Subversa

O Tolo | Rafael Araujo


O Tolo saiu de sua casa para nunca mais voltar, a casa nem era sua mesmo, nem era uma casa, segundo ele. Ele não sabia pra onde ia, nem se chegaria, mas isso importa? Durante a saída olhando os pássaros voando tão longe ele sentiu o primeiro pecado, a inveja. Por que ele, tão consciente de si estava preso ao chão enquanto os pássaros podiam voar sem nem apreciar toda aquela vista e a facilidade que tinham. “Se eu voasse não colocaria mais meus pés no chão”, disse o tolo, e riu com a ideia de simplesmente nunca mais voltar. Em seu caminho passou por várias estradas disformes, bosques sombrios e vilas sem cores, mas não era isso que ele buscava e continuou andando, apenas com sua trouxa nas costas que estavam vazias, mas ele a carregava porque dava um tom mais viajante e menos maluco a ele.
Certa vez, ao chegar em um vilarejo percebeu na lâmina d’água que suas roupas não cintilavam mais, estavam mortas como o passado. O amarelo há tempos refletia apenas um ocre imundo de lama, que pulava entre os enfeites rasgados em tons de cinza azulado e cinza avermelhado. Aí o tolo conheceu o segundo pecado, a autopiedade. “É, as roupas já foram, mas eu ainda não cheguei, como farei?”, pensou ele de maneira leviana, pois nem ele sabia quando chegaria, nem se um dia teria um lugar para chegar. Sentou-se à margem do lago, fitando o sol em seu reflexo e teve uma ideia, tola, mas era a única ideia que havia ocorrido desde que começara sua jornada. Não queria voltar e deveria continuar em frente, mesmo sem saber onde era pra frente, ele sabia muito bem o que era pra trás.
O Tolo, com sua tolice percebeu que seus pés cansdos já não aguentavam mais andar e ele nem tinha encontrado o caminho. Cansado, perdido e se sentindo um idiota, o tolo conheceu o terceiro pecado, o arrependimento. “Não deveria ter saído de lá, não deveria ter largado tudo por nada”, que tolo, ele sabia que não tinha deixado nada pra trás, ele sabia que só tinha avançado nessa busca pelo sabe-se lá o que. Cortou parte de seus enfeites gastos e os enrolou entre os dedos dos pés, amaciando o peso de cada passo. Chegou a uma estalagem, onde decidiu descansar, e assim o fez. Durante a noite em seus devaneios regados por doses cada vez maiores de um vinho horroroso conheceu pessoas, trocou experiências com elas e provavelmente até dormiu acompanhado. Mas nada disso realmente importava, porque ele sabia que não fazia ideia do que realmente importava, então não poderia ser nada daquilo. Levantou-se logo pela manhã, sacudiu a poeira de suas roupas que estavam no chão, colocou seu fiel companheiro, seu chapéu, e se voltou pra estrada. Nada de despedidas, nada de até logos ou mentiras, ele não voltaria de qualquer jeito.
Ele caminhou mais e mais, com o sol em sua frente e se pondo nos seus calcanhares, passou por mais vilas, com mais pessoas, mais doses de tudo que fosse em quantidades estonteantes, e nada disso era o que importava, parecia estar preso, destinado a não saber, a não se importar e a não querer. Conheceu o quarto pecado quando fitou um penhasco que se arrastava ao seu lado, o desejo. “Atira-se, vai, acaba logo com essa bobagem, você não vai chegar a lugar nenhum porque nem sabe onde deve chegar, imundo, burro e ainda, tolo.” praguejou a si mesmo algumas dezenas de vezes pela sua covardia, mas seguiu em frente, a cada passo seus pés doíam mais, a
cada passo seus olhos lacrimejavam e mais do que roto chegou a um pequeno vilarejo, poucas casas, uma estalagem suja e uma igreja, nada mais. Sempre tinha uma estalagem e uma igreja na sua caminhada, ele sempre se gabava de embreagar-se no templo e orar na taverna. Era um tolo, perdoem-no. Naquela noite, deitado no chão de madeira, observando a janela quebrada, onde se revelava uma linda lua ele percebeu. Andaria a vida toda sem chegar a lugar nenhum.
Que tolo era o Tolo, queria encontrar algo, não sabia o que, em um lugar que ele não sabia onde era e mesmo assim estava procurando. A lua, penosa andava fugaz, até esconder-se atrás das frestas empoeiradas da janela, ali estava o seu quinto pecado, a clareza. Ele sabia, ele sabia que não estava indo pra lugar nenhum e mesmo assim foi, ele sabia que não encontraria nada e nem ninguém, mas mesmo assim não ficou, não se jogou no abismo quando deveria, não se enrolou mais nos cabelos que se deitaram sobre ele, nem buscou âncoras nos barcos que velejou. ali, olhando para a luz escondida da lua, com linhas luminosas pintando seu rosto ele entendeu. Não tinha porque fugir, não tinha porque sair nem pra onde ir, ele estava lá, finalmente ele encontrara.
Na manhã seguinte o tolo levantou, seguiu seus próprios passos em sentido oposto e seguiu seu próprio rastro. Revisitou cada visita que fez, reavivou cada morte que deixou. Refloresceu em cada flor que arrancou. E aí ele conheceu seu sexto pecado “o remorso”. “Pra que estou voltando se eu já sei que lá não tem o que quero? Por que preciso voltar para contar a todos que não é lá que devem estar?” Quão tolo poderia ser o Tolo, voltando seus passos para anunciar o que havia aprendido. Sem flores, sem cores, só dores, voltava e contava, que não era ali que deveriam estar, todos cinzas e patéticos em suas fortalezas de papel. Em cada vila o Tolo não era mais bem vindo, chamavam-no de louco, de absurdo, assim se seguiu. O Tolo louco cometendo a loucura de ensinar aos sãos que estavam errados. Errados por simplesmente estarem e não procurarem, errados por serem felizes, talvez. O Tolo talvez fosse muito burro para descobrir. Mas não podia mais voltar, não de novo, ele tinha que chegar de onde saiu, todos deveriam saber o que ele agora sabia. Era seu fardo.
Esse fardo era mais pesado do que a trouxinha que ele carregava nas costas, que de tantos caminhos já se encheram novamente de coisas que ele sabia que nem precisava. Quando chegou em sua casa, de onde saíra para nunca mais voltar, ele descobriu seu último pecado “a autotraição”. ele havia prometido não mais voltar, mas lá estava ele, roto, rasgado, humilhado e sofrido, naquela casa abandonada, que não florescia nem o luar. Procurou aquela noite em todos os cantos a lua que havia lhe mostrado o que ele agora sabia, mas não a achou, seu caminho não estava mais ali. Saiu para encontrar seus pares e contou a todos que o mundo não era tão bobo quanto ele acreditava, não era um nada sem sentido, não era ali que estava o mundo, não era nas conversas de bar, nos sexos casuais, nos falsos amores e promessas não cumpridas. O mundo estava dentro dele, todo o universo, o cosmo explodindo de tensão e tesão. O tolo descobriu, tudo era volátil e mutável, tudo era como a lua, que sambava bela todas as noites mas ele nunca sabia onde ela estaria na noite seguinte.
Como resposta ele ouviu risadas, ouviu lamúrias e xingamentos. Ele ouviu o não de todos os que cavavam com pás de ouro suas covas rasas, todos que não queriam saber do devir da vida ou que temiam de mais o rei para sair dali. Sorte a do tolo, ele era livre para ir e vir. Mas quando ele disse isso aos que cavavam, recebeu olhares odiosos e foi tomado de assalto, preso, trancafiado e retirado de tudo o que ele tinha, sua liberdade. Prenderam-no com o trabalho forçado em troca de algo que ele não pedira, prenderam-no com o colo de uma família que ele nem conhecia. Pobre tolo, louco, preso, e ainda assim, tolo. Os escavadores terminaram sua cova e enfim o condenaram, traidor! Como pudera um tolo trazer todas aquelas baboseiras e querer destruir a vida de tantos gentis. Homem mau, homem louco, homem tolo. Em seu último palco, uma corda o esperava, a corda o prenderia, mas ele finalmente seria livre.
Na manhã seguinte, um sorriso tolo surgia num rosto do Tolo, ainda deitado, nem acordado nem dormindo, apenas existindo. Ao abrir os olhos ele sabia disso, ele existia e isso era o suficiente, Tolo ou não, não tinha mais o que procurar porque ele já havia encontrado. Encontrou ele mesmo, passou por provações que ele sempre achou que desistiria, negou carinhos e caminhos que eram tão fáceis na sua frente. Agora estava ele, saindo novamente, seguindo em frente, mas dessa vez ele não se questionava pra onde ele estava indo, porque ele sabia que não importava pra onde, e sim que ele simplesmente ia, roto, dolorido, cansado, sujo e queimado, mas seu sorriso brilhava tolamente em seu destino, como ser diferente, ele havia recebido sua redenção, percebido finalmente que era um Tolo.


Rafael Araujo | Araruama, Brasil | rafaelgomesaraujo@hotmail.com

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. DÉCIO MACHADO 29 de abril de 2019 em 10:53

    O TEXTO é
    Simplesmente lindo, poético, reflexivo e sobre tudo profundo.
    O mundo descobriu um verdadeiro escritor, um poeta, um senssibilista.
    O mundo preciso da ARTE.
    O mundo preciso da sua emoção, o mundo precisa de você.
    Esse conto necessita ser publicado, para que os sonhadores não se sintam tão tolos, e sim valorizados.

    Parabéns, POETA Prosador ou prosador POETA?

    DÉCIO MACHADO
    Presidente
    Academia Goncalense de letras.

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