Subversa

Na toca da aranha | Adriana Vieira Lomar


Um novo ponto bem diferente do anterior, mas que alcança o topo da circunferência feita de linho. As mãos que fiam são cálidas e as unhas bem pintadas de rubro.  Precisa terminar, pois o médico assim prescreveu.

Um toque, depois outro e sem que desse tempo para levantar-se por completo, a campainha continua a tocar acompanhada de uma sirene insuportável e fina.

Quando abre a porta, Dalila não mira no olho mágico e sim na sua agulha grossa, presente do médico que há pouco saiu.   Sem que olhasse para quem estava abrindo a porta, assusta-se com o desconhecido que parece estar em fuga.

— Desculpe entrar assim, mas é urgente dona — prossegue o estranho — temo por minha vida, posso me refugiar em seu apê?

Não espera Dalila falar, pois logo vai entrando na cozinha e sem cerimônia alguma abre a geladeira e pega um ovo dos três que ali estavam, e reclama com a fala de nossa, essa geladeira está bem vazia!

Dalila arregala os olhos e numa tentativa de falar algo, sai murmurando fonemas em som de hum hum, sem que conseguisse formar uma frase ou princípio. Desde menina é assim.

— Nossa, acho que você não fala, é isso mesmo? Nunca te vi rondando por aí. E para quem é esse bordado?

E de modo brusco, foi logo ao encontro da peça sobre o sofá.

Dalila fecha-se feito um caracol no meio da sala, com as pernas curvadas e aos mãos abraçadas nela mesma, passa a girar seu corpo em sentido anti-horário, do mesmo jeito de anos atrás.

O rapaz a princípio sacia a fome, frita o ovo com bastante óleo e encharca de sal. Procura um pão, mas não encontra. Enquanto isso, Dalila permanece no mesmo canto se auto ninando.

O estranho ignora sua presença ali naquela sala e faz uma ronda no apartamento, cruza o corredor, avista várias fotos, de gente mais velha do que Dalila e a identifica, pois sempre está com o olhar vago, como que cega- apesar de enxergar.

Entra no quarto e se apossa do colchão macio de viúva. Vai ao banheiro e sem qualquer tipo de entrave, toma banho olhando para as calcinhas que pairam sobre as torneiras gastas.

Enxuga-se vagarosamente com a toalha seca que ali está, e não contente se banha do único perfume meio adocicado, posto estrategicamente do lado direito da bancada de mármore. Abre a boca feito sorriso e escova os dentes com uma escova rosa lilás de aparência seminova.

Todo cheiroso vai ao encontro de Dalila, que está a essa altura em estado vegetativo.

Esnoba o seu estado mumificado, fixa-se nos seus olhos verdes platinados e aos poucos vai tirando sua roupa, sem qualquer tipo de reação. Enquanto tira o sutiã, roça suas mãos no ventre liso e jovem. Ela murmura baixo, quando ele tasca um beijo nela.

Enquanto ele a toca, ela amolece os lábios. E sem que ele espere, ela morde os lábios rachados do estranho e retira metade cuspindo logo em seguida com cara de nojo. Ele grita frases desconexas e acorda a vizinha de porta de Dalila.

Enquanto ele xinga — olha que louca — a velhinha do 305 liga para a portaria.

Chama chama, ninguém atende. Lá em baixo uma confusão danada, fila do lado de fora, cade o Juvenal, sumido de tudo.

Na portaria sua ex. Mulher está a sua procura, ele precisa dar a pensão dos filhos, tem oficial de justiça atrás dele.  Enquanto isso no terceiro andar, o desconhecido sai pela porta dos fundos, desce as escadas em correria e se apresenta sem metade dos beiços. Levam ele assim mesmo.

Quanto à Dalila, ela prossegue vestida de sutiã e sem calcinha fiando o lençol de cambraia com o gosto do sangue do ilustre estranho. Sem perceber a presença de um homem de meia-idade vestido de branco e de sua mãe, ela alinha um novo ponto com as mãos trêmulas e as unhas carcomidas até o sabugo.


Adriana Vieira Lomar |Rio de Janeiro, Brasil | dridrilomar@gmail.com

Sobre o Autor

4 Comentários

  1. Maria Emilia Algebaile 23 de junho de 2019 em 12:25

    Adriana, que texto delicado e forte ao mesmo tempo. Gosto de sua escrita que transborda leveza para falar de coisas tão duras! Parabéns!

  2. Maria Emilia Algebaile 23 de junho de 2019 em 12:30

    Adriana, gosto de tua prosa que alia a delicadeza das palavras a temáticas fortes. Um conjunto perfeito. Parabéns

    • Maria Emilia 23 de junho de 2019 em 12:32

      Desculpe. O comentário saiu truncado. Mas ambos estao valendo.

  3. Adriana 24 de junho de 2019 em 19:17

    Obrigada, Maria Emilia. Fico feliz com sua análise. Abraços literários.

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