Subversa

“Morte”, “Desfiar” e “Remorsos” | Henrique Emanuel de Oliveira

 

“Quando eu não tinha o olhar lacrimoso

Que hoje eu trago e tenho

Quando adoçava o meu pranto e meu sono

No bagaço de cana do engenho”

 

—  Galos, noites e quintais, Belchior

 

Morte

 

Dizem que nasci do avesso

chorando pouco, olhando muito

vermelho como um caju seco

E pelas noites sem encantos

fui capaz de lavrar mil estranhezas

Um dia tentei alcançar o brilho da lua

usando de escadaria bamba

as costas tortas do meu avô

As tias rezavam joelhos inteiros

tentando encontrar nas fotografias

um parente parecido comigo

Arranjaram um primo distante,

era viado e macumbeiro

Logo as buscas foram suspensas

e nunca mais pareci com ninguém.

 


Desfiar 

 

I.

 

Em noite de São João

Os pés plantados na terra

Fogueira atiçando troncos

Carne de porco mal passada

 

 

II.

 

Sobre telhados quatro águas

Há sempre um tempo de saudade

Desejo aberto em capim seco

onde boi não engorda com sal

 

  

III.

 

O moço vagava pelo terreiro

triste ao ouvir o padre dizer

sobre o conforto dos aflitos

 

As dores eram banhadas na areia amarela

Os medos secavam no calor do sol redondo

 

Enterramos todos aqueles que não vingaram

na sombra pedregosa de um cajueiro enxuto

 

 

IV.

 

Da mais antiga geografia carregamos

os vultos que se escondem pelo sobrado

 

E os dentes da faca fincados na palma da mão

até tingir os tecidos na máquina industrial

 

A moça oferecia a Paquito uma roupa de inverno

Paquito corria ao redor das sombras no quintal

 

Foi nas curvas do cão que começou nosso inferno

 

V.

 

Nenhum porta-retrato colorido

poderá estancar aquele passado

tampouco desnudará a vergonha

que habita as lacunas do silêncio

 

Não dirá sobre as meninas

que suportavam os dias

encarando um ventilador

sem desfazer suas caretas

 

Não dirá sobre os meninos

que recolhiam seus olhos

por detrás das pilastras

ao cumprimento da benção

 

VI.

 

Meu Deus,

Peço perdão em nome dos mutilados

em nome dos tantos que foram tocados

pelas linhas sanguíneas da loucura

 

Meu Deus,

nem as mil doses de clonazepam

puderam dissolver este nó

atravessado na garganta

 

 

VII.

 

O corpo não corpo

no alto deste edifício

quase alcançando as asas direitas

infindas das companhias aéreas

desliza pelas tardes

com suas mãos de nuvem

tecendo o trepidar silencioso

de um outono sem qualquer

 


Remorsos

 

São traços intoleráveis

no subterrâneo da pele

refazendo instantes grisalhos

de quando éramos areia e vento

Remonto-me em tempos

que não puderam morrer

Vasculho algum sopro

uma ponta de palavra

ou aquilo que foi engolido

diante deste mundo já feito

E descubro acesa

feito brasa de marcar novilha

a certeza do acaso:

minhas lembranças morreram,

mas morreram em mim cheirosas


Henrique Emanuel Oliveira | São Bernado do Campo, Brasil| nasceu em Feira de Santana na Bahia e atualmente mora em São Bernardo do Campo, São Paulo. Cursou Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero e está cursando Letras na USP. É Co-autor, junto de Henrique Artuni, do livro “Sedimento do mundo: uma geografia sentimental de Carlos Drummond de Andrade” (no prelo).

Sobre o Autor

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