio. Depois de um mergulho na noite com ele qualquer um voltava falando fino. Assobiava em francês, se precisasse. Ele arrochava malandro e pivete nas quiçaças atrás do antigo abatedouro municipal. Por aquelas bandas nem maluco se arriscava, “nem mesmo se for pra tirar o pai da forca ou a mãe da zona”, me disse o nego manja. E neguinho nenhum manjava mais dos paranauê que ele. Foi ele que me apresentou o cabo. Nosso acordo de gaveta em gaveta funcionou por um tempo, até que ele foi transferido. Tomou um processo nas costas pela morte de um moleque do Bonfim, que era o baixo mundo, o fura-bucho, como se falava. Alguns comemoraram, eu não. Agora, sem as costas quentes do Mariano, comecei a ir pra campo aberto. E estranho foi vir do nego manja a ideia que mudou minha vida. Quer dizer, a lição, o evento. Descobriram que ele era um X-9 e atribuíram a ele a culpa pela prisão do cabo, mais sujo que pau de galinheiro ou corrimão de hospital. A última vez que consegui ver o infeliz estava escondido num casebre abandonado, um bicho do mato perdido, só que pior, sem a inocência de um. Tremeu feito vara verde quando entrei sorrateiro, afinal, como ele, eu não podia prever o que ia encontrar. Já estava ali velando seu destino fazia uns dias, sem comer direito, sem ver outra luz que não fosse do isqueiro. Chorou de uma forma que me lembrou minha infância. O medo da morte não tem vacina nem oração que ajude. Ele, que nunca conheceu pai nem mãe, que tinha sido criado pelas sarjetas da vida e um tio pederasta, passou a ser órfão também de esperança. E desgraça pouca é bobagem, me disse naquela noite. Descobriu que tinha pego Aids não fazia bem um mês. “Paulão, você tem cabeça boa, sai dessa vida, cara. Tome tento”. Me disse com os olhos amarelos de pavor, e ainda assim sorriu sem jeito, num arremedo de despedida. Demorou um tempo, mas larguei os picos, os caras, as muambas todas. Fiz o supletivo para completar o tempo que me faltava e resolvi me arriscar num emprego. Ralei primeiro como capacho, mas o manja tinha lá seus mistérios, e acertou na mosca. Usei minha lábia, me fiz de rogado e logo tinha carteira de trabalho, cartão-ponto, crachá de babaca e terno de bacana. Troquei alguns vícios por outros, passei a tomar uísque, a cheirar lança-perfume em baile de carnaval, a cobiçar carrões e, claro, uma coisa puxa a outra. Queria mais. E melhor. Fui fazer Direito numa faculdade particular. A essa altura tinha me afastado daqueles velhos bairros, e da cidade. Passei um tempo fora, mudei de penteado, agora era só gel no cabelo e blazer de grife. Em pouco tempo consegui um diploma e uma nova carteira, da OAB. Era o aval que precisei para retornar à minha cidade. Depois de um período como o peixinho cinza do aquário, desenvolvi à perfeição uma versão do Al Pacino, um recurso que desenvolvi para nadar ao lado dos tubarões, gerando um número controlado de aversões, já descontados os covardes e puxa-sacos. E como esperado, deu certo. De dia, no escritório, que não tardei a montar, John Milton, de noite, ao lado dos figurões, Tony Montana. E este meu personagem rendeu algumas gargalhadas e estima. No tribunal, invariavelmente, e quando necessário em minha casa, Frank Slade. A amnésia de meus pais fiz questão de pagar em quarenta e oito prestações, um conjugado em bairro de classe média. Minha esposa conheceu apenas o Dr. Paulo. Ela, uma beldade, filha de um empresário maçom, um renomado comerciante dos tecidos de origem libanesa, ou árabe, pois para mim, eram tudo a mesma coisa, com suas joias e preconceitos. Uns beduínos, eu dizia ao Borges, meu sócio no escritório, e ele me fitava com seus olhos corujeiros. O Borges. Ensinei quase tudo a ele e quando vi que o aprendiz ganhava terreno, ou terrenos, o demiti, mas não sem antes dar-lhe uma última lição, de cidadania: a fazenda que ele tinha acabado de comprar com os honorários do maior caso de sua vida, a desapropriação de um antigo edifício onde residiam sem-tetos, foi destinada à construção de casas populares, depois de averiguada a ilicitude da compra. Uma manobra realizada com o benemérito da Justiça e a boa fé de alguns vereadores, a quem eu às vezes temia chamar de comparsas, regurgitando vícios de outrora. Eu, que nunca tinha sido ninguém, tornei-me nos anos seguintes não apenas um célebre jurista, mas também um cidadão honorário, mesmo a contragosto daqueles que cochicham pelos corredores do Fórum e intencionam fazer tábula rasa a quem denominam um rábula. O trocadilho é infeliz, mas não mais que meus opositores. Quando tudo é um indevassável e modorrento mais do mesmo, com assinaturas vulgares e palavras de efeito vazias, apanho meu carro e circulo a esmo pelos antigos bairros, procurando um campinho onde agora um hipermercado se ergueu. E mesmo que meus vidros permitissem, ninguém enxergaria mais o Paulinho ali dentro. Não, o menino não é pai do homem, é padrasto.


WELLINGTON FIORUCI é natural de Assis-SP, vive em Pato Branco, no Paraná, atualmente. Ensina literatura na UTFPR há 20 anos. Organizou dois livros teóricos “Vestígios de memória: diálogos entre literatura e história” e “Correspondências: literatura e cinema”. Foi premiado em 2014 pela Editora da UFF e Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro com um conto “O clube dos esquecidos”. | carlosdrummond36@gmail.com

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