Subversa

O Elevador | Fernanda Vieira (Campinas, SP, Brasil)

Ilustração: tela de Jaime Ferreira

Aquele lugar era uma fábrica de destruição. A máquina operacional não era visível aos olhos, mas dava pra sentir, depois de 4 ou 5 meses, uma pressão que ia esmagando a sanidade mental de quem passava por aquele elevador às 7h00 da manhã.

O prédio era silencioso e não soltava fumaça, não levantava suspeita alguma. Exceto pelos olhares, cada vez mais tristes e sem brilho, mas quem repara nisso hoje em dia?

Ivan teve sua reunião de admissão há 10 anos. Na época, no auge dos seus 26 anos, aceitou a proposta para entrar na fábrica com a certeza que seu futuro estaria garantido. Um bom salário, boa localização, a promessa de nunca poder ser demitido. No seu primeiro dia, colocaram-no na esteira e a máquina começou seu trabalho. Ivan jogava futebol aos sábados e gostava de piadas e cerveja. Hoje, aos 36, senta-se em frente à televisão e gasta as horas pensando no que deu errado nesses 10 últimos anos.

Cecília encarou aquele elevador pela primeira vez aos 22. Aquela pessoa irritante que sorria de orelha a orelha para cada pessoa, animal e acontecimento. Aceitou e encarou aquela oferta como uma ponte para seus desejos maiores. Era deslumbrada pela vida. Quando a máquina começou seu trabalho, resistiu por um tempo, cortava alguns fios, brigava com alguns operadores mecânicos. Ficou tão cansada que hoje, aos 27, se irrita com os “olás” e seu desejo maior consiste apenas em chegar em casa sem qualquer grande opressão ou decepção.

Gustavo, 37 e Luan, 33, entraram apaixonados. Entrelaçaram os dedos pra sempre e disseram o andar para a ascensorista. A felicidade e certeza estavam estampadas em seus corpos, em suas almas. No primeiro dia quando chegaram em casa a cerveja e conversa já não tinham o mesmo gosto. Dois anos depois, os dedos se soltaram e a solidão tomou conta. A estampa agora era de frieza e desilusão. A cerveja agora é amarga e a fala sucinta.

A fábrica não perdoa ninguém. Era necessário um aviso no elevador: Antes de entrar, verifique se seus sonhos e sua personalidade são fortes o suficiente para isso.

 


FERNANDA VIEIRA (Campinas, 1991) é advogada e funcionária pública. Escreve, desde os tempos de colegial, textos para enaltecer e dramatizar o cotidiano comum, por vezes tão sufocante. | FERNANDACHVIEIRA@GMAIL.COM

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