Subversa

O Cardómetro | Norberto do Vale Cardoso


0. A cigana batera à porta envidraçada, através da qual se vislumbravam os ramos de árvores que, à noite, se assemelhavam a sombras moventes. Por isso tinha medo de cada vez que passava por ela, mas eis que, naquela manhã, nada receara e se dirigira descomprometida à porta. Andrajosamente marchetada, quem visse a cigana imaginaria que aquela mulher viajava conforme os antigos nómadas, em carruagens puxadas a cavalos, incapazes de estabelecer uma raiz, em movimentos circenses. Naquela época era usual os ciganos baterem às portas com intenção de vender os mais estranhos produtos, e também o era que em cada cigana houvesse uma Cassandra, profetizando as vidas daqueles que não a compensavam e que, na sua incredibilidade, a iam enxotando como a um cão leproso. Porém, e como já comummente se deveria saber, as pessoas só prestam mais atenção quando as coisas acontecem.

1. Foi isso que sucedeu naquela casa, espécie de castelo que se julgava inexpugnável, mas onde, numa outra manhã a haver, um cavalo haveria de dar entrada. Não que se tratasse de uma guerra, antes de o silêncio dar lugar ao medo e de o medo ceder perante a incerteza. A mulher, como Andrómaca, olhava da janela da torre mais alta; Príamo dormitava à luz do dia, procurando superar as mulheres mastectomizadas que o perseguiam por virtudes de Morfeu; como um vigia, Eneias via Heitor espojado nas imediações e, audazmente, pedira o auxílio do exército. Não era, pois, a entrada do cavalo dos danâos nas muralhas desta outra bela cidade que estava em causa: era, afinal, o cavalo da morte possível (a morte existe sempre enquanto possibilidade), que a cigana tivera o dom de prever, ainda que, então, ninguém lhe tivesse dado qualquer crédito. O rapaz telefonava para as urgências; o telefone trepidava insistentemente, ninguém respondia, deixando esta espécie de Eneias contemporâneo a ferro e fogo. O homem do escudo brilhante sabia que, mesmo que alguém se dignasse a atender aquele utensílio comunicativo, não o valorizariam, pois ainda não passava de um infante.

Como se o acontecimento tivesse sido embebido pelo tempo e se suspendesse numa cronologia onde ainda nem o relógio de sol tivesse sido inventado, os carros dos cavalos não correram para transportar o corpo escoriado para o interior da muralha. Não houvera ainda um meio de transportar aquele corpo e, não fora a possibilidade de os oponentes suspenderem as adversidades durante o tempo suficiente, a matéria de que somos feitos seria fustigada por uma horda de abutres vorazes. Entretanto, o incisivo Eneias decidira correr à procura de ajuda, sem saber, como é decerto o intento dos Fados, que os deuses estavam ocularmente atentos e preparados para agir.

Era setembro e as tréguas permitiram que o corpo inchado fosse arrastado para o interior da máquina dos cavalos e que a casa branca servisse de misericórdia. O Heitor de então (sobre quem a cigana dos cabelos ou dos colchões com percevejos profetizara cavalos possíveis), acordava e adormecia. Respondia a questões que não sabia que respondia. A linguagem era um fungo autómato nos seus lábios arroxeados, no seu gesto melindrado, nas pernas que a inacção procurava dissuadir de sangue. Espojado no colchão de palha, acordava e dormitava. (A morte ruminava.) O corpo abnegava-se em superar a sua finitude, ou seja, os cavalos bacteriológicos corriam através da corrente sanguínea, perseguidos pelo exército doméstico, visivelmente cansado. O curandeiro ia suturando os rasgos do corpo e o ciclope da morte esperava aquele Heitor. E Eneias corria em busca de uma salvação providencial.

O corpo ficara numa névoa de dor de tal modo profunda que não a sentia, por paradoxal que isto pudesse parecer aos que, mais tarde, sentados à luz da lua, o ouviriam cantar os seus feitos. Durante anos, a sua mulher havia de lhe preparar banhos retemperadores para as feridas do corpo erudito. Aquele cavalo não fora o fim, mas a guerra tinha sido perdida. Porque nunca mais tinham sido os mesmos, e a cigana, que aparecera por detrás da porta de vidro, poderia reaparecer em qualquer época prevendo aquilo a que se não dera importância e que era o que sempre pode ser.

2. A sobrevivência não é coisa fácil. Quanto à erudição da dor, só pode ser constituída por morcegos dentro da noite. Destarte, anos depois, quando às vezes ainda acordava sobressaltado, as imagens do quarto onde estava hospedado eram tremores intermitentes com a casa da porta feita de vidro e de onde percebera o marasmo das árvores. Este nosso Heitor parecia ainda sê-lo. Dormia e acordava como se estivesse num transe – porque tinha medo de sonhar. Os seus sonhos pareciam nocivos pensamentos enviados por Zeus. Às vezes não sabia se estava no seu quarto atrofiado, se espojado em frente às muralhas da bela cidade de onde mais tarde partiria sem remédio para aprender outras erudições além das da dor, quem sabe se para fundar algo mais fundo dentro de si (que a vida estendera as suas lianas pelas várias artérias e mudara os projectos daqueles).

As malhas dos sonhos porfiavam em entretecer complexos rumos para a vida deste homem. Havia noites em que sonhara com a “trama purpúrea de dobra dupla”, que a sua mulher fazia para quando voltasse – fosse possível o regresso depois da morte! Porque o acto de regressar era o seu verdadeiro cavalo, aquele que queria domar, mas que sabia ser difícil refrear. Não tinha sorte com as coisas da vida, porque estas, segundo as sibilas, eram como cavalos de papel; as coisas eram como os sonhos, corriam dentro de si, sucedendo-se em imagens mentais: o seu pai esboçando lágrimas de sangue sobre o elmo de ouro baço; a sua mãe consumindo o ventre com lágrimas de ausência; a sua mulher consumando os banhos que lhe preparava com lágrimas de amor; a sua avó, cosendo seus nojos invasivos para dentro das mãos cada vez mais quentes, sustendo as carpideiras do seu ofício evasivo. Quais cavalos, os sonhos eram de tal modo incontáveis que passou a tratá-los como cálculas nas vielas.

Mas foi numa noite em particular que um sonho pareceu ser mais premonitório que outros. Nele, os frisos matizavam-se em vasos de papoilas e seu pai, dentro das belas muralhas, vivia em choro e pranto pelos guerreiros mortos devido ao caudal elevado dos rios que haviam submergido a cidade. E sonhou ainda que a imagem de Cassandra se lhe juntava alada, e que esta o avisava, dentro do sonho, que aquilo se tornaria real. Por fim, envolto em suores no tálamo onde procurava repousar, vislumbrou que seu próprio pai o viria buscar para salvar a cidade. Não mais despertou a não ser com o ruído tenebroso dos trovões que batiam à sua porta. (Não sabia, mas o sonho era o seu homizio). O aio dizia-lhe que alguém o procurava. Era uma manhã de um outro setembro e ele não tinha ainda capacidade para pensar e perceber que o sonho já estava a acontecer. Era manhã e a sua cabeça parecia ter estado sob a pressão da morte. Era o alvorecer e ele lembrara-se, num relance, que, dentro do sonho, chorara, mas não era o pai que surgia para o levar de volta a casa.

Não o soubera de imediato, mas o gene que o ligava à sua cidade era mais forte que qualquer outra coisa. Aproveitou, por isso, o silêncio da viagem que não parecia ter fim, para reflectir sobre o que haveria de fazer. Foi então que, chegado à outra margem, no momento em que a primeira luz deitava sobre as muralhas douradas da cidade, soube definitivamente que fora vencido. Os corpos amontoavam-se dentro das muralhas caídas. Os vermes viviam dos seus habitantes. Era como se a cidade se tivesse tornado num edredão de penas invadido por górgonas de percevejos. Como se na morte de uma cidade morresse a Cidade.

O pai chorava e ele chorava por ter sonhado que haveria de chorar ao ver o pai chorar. A avó enlutava-se na morte de Laomedonte. Cassandra aproximou-se dele e olhou-o como que confirmando que havia estado dentro do seu sonho e soubesse que ele o sabia. Andrómaca beijou-o e preparou-lhe um banho de água quente onde as lágrimas haveriam de banhar suas mais profundas mazelas. Mas ele queria estar só, porque um homem que sonha assim só pode morrer só.

3. A cidade mudou. Já não tem uma porta com vidros. Agora da nova porta não se vislumbram ciganas que façam temer os porvires. No advento comemora-se a ausência dos que já não estão, como uma presença de nada. O advento é mais a falta das coisas deixadas num tempo lá atrás: é a máquina de costura, momentaneamente estagnada no seu pedal, como se o tempo suspendesse a sua Roda, a mesma que nos traz e leva com idêntica efemeridade àquela que determina os milagres.

O solstício de inverno é as ausências. E as ausências são a falta de consenso, da mediação de conflitos, da moderação, da sabedoria, como se houvesse no Olimpo um deus a menos. Falavam dos mortos, daqueles que já não podem partilhar o pão e a iluminação do sábio saber estar. Heitor pensava que os cadáveres eram definidos pelos seus olhos. E sentia que os mortos eram como os lugares por onde passava, e aos quais não fora nunca mais capaz de voltar, porque, se o fizesse, os lugares não seriam já os mesmos – quando o que ele queria era que tudo se mantivesse perene como as pedras. Como se também ele pudesse ser imutável à passagem do tempo, que é o mesmo que dizer, como se mantivesse os seus sonhos intactos.

A cidade das mil cores já não tinha o mesmo esplendor. Era um lugar votado ao desinteresse pelos exércitos alheios. Já ninguém a queria tomar. Mas nela viviam alguns sobreviventes dos cavalos que ali tinham irrompido como fantasmas na noite: o elmo de Príamo era limpo como se, no seu brilho, estivesse perante a profusão da vida na sua própria vida; os lençóis de Andrómaca esvoaçavam ao som do vento, não cobriam móveis, cadeirões, grafonolas ou outros artefactos de mãos ausentes, porque esta mulher, que não aceitava a morte, tinha uma força interior digna dos mortos.

Por isso, ou talvez não, a cada solstício, sete contados da impresença, a avó retirava-se no seu luto para o lugar – ermo – da pira funerária, onde o cadeirão de Laomedonte, vazio, mas não coberto, aguardava pacientemente o regresso do dono. A avó parecia estar ali como se pudesse acompanhar e ouvir a respiração do morto; como se lhe desse as mãos quentes – fogueira do solstício onde Laomedonte aquecesse o seu coração; como se, naquele contacto, o palpitasse e o desfribrilhasse numa moderna tentativa médica de reanimação. Naturalmente que as sibilas diagnosticaram a sandice da velha, sinal que, no seu entender, era incontestavelmente o da morte prematura.

Heitor não o aceitava e voltava aos sonhos que nele persistiam em se elevar como capelos, dos quais se levantava num ardor desmesurado. Não o contava a ninguém, e Andrómaca prometera coser a sua boca e manter branco o lençol. Não havia tréguas para este novo cavalo que se ocultava nos seus sonhos. E tinha medo. Tremia como na véspera das batalhas de antanho havia de ter tremido o avô. Porque aquele sonho que se confirmara na presença de Caronte, que o viera buscar, se mantinha intacto dentro dele. Sofria agora de um pesadelo horrível em que se via à procura dos mortos entre os vivos, como se, entre os cadáveres, os despojos fossem sobreviventes que tivessem fingido a sua própria morte para não morrerem de visões tão sórdidas. Este pesadelo passou a repetir-se, mais ou menos na mesma época, uma vez por ano. Ao princípio não sofria alterações, mas depois houve coisas que se começaram a mover dentro dele, como se alguns mortos se reerguessem de repente para prosseguir com a sua vida. Era como se houvesse camadas de cidades.

A imagem da avó no solstício começou a alterar-se também dentro dos seus sonhos. A sua ausência projectava-se nas sombras das coisas, e era como se ele pudesse vislumbrar, ainda que de modo desfocado, a sua imagem. Não via com exactidão além das sombras, mas ouvira a voz do avô. Como se a voz pudesse ser uma sombra projectada na parede da casa. Ou como se a parede da casa não existisse, pois o que fica da vida é uma casa feita de seres incorpóreos. A imagem da cigana voltou e fê-lo compreender que a tebaida da avó não era definível em palavras. No sonho, as mãos da avó, a fervilhar, repletas da luz que colhera durante o dia, aqueciam o coração parado como se as suas mãos fossem um cardómetro e, nesse acto, ressuscitassem para a vida o homem da sua vida.

4. Foi então que ele decidiu gravar em tabuinhas de argila o canto do cardómetro, acredite-se ou não, de forma impensada, no dia exacto dos vinte e um anos após a batalha.


Norberto do Vale Cardoso | Chaves, Portugal

 

 

 

 

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