Subversa

O portal das águas | Rândyna da Cunha (Brasília, DF, Brasil)

“Se Deus quiser.”, a irmã dizia. “Se Deus quiser é uma conversa. Há de ser e é logo!”, ela pensava. Se encafifava com uma coisa, nem Deus tirava.

Quando criança, ouvia com atenção a avó contando histórias de alma penada e visagens. Sentia medo, acreditava em tudo, afinal avó não mente, é mulher sábia que já viveu mais que toda gente. Juntava aquela ruma de gente em volta da avó e ela ia desalinhavando o bordado dos mistérios sertanejos. A vó era tão certeira que até adulto estremecia com suas narrações. De toda a coletânea de histórias, havia uma que foi guardada para sempre: Mãe d’Água.

A vó contava que essa era má com os homens, estropiando o coração e pinto deles. Principalmente, cabra safado, jovem e galanteador, desses que ficam por aí mexendo com as moças e envergonhando as famílias, do tipo que faz mal às moças, tirando sua honra e virando as costas. Mãe d’Água ficava à espera, na beira do rio, quando sentia a aproximação do rapaz, começava a cantar e ele vinha, pouco a pouco. Ela se mostrava uma linda índia, viçosa e de riso doce, puro encantamento mágico. Na verdade, ela era uma entidade de outro mundo, feia de doer. Aliás, feia seria injustiça, sua pele era feita de escamas e placas, meio cobra, meio jacaré. Os dentes eram afiados, como os de uma onça. Nas mãos, longas garras que enfiava nas suas vítimas. Sua voz era o próprio silvo da serpente. A cara ninguém conseguia descrever, diziam ser o demo em forma de gente. Enquanto caminhava mata a dentro, em busca do lugar em que a avó dizia que a besta-fera aparecia, mesclava seus pensamentos, ia matutando, entre as memórias antigas e as falas da irmã: “Se Deus quiser.”.

A avó contava que Mãe d’Água era generosa com as mulheres honradas, que com uma pequena troca poderia dar o céu a quem se aventurasse a procurá-la. Não era do céu que Maraléia precisava. Queria um filho, precisava de um, ou o marido arribaria no mundo, em busca de mulher que prestasse. Ela já havia feito de tudo, rezou para todos os santos que conhecia, firmou promessa, fez doação pro menino Jesus, foi à benzedeira, tomou garrafada, se mergulhou em banhos de ervas ao luar, ficou de ponta à cabeça e nada. O médico dizia que estava tudo normal nos resultados dos exames, a mãe dizia que era pisada por cima de rastro de cobra velha. Mulher que pisa em cima de rastro de cobra velha fica seca, perde o uso do ventre.

Então, a mulher se enveredou pelo mato. Queria saber de nada, não se importava com gente ruim ou visagem. Queria era falar com Mãe d’Água e fazer uma troca. Após longa caminhada, chegou à beira do rio, já passava das dez horas da noite, os únicos sons ali presentes eram os sons da mata e somente estes eram suficientes para lhe pôr medo até a alma, mas queria saber de medo não, queria um filho. A avó dizia que ela aparecia por entre a queda da pequena cachoeira, a cortina de água se abria como um portal, no momento em que ela saía, e por isso, aquele lugar era chamado Portal das águas. Maraléia não sabia se ela vinha, mas precisava ser firme, esperou por horas a fio e nada de Mãe d’Água. Estava prestes a ir embora, quando lembrou que na história que sua vó contava, a entidade cantava para atrair suas vítimas e se fosse ela a cantar para atrair a bicha? Começou a cantar, cantigas de roda, que ouvia cantarem para niná-la, nos tempos de criança. Cantou uma e nada. Não desistiu. Cantou outra. Começou a sentir um vento gelado cortando pelas suas costas. Cantou a terceira. A água da cachoeira começou a parar de correr, ficou inerte, como se fosse uma pintura, fez uma cortina de água. De repente, a cortina se abriu, bem no meio e uma coisa saiu. A marmota colocou para fora primeiro a cabeça, olhou para os dois lados, espreitando com um olhar cortante, caçando quem é que lhe atraía. Depois puxou o resto do corpo, cheio de escamas e viscosidade. Fustigou Maraléia com os olhos vermelhos, arreganhou os dentes escurecidos e posicionou as garras, foi chegando perto assim, em jeito de luta. Bufava e silvava. Pronto. Ia matá-la. “Antes morrer que viver de ventre seco”, a mulher pensava. A coisa fedia. Era o diacho mesmo! Só poderia ser, em carne e osso, vivinho e em posição de ataque.

– Quem é você? – a coisa falava bem pertinho do rosto de Maraléia..

A resposta saiu, quase inaudível, porque faltava força para encarar aquele bicho.

– Sou Mara. – respondeu sem encarar o bicho, olhando para o chão.

– E o que você quer? – perguntava interessada.

– Vim pedir uma troca. – a voz saía baixa, mas era firme.

Mãe d’Água gargalhou, levantou o queixo da mulher, olhou bem no fundo dos seus olhos e perguntou:

– E como você tem coragem de vir me procurar para uma troca sem trazer nada para trocar? Terá que pagar com a vida. – a entidade disse preparando-se para o golpe certeiro.

Maraléia levantou os braços em súplica.

– Espera! Por favor! Lhe dou o que me pedir. Basta pedir.

Neste momento, a coisa refreou sua investida e interessada perguntou:

– E o que é que você quer, minha criança?

– Eu quero um filho. – ela implorou com a voz embargada.

Mãe d’Água olhou para a barriga da miúda mulher. Pôs suas mãos sobre o abdômen dela, como que em busca de algo. Ficou assim por uns minutos, então, disse:

– Este problema não é seu. É seu marido quem não pode. Você quer assim mesmo?

Maraléia assentiu com a cabeça, cheia de esperança em seus olhos e emocionada por saber que não era o ventre dela o problema.

– Tudo tem um preço. – a entidade se afastou e fez pose de quem ia discursar – Posso fazer seu marido te dar um filho. Aliás, um não, vários! E pelo que vejo, isso te anima muito, há brilho em seu olhar, minha criança. Mas para isso é necessário curá-lo e só há uma forma de fazer isso.

– E qual é? – a mulher perguntou esperançosa.

– Tenho que me deitar com ele. Assim ele se cura e depois de nove meses ele estará pronto para te dar um filho.

– Mas, senhora, como poderá deitar com ele, sem matá-lo? Eu o amo. Quero que ele morra não. – agora suas palavras eram de súplica comedida.

– Eu mato conforme quero. Alguns eu já deixei ir. Como vocês saberiam sobre mim se eu matasse todos? Os que me agradam e têm bom coração eu deixo ir. Seu marido é desses de bom coração. E eu tenho que pensar em mim também. Ando só, não vejo mais ninguém. As pessoas não passam mais por aqui. Te dou o que você quer, mas você tem que me dar também o que quero.

E ela sibilava, olhando para Maraléia, como que aguardando o aval. Seu olhar era malicioso. Naquele momento, a mulher não pensou nas intenções, era seu sonho, carregar um filho nos braços. Estava em dúvida, mas seguia tentada.

– É o preço. Tudo tem seu preço. Eu me deito com ele e ele te dá um filho. Após nove meses será um homem pronto para engravidar qualquer uma. Quanto você quer ter um filho?

– Muito. Muito.

– Quanto pagaria?

– Daria todas as terras que herdei de meu pai. – ela disse com empolgação.

– Este é o preço. Nem barato, nem caro, justo.

Maraléia fechou o acordo. Ficou combinado que na noite seguinte deixaria um copo com água no sereno. De manhã cedo, sem que o marido visse, guardaria esta água. Na terceira lua nova, dali em diante, daria dessa água para o marido beber e iria dormir na casa da irmã. Mãe d’Água se enfiaria pelas cobertas quando o homem dormisse, ele acharia que era a esposa e ali ela o curaria. E assim foi feito. O homem nada percebeu. De manhã cedo, a esposa chegou e ele ainda dormia, ela se enfiou pelas cobertas e, quando ele acordou, achou que tivesse dormido com ela a noite toda. Mãe d’Água mandou que Mara esperasse nove meses para ver sua primeira gravidez. E assim foi. Completos os nove meses, suas regras sumiram. Estava grávida. Teve festa, o marido mandou matar um boi, convidou a cidade toda, tomou pinga até rir mole. Dormiram felizes e satisfeitos, após a festança. O marido sonhando com um filho macho, a mulher sonhando com vários filhos.

No outro dia, Maraléia caminhava pela casa, limpando ali, ajeitando aqui. Ouviu um barulho na porta, barulho de gato novo. Ao abrir a porta, deparou-se com um bebê, deitadinho, no chão, em cima de um cueiro. Era recém-nascido. Tratou de aninhá-lo nos braços. Apaixonou-se. Todos se apaixonaram. E foi este o primeiro filho do casal, enquanto o outro crescia no ventre.

Dizem as pessoas que, quando Mara não está vendo, os olhos do menino ficam vermelhos e maldosos como do bicho ruim e ele sibila como cobra cascavel acuada, deixando arrepiado dos pés à cabeça, quem estiver por perto.

 


RÂNDYNA DA CUNHA (Brasília, 1983) é graduada em Letras e Direito pela Universidade Católica de Brasília. Colunista na página “A Soma de Todos os Afetos” e na Revista Eletrônica “A Empreendedora”. Tem contos publicados em revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente. Participou da antologia Folclore Nacional: Contos Regionalistas da Editora Illuminare e das coletâneas literárias Vendetta e Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora. | RANDYNAPAULA@GMAIL.COM

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Hedjan C. S. 17 de março de 2017 em 00:57

    Perfeito! Muito bom mesmo.

    • Rândyna da Cunha 12 de maio de 2017 em 15:24

      🙂 Muito obrigada, querido amigo!

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