Subversa

Notícia | Dan Porto


a casa passou a abrigar o Personagem Central porque ali ninguém veria nada ouviria nada, fosse tédio fosse alienação, quem sabe anestesia, nada foi atentado aos vizinhos. // é inadequado nomear esta história de notícia, já que a manchete não se deu e até história poderia ser ocupada por episódio, eis que, ao fim, será mais uma passagem da ilusão que é viver. // preso à poltrona no centro da sala, comprouve-se de sua nudez (seria melhor do que a tortura física, injustamente acusado de qualquer coisa e, além disso, ao destino não se foge, o vivencia). // por questões aleatórias se fugirá da cronologia das Visitas, optando por iluminar esta ou aquela de modo a interessar sobremaneira ao leitor, como A Senhora. // a pele branca aparentava menos de sessenta anos (e é possível que fizesse ginástica, a musculatura parecia firme e bem flexível). // o Personagem Central foi posto à parede dos fundos da sala e desta vez o acompanharam outros dois homens, formando uma fileira, um deles era O Moço dos Cabelos Compridos. // o procedimento foi simples, A Senhora deitou-se no chão em decúbito dorsal à frente do Personagem Central que ocupava o primeiro lugar no grupo, estava nua, exceto pelos anéis, brincos e colares; com as mãos provocou e sustentou a abdução das pernas e a ordem foi dada, ele deveria urinar em direção a sua vagina, como foi feito. // a mulher gemia e parecia sofrer espasmos de prazer enquanto os homens riam em um misto de excitação e poder (o único contido era eu, os outros dois na fileira estavam livres e O Líder igualmente, de modo que era ele quem, às gargalhadas, segurava meu membro em direção ao sexo d’A Senhora). // a cena se repetiu com os outros homens, no entanto com mais ação já que se encontravam livres de movimentação (e sempre sem contato físico com a mulher). // por fim, O Líder e A Senhora foram às vias de fato no meio da sala assistidos pelos demais, O Moço dos Cabelos Compridos observava quase com um olhar antropológico (foi uma cena inusitada e agradável, sem entendimento racional porém, ninguém falava nada, só ação sobre ação, fora animalesco, ritual, cinematográfico e belo como nada que houvesse visto antes). // nos espaços entre visitas o Personagem Central ficava preso à poltrona e a alimentação, assim como a higiene cabiam a’O Líder , exceto por uma vez em que se tomou de surpresa pelo tratamento d’O Moço de Cabelos Compridos (ele veio e me alimentou, punha a comida em minha boca e trazia no olhar um amor desconhecido, a atenção fraternal de quem se importa, depois fez minha higiene como faria a um bebê, estava vestido de mulher e posteriormente cumprir todo o ritual se pôs a dançar à minha frente e, por fim, de costas e ainda travestido, o tronco fletido, manipulou-se e parece ter atingido o prazer, depois partiu e da porta me atirou um beijo). // horas depois o Personagem Central foi vendado, enrolado a um tecido de linho e retirado da casa. // aqui há um episódio quase independente nomeado A Festa. // mesmo que a venda tivesse sido removida, o estado alterado do Personagem Central o impediria de notar diferença no cenário; não havia um convidado n’A Festa que não tivesse curiosidade pelo homem vendado, a cereja do bolo conforme anunciou a anfitriã, cheia de clichês e joias, entretanto uma pessoa o olhava com perguntas ímpares, e durante todo o desenrolar da ação permaneceu entre as colunas e os arranjos, como a perscrutar o que se passava na sala e nas almas dos convidados. // o Personagem Central passou a ser o vórtice que a todos atraía a atenção, houve quem o cheirasse em diversas partes do corpo, lambesse, apalpasse, cutucasse, outros beijaram e chuparam pedaços aleatórios e conforme o tempo andava e a bebida circulava os pudores foram caindo, e noite adentro os convidados apreciaram e desfrutaram o Personagem Central, ao que o mantinham alterado, vendado e ligado através de comprimidos, bebida e injeções. // é verdade que nem todos os convidados literalmente desfrutaram do Personagem Central, mas era apenas a pessoa que circulava por entre as colunas e as costelas-de-adão e os arranjos que olhava para tudo sem prazer, suas perguntas, quando respondidas, se transmutavam em outras ainda mais incômodas. // por fim, quando a exaustão ou a embriaguez atingiu a todos os convidados, extinguiu-se A Festa, alguns garçons retiraram o Personagem Central da sala e os empregados cobriram aqueles que dormiram ou desmaiaram no salão, depois fecharam as cortinas e esqueceram uma pessoa atrás da mesa, não estava ébria ou feliz, não corria o risco de adormecer e suas pálpebras quase não piscavam diante o que vira e os pensamentos que a assolavam àquela hora. // e assim se encerra o episódio A Festa; se isto fosse um filme a música diminuiria junto com a luz e a tela ficaria toda escura por alguns segundos. // (quando acordei, talvez um ou dois dias depois, foi como se o mundo pesasse sobre a minha cabeça, na mente se sucediam imagens de certo colorido brilhante, decerto dos mundos paralelos, das realidades que ignorantemente visitei e então, como uma maneira da razão registrar o vivido, o corpo todo doía, até os dentes latejavam, o sexo ardia e fui obrigado a urinar ali mesmo sentado à poltrona, de modo que brotou de dentro de mim um uivo brutal de dor e alívio, deve parecer com morrer após longo sofrimento; doíam partes do corpo que eu jamais havia sentido, a sede me consumia e a fome e a raiva, esse o único momento de raiva, a raiva mais mortal que já senti, de modo que na tentativa de me libertar virei com a poltrona e chutei as paredes, gritei gritei gritei e me dei conta de que sabia gritar, eu, que não gritava; por quê? por quê? por que eu? você pergunta quando sofre, e se omite de responder, pois a resposta acabaria com o sofrimento, com o sofrimento não com a dor, e ainda você desiste de repetir a pergunta, por que eu?, quando está alegre e feliz). // em algum momento O Líder levantou o Personagem Central, cuidou de suas dores e da sede e da fome, mas sem trocar palavra. // dois ou três dias se passaram para O Moço dos Cabelos Compridos voltar, chegou trajando jeans e camiseta e trouxe frutas, cerveja e música, é, trouxe música, pôs o aparelho para tocar, alimentou o Personagem Central, lhe fez a higiene com todo o cuidado, o mesmo olhar fraternal, mas agora mais ágil, talvez com pressa ou nervoso, bebeu ele uma cerveja (e embora eu fizesse perguntas, nada respondeu, eu gostava dele, terminou a cerveja, tirou a roupa e se pôs em minha frente; por um momento embarquei em uma sensação de realeza onde ele me servia, o servo moço com a pele coberta por rala penugem e quase loura, os cabelos compridos quase à altura dos ombros, o nariz quase adunco, os olhos quase tristes, tão quase que os quadris eram quase meus; ah, a ilusão, eu amarrado, o rei era ele e serviu-se de mim, virou-se e aproximou as ancas, ficou no meu colo, seu calor me causou vontade de abraçá-lo, acarinhar seu desejo no meu beijo, no meu sexo, na ânsia que o peito quase explode; ergueu-se; preparou-se; e usou de mim; as nádegas mais perfeitas do que a estátua mais bela e mais inspirada dos velhos mestres; seguraria seus cabelos, as ilhargas, as coxas, e não podia; manipulá-lo-ia, dar-lhe-ia prazer, e não podia; posso confessar aqui que ergui prece ao céu, mesmo sem crer em nada agradeci e implorei que meu castigo seguisse sempre esse, todos os dias pelo resto da minha vida, um castigo poético e transcendental). // quando O Líder apareceu trazendo aquela pessoa, o Personagem Central não esboçou reação, seria mais um episódio e de mais a mais, desde O Moço dos Cabelos Compridos parecia não se importar com outra coisa (até me sentia feliz em alguns dias, a imagem dele voluteava diante dos meus olhos). // entretanto, foi como se acordasse quando O Líder saiu, deixando-os a sós, era incomum já que o procedimento padrão se dava com o Personagem Central, O Líder e, no mínimo, uma terceira pessoa, exceto nas visitas d’O Moço dos Cabelos Compridos. // (não, eu não deixaria a casa, a minha vida era boa ali, O Moço dos Cabelos Compridos voltaria um dia); um dia ou outro, dizia a visita, você acaba por ficar doente ou morrer (era uma conversa que não fazia sentido, a minha mente perdera o hábito de ouvir frases e dar sentido a elas), eu vou tirar você daqui, disse a pessoa por fim e saiu. // (foi clichê, mas desesperei-me, eu amava O Moço dos Cabelos Compridos, confesso o prazer que sentia naquele lugar, e então chorei, coisa que nem me recordava como era, o que acontecia?, senti-me ridículo, um menino a berrar amarrado a uma poltrona e a viver uma situação cujo resultado era um prazer nunca antes vivenciado, era aquela a sensação a vida toda desejada e agora estava prestes a perdê-la e forçosamente retornar à vida ilusoriamente real, tediosa e ausente de sentido, não era possível, a memória não poderia reter tais imagens, sensações, os ventos e as fogueiras que dançavam e ardiam dentro de mim; o meu corpo não existia até ali, não existia tampouco uma alma, apenas um nada, uma esponja, uma alga, não podiam me tirar o corpo e a alma justo quando os encontrara, juntos). // dois homens entraram na casa algum tempo depois, seguidos pela pessoa que no episódio A Festa tinha perguntas, o Personagem Central ainda chorava e pode que tenha sido sedado, desmaiou ou fingiu, é impossível precisar tamanha a situação de estresse, entretanto foi levado da casa. // fotos foram feitas. // (nunca mais a casa, nunca mais a poltrona, nunca nunca nunca mais O Moço dos Cabelos Compridos, nunca mais nada demais), mas em demasia a vida se arranja.

2017


Dan Porto | Santa Cruz do Sul, Brasil

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