Subversa

O SEGURO NÃO COBRE | André Mellagi

 

A primeira vez que pude ver a serpente gigante de perto foi quando a polícia resolveu liberar a entrada ao prédio. Ela permanecia ali, enroscada em volta do arranha-céu, a cauda começando no terceiro andar e terminando a cabeça até a cobertura, no vigésimo-primeiro. Após avaliações conjuntas de engenheiros e biólogos, decidiram que a serpente estava numa espécie de hibernação e que não causaria danos à estrutura do prédio, nem perigo aos seus frequentadores. Descartaram que estivesse num forrageio de espreita, prestes a atacar quem se aproximasse. Análises de seu abdômen apontavam a uma localizada dilatação na circunferência, onde apuravam que havia engolido um ou mais animais de grande porte, cujas espécies ainda eram tema de conjecturas.

Os escritórios, as lojas e a empresa onde eu trabalhava pressionavam as autoridades a tomar uma rápida decisão, uma vez que todos arquivos estavam no interior do prédio e os prejuízos aumentavam a cada dia sem expediente. O Tavares, desde o momento que se deparou com a serpente enrolada no prédio, não parava de olhar o relógio, como contasse o tempo se esvair enquanto ficava do lado de fora e os prazos do balanço do mês apertavam. Entramos em silêncio, alguns correndo apressados, receosos de que aquele corpo longilíneo pudesse apertar a construção até esmagá-la. Finalmente!, foi o alívio que saiu do Tavares ao marcar no relógio o término daquele sufoco. Acendemos as luzes, ligamos os computadores, acessamos os bancos de dados, os e-mails. A contabilidade teve que trabalhar o tempo todo com a visão do ventre da serpente, que tampava a janela da sala. Naquele dia o Tavares só liberou a gente sair depois das 23 horas, dado o serviço acumulado. Nos intervalos quiseram ver mais da serpente. Foram até a cobertura, tiravam selfies com aquela cabeça inerte de fundo que parecia impassível à nossa presença. Um jornal da cidade veio até me entrevistar para coletar um depoimento de como era trabalhar com aquele monstro que escolheu nosso prédio de morada. Um monte de perguntas para sair só duas linhas de tudo o que falei na reportagem.

Os dias se passaram e aos poucos conseguíamos recuperar o cronograma atrasado. Iria ter hora-extra e adicional de periculosidade, prometeu o Tavares. Vai saber. Não era a primeira vez que ele passou a perna na gente, quando garantiu que o vale-refeição daria até o fim do mês. Só se fosse para comer um sanduíche no trailer da rua. E o pior, é que o Galego aumentou o preço do sanduba depois que muitos curiosos vieram até aqui para ver a serpente. Aos poucos conseguimos atingir a meta e o adicional viria parcelado nos dois meses seguintes. Fazer o quê. Já era hora de me esforçar mais e procurar outro lugar para trabalhar, oito anos na mesma empresa e sem uma promoção que justifique a má vontade do Tavares. Ele com seu tique de olhar o relógio e eu tomando um café enquanto encarava o dia se pôr, refletido nas escamas da serpente. Foi quando me colocaram no quinto andar, no almoxarifado, pois a Sônia não aguentou e pediu as contas. Ela tinha pavor de cobra. Dois meses sem ninguém organizar aquela bagunça. Contei 53 caixas. E cinco ovos de serpente.

 


André Mellagi | São Paulo, Brasil |47 anos, é paulistano, psicólogo e escritor. Publicou pela editora Patuá os livros de contos Bricabraque (2017) e Interfaces (2019), além do e-book de minicontos Prosas Breves, Mínimas e Semifusas (2021). Já colaborou com contos, textos e fotos em diversas revistas eletrônicas e impressas. | agmellagi@gmail.com

 

 

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367