Subversa

O cientista que virou pinga | Breno Ricardo


De avental caído, vestindo uma blusa úmida cheia de pregadores de roupa, ela punha uma a uma  no varal. Enquanto tinha a boca livre, sem pregador, nem nada que as mãos não pudessem segurar por estarem ocupadas; enfim, nesses ínterins, gritava ao seu filho que tomasse cuidado com a agulha do tear. Em sua intenção havia aquela preocupação materna cheia de ternura, mas em sua voz grave, soava como ordem a um soldado, tanta rudeza nela havia. O menino respondia que tudo bem, mas há muito que já se furara naquele velho trambolho.

A mudança ocorrida com Adão e Eva fora súbita e externa; a ocorrida com a bela adormecida, triste e também externa. Porém ninguém percebeu nada naquele pretinho comum como os outros, seus vizinhos. Ninguém percebera que nele havia uma semente e que quando uma dessas cai no solo fértil de um latifúndio, ninguém percebe, nem o solo. Suponhamos seja essa semente uma ideia; e o solo, o cérebro.

Passado um tempo aquela criança enlouquecera, pois que sua ideia morrera e transformara-se em desejo e curiosidade. Talvez fosse ele rico ou não tivesse um pai enquadrado na lei de abandono parental (porém não condenado, pois dos homens temos de ter dó), talvez, num caso assim fosse brilho e esplendor o ter ideias, desejos e curiosidades, porém Deus errou em dar tais virtudes a um pobre.

Vamos entender um pouco das nuances desse tipo de pobreza: uma casa sem alicerce nem laje; telhas velhas de amianto, algumas quebradas outras mal postas. Estas cobrem um chão vermelho, já trincado como fossem rugas de um rosto sofrido. Um remendo aqui outro acolá, desde o piso até à fiação elétrica, passando pelas paredes e pelo encanamento. Amadorismo até nas paredes tortas, levantadas por braços fortes de algum parente pobre cheio de boas intenções. A mobília pega na rua, no ferro velho, ganhada de segunda ou terceira mão, exceto, por uns eletrodomésticos comprados a muitas prestações.

Essa pobreza vem do amor-próprio daquela mulher dos pregadores que se cansou de se humilhar diante do tipo abandonador, traidor, violento, seu ex-marido, contra o qual todas as grandes línguas fizeram vistas grossas. Fizeram-no por gosto, preguiça, desprezo e até sem-vergonhisse. Sabe-se, afinal, que enfiaram na urna um dedo para dificultar a vida daquela mulher e o outro para enfiar em sacrifícios o garoto. Votaram contra si mesmos, esses energúmenos, apenas para que o problema a que fizeram vistas grossas, pudesse manter-se enquanto assunto da mesa de jantar e show de superação em programas de sábado e domingo.

O tipo curioso de que falamos, pelas beiradas, comeu um pouco daquilo que era seu por direito. Enquanto pôde, estudou, fez faculdade, chegou ao mestrado. Tudo com o esforço que faz emocionar a muitos, pois que soa romântico como um livro de aventuras. Parece uma linda história de superação, mas os meios pelos quais conquistou essas coisas foram, alguns, dos mais injustos; outros, vergonhosos e… “Cale-se!”, grita aquele que não julga ser vergonha, sendo que o nosso país deveria até pedir perdão por manter e reproduzir a maior parte de seu povo em dificuldades mil. Um povo que necessita o tempo todo de ajuda alheia para fins básicos como estudar e, às vezes, até morar e comer.

Entretanto, fechamos aqui os olhos à desobediência daquela criança que enfiou o dedo no tear como Adão e Eva comeram do fruto proibido. Tiveram todos como fim, o amor ao conhecimento. O menino, elogiado por gostar de ler e escrever, leu além da conta, viu além dos muros, teve grandes prazeres, mas enlouqueceu. Encorajou-se, refez-se a todo custo e foi realizar seus sonhos comuns, mas – infortúnio – o desgraçado era brasileiro e aqui a hierarquia torna os estudos algo muito difícil como se na verdade o que eu estivesse buscando fosse a casa do presidente num condomínio da Barra.

Independente disso, ele saiu pela Mancha com um livro na mão e algumas passagens de ID Jovem (resquícios de seus direitos adquiridos a ferro e fogo). Depois de se virar, terminou a faculdade e agora o louco diz querer ser cientista, pesquisador, o que, na verdade, todo cidadão de bem sabe que é uma desculpa para não pegar na enxada em data de colheita, e, de mãos limpas, servir à casa grande – se bobear até fugir para o quilombo. Todo mundo sabe que é pra isso que milhões de pessoas se matam para passar na USP: por drogas e sexo. O prestígio do Brasil no exterior não vem das suas universidades públicas, mas do braço preto colhendo café.

Outro dia, ouviu falar que era teimoso, mas mesmo frágil, tendo no máximo uns empregos sem direitos, casou-se com outro aventureiro disparatado. Juntos, já revisaram textos, deram aulas particulares, e, recentemente, sem clientela nesses dois serviços, foram catar latinhas, foram para a casa das respectivas sogras, saíram por aí a vender chup-chup alcoólico, também conhecido como sacolé. Desses, o último sucesso talvez tenha sido o mais quixotesco, pois que era feriado, não havia ninguém na cidade, portanto, não venderam nada. De olhos fixos um no outro, consolaram-se como houvesse consolo nessas horas. Os brilhos cruzados, de olhos já foscos de depressão, ansiedade e angústia, esses brilhos os impediram de prostituir-se, porque são casados e nem subemprego existe mais.

O cientista virou pinga, às vezes para esquecer de tudo, às vezes para tentar reacender a sua fé em si mesmo, de que apesar dos percalços horríveis, ele poderá deixar a baixeza infantil de fugir de sua orientadora por não ter cumprido prazos; poderá entrar verdadeiramente na Universidade de São Paulo e vive-la, contribuir com a sociedade, com a ciência, com as pessoas ao seu redor; poderá, em mais uma tentativa, dar um sentido à sua vida, como outrora esta já teve algum.

¼ daquele latifúndio fértil de ideias é ansiedade; ¼ é depressão; ¼ é medo de desistir; ¼ é preocupação financeira. Apenas há paz em seu coração, onde estão seu marido, sua mãe, seus amigos e parentes, os quais, como podem, o ajudam a passar os dias sem pensar em ir embora para Pasárgada. O coração ilude-o com sonhos, ideias, soluções, enquanto a razão, o pé no chão, é apenas o parecer do médico de Quixote: melancolias e desabrimentos são o que dão cabo daquele cientista.

Quem sabe por ele desde criança já ter empunhado demais a espada pesada, se envergonhado demais e lutado demais para acessar algum jardim chamado liberdade. Um jardim no qual a pele preta e o bolso vazio só acessam para jardinar, nunca para se sentar e desfrutar a paz e o belo, exceto aos domingos.


Breno Ricardo | Belo Horizonte, Brasil |brenohsricardo@hotmail.com

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Iris Franco 21 de junho de 2019 em 23:48

    Meu Deus, amei este texto. Lindo demais e triste demais por ser verdade. Acho que esta é a essência de um verdadeiro escritor: sintetizar de uma maneira palatável aquilo que os olhos não conseguem ver. Coitado do meu país, coitado dos jovens do meu país. Este texto foi muito dolorido, muito mesmo. Parabéns ao autor e força para nós todos!

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