Subversa

NA AREIA DA CORNUALHA | Leonardo Ramos


I

 

em treze de novembro de dois mil e dezenove tento escrever um ensaio sobre cenas picturais em virginia woolf  tentando                        e caindo para trás

 

quem tem medo de virginia woolf?

 

tento desver [de soslaio

quartos e lados mas de onde ver? como ler sem um olhar                                direcionado?

ser escolhido pela imagem

então

 

é assim:

“jacob se abaixou e pegou a mandíbula da ovelha, que estava solta

ali na areia, não muito distante daquele casal, jazia o velho crânio de ovelha

sem sua mandíbula. Limpo, branco, varrido pelo vento e polido pela areia, não havia pedaço de osso mais impoluto na costa da Cornualha. As plantas marinhas haveriam de crescer naquelas órbitas; o crânio viraria pó,

ou talvez algum jogador de golfe, batendo em sua bola, um belo dia, dispersaria aquele montinho de poeira”

 

isto é o inquietante:

a mandíbula da ovelha na costa da cornualha

então será isto

um tema

toda uma vida em uma nota melancólica

um frame repetido

voltar voltar voltar

os castelos na minha conta

a dinastia nas minhas costas

ondas e ostras observando a concentração de uma ordem

os primeiros dias disformes esperando o estalar dos dedos

depois seremos o pozinho

o montinho de poeira pisado

por um par de sapatos

agora

somos príncipes

das alturas

 

II

 

ao sudoeste de uma península

 

da inglaterra

cornualha

tem um passado medieval

cornualha

é uma terra

de ruínas

fantasmas

do rei arthur

 

já não me inquieta tanto a mandíbula

da ovelha

o fantasma de um império

 

se uma cidadezinha à beira-mar também sofre seus assaltos este texto também será

reescrito e talvez também preserve montinhos de crianças envergonhadas [ou a beleza

persistente de uma ordem que foi transposta

 

III

 

quando jacob vai dormir

gaguejo gravetos gorjeios cutículas e os grandes dentes amarelos do meu avô

 

meu avô não é um crocodilo mas descobri recentemente que crocodilos podem ter relação com o divino [ou lorenzo bernini

cair para trás estamos todos

tentando eu sou uma tentativa existe uma linguagem inerente: somos partes perdidas dos primeiros pais eles quiseram se eternizar uns nos outros

pela morte e nascemos nós: caranguejos opalas no baldinho da modernidade

 

IV

 

cornualha é a terra dos meus pássaros


Leonardo Ramos | São Gonçalo, Brasil | e-mail: leonardorbgomes@gmail.com | instagram: @oalbatroz

 

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