Subversa

Miseráveis Alpercatas | Breno Ricardo (Juiz de Fora, MG, Brasil)

₢Morgana Rech

₢Morgana Rech

Somos sete irmãos: Mateus, Marcos, Lucas, João, Tiago, Paulo e eu, José. Mamãe é muito católica, por isso deu-nos nomes da Bíblia. Junto a ela e ao papai, formamos a menor família de Vila das Dores. Vivemos em uma casa de pau-a-pique. Tal moradia é de apenas um obscuro cômodo, dividido em quarto e cozinha, por lençóis feitos cortinas. Não temos banheiro, mas uma fossa nos fundos de casa.

De início, essa situação muito me incomodava. Os vizinhos, pouco a pouco, construíam casas de alvenaria com luz elétrica e lavabos ligados à rede de esgoto recém-chegada ao povoado. Contudo, minha família continuava naquela pocilga, com luz a velas e sem latrinas, apesar de trabalharmos bastante. Mais tarde, deixei de me preocupar com tais ninharias, não obstante estarmos gradualmente sendo excluídos da comunidade, devido à iminente miséria.

Em nossa vizinhança, somente Sebastiana conversa conosco e nos convida à sua residência sem vangloriar-se de seus feitos nem olhar-nos como se olha os porcos que se chafurdam na lama. Seu olhar é de misericórdia. Parece querer fazer algo por mim, por meus pais e irmãos – mas desconhece a correta atitude a tomar…

Os filhos de Sebastiana – onze ao todo – são boa gente. Eu sou mais amigo do Joaquim, o Joca, que tem a minha idade, quinze anos. Os seus irmãos mais velhos moram na capital e mandam dinheiro para a mãe. Entretanto, no meu caso, eu mesmo sou o mais velho e a despeito do desejo de me mudar para alguma cidade grande, não o faço por ainda ser um púbere. Na verdade sei me cuidar sozinho, mas os adultos, que se julgam entendidos, desentendem isso.

 II

 De repente, à chegada, ao povoado, de uma loja que revende os mais diversos produtos novos, vindos da capital, as mulheres e crianças se apinharam à porta do estabelecimento. Quando esta se abriu, adentraram encantadas. Quantas luzes, quantas novidades! Era impossível distinguir o brilho das lâmpadas do brilho dos olhos desses novos consumidores.

Minha mãe, Méuri (Na verdade era “Mary”, mas no cartório não souberam escrever), meus irmãos e eu, estávamos lá, também enlevados. Nas paredes havia fotografias da loja matriz. Percebi então o quão pequena era a filial de Vila das Dores. Havia também cartazes anunciando o “advento do crédito”. É como comprar fiado, no entanto, pode-se comprar mais, de acordo com a quantia de dinheiro posta em um cartão.

Maravilhado, quis disparar-me por entre os corredores – não pude. Quis levar para casa alguns livros e brinquedos – fui de novo impedido. A escassez de recursos financeiros, pela primeira vez, fez-me gritar injúrias à vida e à pobreza (as quais eu não conseguia discernir). Um guarda vendo-me embebido em tamanha cólera e se apercebendo das poucas condições de que dispunha, convidou-me a mim e à minha família a retirar-nos. Lá fora fui xingado por meus consanguíneos, enquanto voltávamos para casa.

“Seu” Dantas, o papai, chegou à noite nervoso por ninguém o ter auxiliado na roça. Disse-nos que trabalharíamos em dobro até que pagássemos essa folga. Mas pouco nos importamos, tão deslumbrados estávamos com “a novidade”. Mesmo eu, que já conhecia esses estabelecimentos grandiosos por fotos e livros das grandes cidades, impressionei-me por estar num deles. Contamos, em meio a uma imensa algazarra, o que vimos e sentimos. Os olhos dele se iluminaram, mas falseou desdém antes que a luz lhe clareasse os lábios e o seu deslumbre aparecesse num sorriso.

Desde então estamos cada vez mais entregues corporalmente à labuta e mentalmente à lembrança da maravilhosa casa comercial. Li que até os escravos descansavam, mas nós – não. Mamãe tem ido à roça e mesmo assim quando chegamos, o jantar está pronto. Desconheço o modo de ela fazer tal peripécia, se parece todo o tempo estar conosco. O fato, no entanto, é que ela a faz.

Jantamos à mesa. O pai em uma ponta e a mãe à contrária. Nós, os filhos, nos sentamos às laterais. Comemos com garfo e faca. O papai nos ensinou etiqueta, para que não passemos a vergonha que ele passou quando esteve na capital. De acordo com ele, pessoas educadas comem assim e pobres não têm que ser deseducados. Toda essa finura, porventura, também seja motivo de a comunidade afastar-se de nós, eu acho, mas o papai disse que são todos um bando de invejosos, isso sim! (E enfatizou o “isso sim!”). Só me pergunto de quê, ao certo, as pessoas têm inveja. Seria mais lógico nós termos inveja delas…

Mamãe nos disse que aprendeu tais trejeitos da elite, quando estudou na Escola Normal, numa cidade próxima à vila. Ia a pé todos os dias. Chegava, por vezes, enlameada – mas, obstinadamente, ia. Lá, as poucas amigas dela mostraram-na a forma correta de comer, andar, sentar, falar, etc. Mas estas, ao fim do curso, voltaram às suas cidades. Mamãe continuou em Vila das Dores, mas nunca lecionou, porque se casou e engravidou.

Findo o jantar matutei com meus botões: “Talvez o súbito trabalho intenso tenha alguma ligação com a loja…” Porém não pude ainda estabelecer uma ponte firme entre os dois fatos e não tenho coragem de perguntar ao papai. Ele não gosta de perguntas.

III

 Chega a véspera do Natal. Estamos extasiados de tanto trabalho. Inexiste melhor presente que o descanso. Graças a Deus pudemos dormir até tarde. Levantamos, os caçulas e eu, por volta das 10h e almoçamos. Foi-nos liberado o recreio. Aproveitei para continuar as leituras outrora estacionadas. Li no jornal que a grande loja é um “hipermercado” e que fora organizada na vila, porque estão construindo um condomínio fechado aqui perto. São “casas de campo”. Por isso, também instalaram luz elétrica e rede de esgoto na região. Como os ricos querem descansar da cidade, trazendo-a para o campo? Realmente é-me ignoto o que eles procuram por essas bandas de Vila das Dores. Será que não sabem que aqui é, provavelmente, o fim do mundo?

À noite, a mesa estava posta com esplêndido louvor. Havia comidas caras que sobre ela eu nunca vira, já que era frequentada somente por arroz, feijão e farinha – quando muito, umas salsichas… Os caros alimentos foram preparados por Sebastiana, que entendia de cozinha, por ter sido, quando moça, cozinheira em casa de um magnata. Junto aos oito filhos que moravam com ela, ceou conosco. Mamãe só sabia cozinhar a costumeira gororoba, que já não julgávamos boa ou ruim – apenas nos habituamos a ela.

À 0h, fomos à árvore de natal: um pinheiro de plástico, de igual modo, novo. Geralmente, nessa época, cortávamos uns galhos de uma angiosperma qualquer e isso se tornava a nossa árvore de natal, onde debaixo nada se via senão o próprio chão de terra batida. Como em dezembro essas árvores frutificavam, os troncos e galhos se enchiam de formigas. Então, assim que passava o natal tirávamo-la rapidamente de casa, antes que se infestasse toda ela. Todavia, dessa vez havia presentes, como nos cartazes e nós os abrimos ansiosos. Eram alpercatas! Todos tínhamos a partir daí com o que nos calçar! Foi uma alegria geral!

Tamanho júbilo, infelizmente, pouco durou. A vizinhança que nos tratava com hipocrisia e hostilidade, passou a ignorar-nos totalmente. Se primeiro éramos demais sujos para estar com eles, agora, éramos demais soberbos. “Eles têm sandálias novas e boa comida, estão construindo uma nova casa de alvenaria, e se acham por isso! Não os suporto!”, diziam.

No entanto, mantivemos o caráter. Trabalhávamos demasiado muito. E nas folgas, construíamos a nova casa, inspirada em uma foto que vi das casas da cidade grande. Até as crianças menores ajudavam carregando, mesmo que um tijolo por vez. Eu não lia mais – era-me falto o tempo. Estava feliz, porque via a ignomínia da pobreza ir-se de mim; contudo a tristeza me assaltava quando de modo vil me ignoravam os passeantes na rua. E desentendia o porquê, apesar de sabê-lo.

Terminada a edificação, vimo-nos endividados. O temor, que sempre impedira meu pai de ousar e investir, consolidou-se. Empolgados, gastamos mais do que permitiam nossas posses. A nova casa, na rua principal da vila, rua tal que dava acesso ao futuro condomínio – essa casa foi por nós, pouco tempo habitada. A pressão da loja para que as dívidas fossem quitadas, culminou na venda – e voltamos ao barraco de pau-a-pique.

Esse regresso foi demais trágico e humilhante. Os comentários fervilharam por todo o pequeno povoado. Mantivemo-nos exclusos da comunidade que aceitava somente os “iguais”. Fôssemos mais ricos ou mais pobres que a maioria – não importa – qualquer disparidade seria motivo de angústia. Não tínhamos a quem recorrer, pois até Sebastiana, com seu olhar se misericórdia, se foi com seus filhos para a capital.

 IV

 Em nossa casa está proibido falar “na loja”. Com muito trabalho, continuamos a sobreviver como dantes do aparecimento desta. As alpercatas estão estragando. Li que os produtos novos não são feitos para durar, mas para que se comprem outros mais recentes rapidamente. Contudo, estamos sem posses e em breve voltaremos a andar descalços, machucando a sola dos pés nas pedras soltas pelo caminho, como as pedras da pobreza e da miséria machucam o nosso espírito e desanimam o nosso coração.


Breno Ricardo (Belo Horizonte, Brasil) escreve poemas, peças teatrais e crônicas. Já foi diretor de um grupo de teatro amador; possui três livros publicados on-line; e, atualmente, publica crônicas no blog da Capela Anglicana do Bom Samaritano, além de poemas e pequenas reflexões em sua própria página no Facebook.

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