Subversa

Pequena ode à liberdade | Evandro do Carmo Camargo


Alguma vez já reparaste nos cachorros de vida livre? Eles têm
casa, donos, às vezes até coleira, mas vivem de portão aberto, fruindo,
como dizia o cronista, a alma encantadora das ruas… Os cachorros de
vida livre costumam despender seu tempo – que é não menos que o
infinito, pois para eles só existe um eterno aqui e agora – em companhia
de outros cachorros de vida livre, compartilhando fraternalmente a
existência, em boa e sã camaradagem.
Os cachorros de vida livre não têm as neuroses dos cachorros
de apartamento ou daqueles que vivem do portão pra dentro, em geral
latidores crônicos e, não raro, histéricos, alguns obesos, outros adoecidos
dos nervos, a exemplo dos donos.
Os cachorros de vida livre conhecem o mundo como poucos e
não há lugar bom de se estar que eles ignorem, pois, da mesma maneira
que se deixam levar, se deixam estar, despreocupadamente. Além disso,
os cachorros de vida livre têm hábitos interessantíssimos, que, com certa
frequência, devo confessar, invejo. Não poucas vezes dei com eles
descansando tranquilos no frescor da grama verde e úmida que cresce
ao redor de uma qualquer torneira esquecida no tempo e no espaço,
que leva a vida a gotejar as lembranças dos que beberam de sua água
fresca e pura na concha da mão…
Contudo, pensa um pouco e tenta puxar pela memória aquela
ruazinha de terra da tua infância, onde mora um caminhão… Lembra?
Pois então, os cachorros de vida livre gostam mesmo é de estar ali,
embaixo dos eixos dessas assombrosas máquinas. Se há caminhão
parado em rua de terra e cachorros de vida livre na vizinhança, sempre
irás dar com eles à sombra do bruto que ora se encontra adormecido. E,
se te estás perguntando: “Por quê?”, “Qual o motivo deste gosto tão
peculiar?”, “O que os atrai prali?”, não te aflijas, que eu to digo logo.

É que a eles, aos cachorros de vida livre, lhes agrada muitíssimo
sentir o cheiro das lonjuras sem termo, a fragrância das indizíveis
distâncias, os ares de paragens outras que suas patas não podem nunca
palmilhar. Misturados às emanações ternas e ocres da terra quente e ao
aroma rude e aveludado da graxa, o cheiro do longe faz com que
estejam ali por horas sem fim, dormitando inebriados, sonhando sonhos
que nossos limitados engenhos não alcançam adivinhar. O sol a pino
eleva miragens no horizonte. Sonolentas quimeras caninas. Às vezes
cavoucam buracos e se cobrem de terra, refocilando-se à sombra da
carroceria amiga. Até que um bater de portas e o ronco do motor os
desperta de seu idílio. E eles seguem seus caminhos. Patas lépidas.
Com a súbita partida, resto apenas eu. Eu. Oras. Eu… Eu não sou
um cachorro de vida livre. Eu, com minha cabeça pesada e repleta de
vãs preocupações, indo e vindo sem descanso e sem saber por quê nem
pra quê, jamais serei um cachorro de vida livre. Contudo, por um
segundo ou dois, sob o sol forte, eu quase posso sentir o cheiro da graxa
e da terra misturados à liberdade que somente eles podem e sabem
usufruir. E é por isso que eu os admiro e reverencio muito e sempre. Eles.
Os cachorros de vida livre.


Evandro Camargo | Escrito em São Luís, MA, mas com o pensamento em Paraguaçu Paulista, SP.

Sobre o Autor

3 Comentários

  1. Tiago Loureiro 17 de agosto de 2019 em 20:58

    Muito bom gala

  2. Luzimar 17 de agosto de 2019 em 22:44

    AH! A Literatura!

  3. Noemy Lucia 12 de fevereiro de 2020 em 23:47

    Adorei! Parabéns ao “novo colega”. Te conheço a tão pouco tempo e fico feliz em saber que você é uma pessoa sensível e humana – no melhor sentido da palavra humana, é claro. Que você misture no dia a dia da nossa profissão toda essa poesia que habita a sua essência.

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