Subversa

“Minha alma no reflexo do espelho” e “Aviário” | Eber S. Chaves


Minha alma no reflexo do espelho

Flutua, é semitransparente, irradia luz, desloca‐se a grandes distâncias… Noite passada eu vi minha alma pelo reflexo do espelho. Ela desprendeu-se do meu corpo, afastou‐se e fugiu. Sob a escuridão salpicada por centelhas de luzes cintilantes, voou entusiasmada e sorridente. Tão inquieta era ela que brilhava no seu rosto a figura como a do sol da primavera de doces brisas. Eu me alegrei por ela, me iludi e disfarcei o pranto, que é fruto do desejo amordaçado.


Aviário

 

I

O falcão-ferruginoso que todas as manhãs sobrevoa a pradaria não sobreviverá mais do que um pombo no parapeito das janelas que sabem sobre os segredos desta noite que encolheu e delineou uma alma velha.

II

A Toutinegra fêmea que partiu para a sua migração outonal não foi a mesma que regressou na primavera que veio sem avisar e em meu peito se alojou, vagarosamente.

III

Os Albatrozes no Oceano Antártico morrem todos os dias, raquíticos e indigestos, por sua pobre dieta de sacos plásticos que flutuam sobre o brilho da luminosidade que reverbera nas águas e parece confundir-se com o reflexo das gaivotas na linha do horizonte.

IV

Os pássaros voam em direções diferentes, voltemos a olhar para cima! Talvez o falcão-ferruginoso sobreviva para voar por entre o azul que veste o céu com um efeito tão distante e infinito nas manhãs ensolaradas. Talvez a Toutinegra fêmea regresse para as matas sombrias, para ali cantar, escondida, o seu agradável murmúrio. E talvez os Albatrozes regurgitem os sacos plásticos, enchendo o Oceano Antártico de lixo do capitalismo.

E nesse céu, essas asas… Eu talvez tenha sido feito para a liberdade, assim como os pássaros!


Eber S. Chaves | Vitória da Conquista, Brasil

 

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