Subversa

O Filme | Vinícius Bandeira


Tinha que comprar o bilhete do metrô e já estava dentro do metrô, mas não era o metrô e sim um trem totalmente diferente de qualquer outro trem. Vamos neste! Gritou uma rapaziada praticamente me empurrando. As pessoas dentro desse trem estavam em volta de uma espécie de mesa de bar. O trem célere, como que fugindo de algo; do destino, presumi. Uma das pessoas dissera que iria descer em um bairro que eu não saberia reconhecer na cidade do Rio de Janeiro e eu pensava estar perto do Méier e indo na direção de Santa Cruz, no trem Central-Santa Cruz, embora eu necessitasse estar indo na direção da Central, que era para onde eu deveria ir. Estava pensando em alugar um apartamento barato e um dos caras falava que onde ele morava o aluguel era a preço de banana. Eu não conseguia distinguir o rosto de ninguém e era dia, o céu claro, diferente do sonho no filme, onde tudo era sombrio no entanto tudo era nítido, inclusive o rosto das pessoas, sobretudo o do velho sobre a cama, cujas duas muletas, a seus pés, chamavam bastante atenção, não mais do que a sua expressão cadavérica, de quem se fora mas deixando em si o desespero de não querer ter ido, o apego ao eu que todo ser vivo tem como apanágio, não tão-somente os humanos. Quanto se paga para alugar um apartamento lá? Depende do apartamento. Um quarto e sala. Quinhentos, seiscentos reais no máximo. Quando ele me disse isso, comecei a imaginar o quarto e sala e ia também imaginando o bairro em que ele morava, à medida que ele o ia descrevendo. Um vale cortado por riachos, que pareciam inundar a plantação; em um ou outro ponto uma pequena casa de campo, casa de camponeses. Não conseguia ver ruas, muito menos prédios de apartamentos, não obstante imaginei estar perto do Méier. Estaria eu vendo o entorno do Méier em tempos bastante idos? Eram pessoas que eu jamais vira antes, mas que   estavam comigo e comigo conversavam e eu com elas, como se fôssemos no mínimo colegas e acabássemos de sair do trabalho juntos. Eu tinha duas preocupações que me assaltavam concomitantemente: comprar o bilhete do metrô, que não era um metrô, que era vendido por um camelô, desses que vendem bilhetes de ônibus nos pontos de ônibus, e segurar a minha máquina fotográfica, que estava dentro de um saco de supermercado, para não chamar a atenção de amigos do alheio ou de quaisquer pessoas que pudessem desejá-la; vale dizer que o Rio de Janeiro estava e está terrível em matéria de cobiça do que é dos outros. Eu não podia colocar a mão no bolso para tirar o dinheiro, por que, além da máquina fotográfica dentro do saco, eu portava várias outras coisas, que não me lembro quais eram; além disso a velocidade excessiva do trem não me permitia um equilíbrio eficaz, pois eu estava em pé, sem ter onde segurar-me, não havia corrimãos nem em cima, horizontalmente, nem os verticais; enfim, o trem parecia não ser o trem da Central que eu desde menino costumava tomar para ir de São Cristóvão a Cascadura e então pegar um ônibus para o Jardim Sulacap, perto da Base Aérea  dos Afonsos. O camelô que vendia bilhetes vinha de pessoa em pessoa, pegando o dinheiro, dando o bilhete e às vezes o troco. Estava a alguns passos de mim. A minha máquina fotográfica caiu ao chão, uma autêntica profissional, que o meu salário de fome na prefeitura do Rio não me permitiria adquirir outra do mesmo naipe tão cedo. O meu desespero aumentou não tanto pela máquina e pelo valor material e principalmente sentimental que a ela me relacionava, mas sobretudo porque dentro dela estava um rolo de filme com não menos que trinta exposições, ainda não reveladas nem copiadas, por suposto, de moradores de Nova Cidade (mais conhecida por Favela do Barbante), os quais eu havia entrevistado e fotografado para um livro de entrevistas, em fase terminal, que tinha por título Voz Ativa de Nova Cidade. A intenção do livro era divulgar e valorizar tal localidade, comunidade   pobre do Rio  de    Janeiro, que equivale a um subbairro de Inhoaiba, que é um bairro da Zona Oeste, duas estações de trem depois de Campo Grande. A máquina no chão corria ao sabor da velocidade desenfreada do trem, que parecia não ir para lugar nenhum; foi quando percebi que aquele trem tinha aberturas em seus rodapés, talvez para facilitar a passagem do vento, talvez para de mim para sempre afastar a máquina nunca mais vista. Nunca visto havia um trem assim. Dera-me conta de que a minha máquina estava tragicamente, oracularmente, destinada a cair por uma das aberturas, assim como a gente tem certeza de que algo vai cair pelo bueiro vindo no bojo de uma água turbulenta e caudalosa, como no caso de uma enchente torrencial, imagem que quase todo mundo já presenciou, ao vivo ou pela televisão, pelo cinema. Eu não podia fazer nada, as pessoas estavam alvoroçadas em volta das mesas amplas e oblíquas que havia no trem, mesas de bar, como se aquele espaço fosse um bar. Parecia que bebiam cervejas, mas não pude vê-las, pois a minha visão era cega a formas e a minha atenção estava canalizada em pegar o dinheiro no bolso para comprar o bilhete e extremamente concentrada em me possibilitar voar sobre a minha câmera, se eu pudesse fazê-lo, para impedi-la de cair por uma das aberturas. A câmera caiu como um pacote flácido de que Chico Buarque fala em sua beleza de Construção, fazendo-me também cair, quer dizer, uma parte de mim caiu, meu mundo caiu, como diria Maysa; era como perder uma pessoa amada, não de morte, mas de fim de namoro, fim de caso, como diria Dolores Duran. Lembrei-me do curta-metragem que havia assistido com a Anna, a mãe da Anninha, de três anos, que um dia derramou um frasco de adoçante dentro de um recipiente de açúcar, algo que talvez ninguém (nem criança nem adulto) ainda houvera feito, façanha tão inédita como o pôr o ovo em pé por Cristóvão Colombo. Não consigo lembrar-me do título do filme, no Cine Odeon, na Cinelândia, falado em francês, com legendas em inglês. Tudo parecia um sonho, em forma de desenho animado, melhor dizendo, de pintura animada, pintura da melhor qualidade, focalizando lugares sombrios, de uma incrível beleza pictórica. O narrador ia dissertando sobre tais e tais cenas, as quais iam aparecendo com a sua narração. Lembro-me de que ele se referia a um encontro com o papa, que estava sobre a cama, como se esta fosse o leito de um moribundo, pois era este que a ocupava, o qual ele percebeu que não era João Paulo II e não soube dizer de quem se tratava. O lugar parecia um túmulo imenso, semelhante àqueles que a história ensina que os faraós ocupavam ao morrerem, uma espécie de caverna na qual o velho, que não mais podia ser João Paulo II, encontrava-se entregue a um sono, mas também já podia estar morto, decrépito, raquítico, semelhante aos que deitam sobre pregos, um faquir; não é mesmo? O filme impressionou-me. Perguntei a Anna se ela havia gostado e ela disse que sim: Me senti levada como num túnel do tempo. Eu também, repliquei. Ela emendou: Você percebeu como a câmera era por demais descritiva e distanciada?, eu era a câmera, nós éramos a câmera, todos os assistentes em conjunto; câmera assim tão coletiva eu nunca havia visto antes. Parece-me que eu também não, afirmei sem convicção. E agora, que faremos? Ao sairmos do cinema chovia muito, o que me impactou, contrariando-me, pois quando entráramos o tempo não indicava sinal de chuva, embora na ponte Rio-Niterói, dentro do ônibus, Anna tivesse apontado para o céu, do lado que vai do Caju para a Zona Oeste, dizendo que as nuvens estavam carregadas, mas, logo em seguida, fez o mesmo em relação à parte correspondente à Zona Sul, para ressaltar o contrário. Quis chamar-me a atenção para esse contraste, mas eu não dei importância a isso, pois estava obcecado em continuar a nossa conversa sobre o filme que estávamos programando para realizar nas próximas semanas. Ela dissera-me, antes de pegarmos o ônibus em Niterói, que somente poderia filmar em fevereiro e eu já houvera planejado o começo para janeiro.

Estávamos descendo o viaduto sobre a Praça XV, de onde eu lhe mostrei onde ficava o Mosteiro de São Bento, nas proximidades do Aeroporto Santos Dumont, satisfeito por tê-la convencido de que o filme começaria mesmo em janeiro. A chuva me deixou desorientado, provavelmente por isso eu tenha esquecido de lhe dizer que o filme talvez me levasse a escrever algo.


Vinícius Bandeira | São Paulo, Brasil

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