Subversa

O Classificado da Meretriz das Letras | Rândyna da Cunha (Brasília, DF, Brasil)


Os olhos jaziam inertes sobre a alvura inquietante do papel. Papel não, simulação de uma folha A4, criada para o Word através de algoritmos e códigos – mera ilusão de ótica. Lembrava-se de quando ainda escrevia em máquina com fita, cada vez que uma letra se desenhava, o som agudo das teclas criava música no silêncio, uma música ritmada: “tléc, tléc, tléc”, ora mais pausada, ora quase acelerada. Ganhara a Olivetti do pai, era invejada na escola, os colegas competiam para fazer os trabalhos escolares com ela, queriam apresentar pesquisas datilografadas à professora. Para os menos hábeis, a Olivetti transformava tudo em sujeira; para os menos aplicados, a folha ficava cheia de borrões de lápis-borracha, mas para ela a Olivetti era o tablet de hoje em dia.

Sempre teve destes encantamentos. Ficava a observar o mundo e as pessoas, quieta, envolvida pelos pensamentos e julgamentos. Sim, se é para escrever algo, há que se julgar vez ou outra. Julgavam-na também, era a esquisitona, bobalhona que passava horas olhando o espaço. Não sabiam eles que dentro de sua mente juvenil diversas coisas bailavam, palavras e imagens fundiam-se, sons e cores se combinavam e muitas vezes, ela podia provar o gosto das palavras. Era muito tímida. Deus o livre as pessoas lessem o que ela escrevia. Que vergonha!

Os anos se passaram, ela olhava para seus textos com desgosto, estavam envelhecendo por causa de seu acanhamento egoísta. Um dia a juventude e beleza deles se perderia completamente, sua face viçosa seria ultrapassada e todo o trabalho ali dispensado iria para o lixo. As palavras de sua antiga professora de literatura circundavam sua mente: “Tem que publicar. São bons.”. Entendera que era o momento de mostrá-los. Uma série de “nãos” se sucedeu à sua disposição, todos acompanhados de loucas argumentações: poético demais; artístico demais; não publicamos escrita de linguagem; machadiano em excesso; fluxo de consciência é chato; falta um toque de romance clássico; esta personagem é muito óbvia, a cor do cabelo já diz tudo etc, etc e etc.

E a folha simulada estava ali, saltada em sua frente. Sabia escrever, tinha que escrever algo que se enquadrasse dentro daquele rufianismo literário, rendera-se ao trottoir da criação, que mal faria? O editor leu seu conto e gostou, mas daquele jeito não servia para publicar, era necessário ajustar. Era intimista demais, não venderia. Era preciso escrever algo com sugadores de sangue ou pássaros semi-humanos, deveria haver também uma bela história de amor, um romance feliz, nada dessas delongas sobre o amor finito. O ambiente tinha que ser mais completo, que tal um bosque com árvores rosas e mato púrpura, uma história de cinco páginas numa sala de jantar não fazia sentido. As personagens ao invés de duas poderiam ser oito. Temas de transcendência e redenção já estavam deveras batidos e aquela quantidade de figuras de linguagem no texto poluía a ideia central. Nada deveria ser tão circular: início, meio e fim, nada mais.

Parecia que ela ia chorar, as lágrimas vinham cá nos olhos e voltavam pálpebras a dentro. De repente, ela estava ali, engolindo lágrimas, amputando palavras do conto, estropiando vírgulas, aleijando frases, decepando ideias, mutilando sua própria mente. A cada palavra degolada suas mãos suavam frio. Já não era mais o mesmo conto, nascido oniricamente, aperfeiçoado por meio de intenso esforço. Quem é que lendo aquele conjunto besta de palavras diria que aquilo ali era literatura? Mas pensava nas diretrizes que recebera, nos ditames a seguir para encaixar seu conto às exigências do mercado literário. Hoje tudo era mercadológico, ela não escaparia. Tremia. O conto agora não apenas sangrava, chorava, começara a se debater, queria se soltar das correntes, urrava palavras embaçadas, embriagado de decepção e dor. Olhava para ela com descontentamento de morte, era o olhar de alguém traído, de alguém apunhalado pelas costas diversas vezes. Ele não se renderia, estava claro. Quanto mais ela mutilava, mais ele se debatia. Nada o faria se aquietar. Estava vivo, era real, existia. Ela caminhava pela sala, rodopiando por cima de seus pés, fumando um cigarro amargo, olhando para o conto gemendo baixinho, praguejando. Ao menor sinal de que ela voltaria a lhe violentar, ele proferia berros que ecoavam dentro de sua mente, quase a lhe romper os tímpanos e lhe comer o juízo. Não tinha jeito, ele era irascível, indomável, todo dono de si. Lentamente, ela foi ajudando-o a se recompor, colocando um band-aid aqui, uma atadura ali, acarinhando-o com cautela, enquanto ele chorava baixinho. Ele era nascido na Olivetti, era velho demais para estes embustes. Ela decidiu deixá-lo como estava. E, por isso, agora olhava para a nova folha em branco, tentando dar a ela do nada um tom que agradasse ao editor, um tom de novidade fútil.

Olhava para a folha e, em súbita violência, as palavras que enviaria ao editor nasceram:

“Escritora, jovem, intimista e confessional. Faço poemas, haicais, contos, crônicas, ou outros ao gosto do cliente. 150,00 reais o programa literário. Com mais 50,00, escrevo sob medida. Aceito todas as diretrizes caladinha, sigo o edital todinho, do jeito que o cliente gosta.”


RÂNDYNA DA CUNHA (DF, 1983) é advogada, professora de português e inglês, empregada pública e conteudista EaD. Pós-graduanda na UFG. 7° lugar no Prêmio Literário Cataratas 2017. Tem contos publicados em revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e em coletâneas das Editoras Andross e Illuminare. | randynapaula@gmail.com

 

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