Subversa

Moisés | Daniel Rodas

 

Deus é o cão. Não um cão. O cão. Artigo definindo o substantivo. De orelhas largas. Cabeça chata. Patas pretas e língua de fora. Deus é o cão. Chegando ao meu lado numa praça vazia. Entre folhas secas. Ele vem e se senta no banco. Rosna pra mim. Mas não late. Arranha meu pé. Mas não rasga. Vem sozinho todo final de mês. No dia trinta. Ou vinte e nove em ano bissexto. Deus é o cão. De uma raça plebeia. Bastante comum. Desses peludos. De cara comprida. E olhar perdido espiando o sol. Aguardando o tempo fechar. E entra janeiro. Sai janeiro. Entra dezembro. Sai outubro. Mas ele nunca falta ao encontro. Senta discreto e fita de esgoela. A canela do vendedor de pipoca. Que osso bom! Diz. Exclamando entre os dentes. Parece a costela de Adão. Adão? Meu gato. Que criei do barro. Da caixinha de areia. Depois que nasci do escuro. Sim. Nasci do escuro. Não sou apenas o pai. Sou também o filho. Eu sei. Digo. Também fui na igreja. Fiz catecismo. O cachorro sorri. Parece que contei uma piada das velhas. Não gosto de catecismo. Se quer me conhecer. Lamba o chão. Ou corra nu numa montanha. Pois Deus é o cão. O cão chamado Moisés. Aquele que vem das águas. Nascido de um tempo. Sem sopro ou remorso. Ele estava. Quando alguém veio de dentro e fez o mundo. Mas não foi você? Talvez. Mas há coisas tão antigas. Que aqui sempre estiveram. E Deus fica pensativo. Coça a orelha. Afasta uma pulga. Na cidade chove. Na planície estia. O dia é longo. Mas o pôr do sol nunca se atrasa. Deve ter orgulho. Digo. O cão não responde. Suas orelhas parecem ter ouvido algo. Som de sirene? Guerra na China? Não. É só o passo de uma formiga. E uma folha caindo. Coisas que fazem mais barulho. Que o som de uma metralha. Sabe? Não sei. Você é que sabe. O onisciente. O cão me encara. Mas nada diz. É um sujeito calado. Um bicho bonito. Apesar do pelo assanhado. E do chiclete colado ao focinho. Dia desses a carrocinha te pega. E aí? Vai dizer quem você é? Ora. Responde o cão. Eu sou o que eu sou. E não estou fingindo ser um bicho. Não tanto. Quando você finge ser um homem. Homem vestido de bicho? Bicho vestido de homem. Somos todos. Mas o primeiro a latir. É o último a ouvir. O latido do outro. Assim é o mundo. Não foi você que o fez? Talvez. Um dia alguém diga. Que as coisas não são assim. Ou mude tudo. Ou refaça o mundo. Alguém maior que eu. O cão que não seja um cão. Um rottweiler. São-Bernardo. Quem precisa de Deus vira-lata? Eu preciso. Digo. Sério? Sim. Com quem mais conversaria? Os de raça são metidos. Não comem nada que não seja de fábrica. Não cheiram nada que não tenha etiqueta. Não quero saber desses deuses de raça. Gosto dos vira-latas. E só. E quando digo. O cão sorri. Ou parece sorrir. Ou chorar. Uma lágrima canina. Chegou a minha hora. Diz o cão. O sol está sumindo. Já vai? Vou. Volto no próximo mês. Ou no próximo século. Quem sabe. E o vejo partir. As patas miúdas. Os olhos dourados. Aquele arcaico balançar do rabo. Afastando as nuvens do horizonte.

 


Daniel Rodas | Teixeira, Brasil |  é escritor, poeta e dramaturgo. Estudante de Letras (UEPB). Tem textos publicados em vários meios eletrônicos e pensa na poesia como um fluxo, como o fluir incontrolável da vida. Publica seus textos no blog: www.faroisnoturnos.blogspot.com.br

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Margarida Gomes 17 de março de 2021 em 15:04

    Nossa. Que conta maravilhoso,gosto dos textos que o Daniel escreve-os. Parabéns sem sombre sombras de dúvidas.

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