Subversa

Migrantes | Pedro Silva (São Paulo, SP, Brasil)

Ilustração: Isabela Jerônimo


Para Antonio Carlos, meu irmão.

Antes de tudo, este é um relato de ausências. Do que aconteceu e do que poderia ser dito que aconteceu. Porque na real faltou coisa pra cacete. O que poderia ter sido contado e o que poderia ter sido esquecido. Mentira minha, o esquecimento não faltou não. O esquecimento veio junto, coladinho na rabeta do trem que nos trouxe até aqui, rabiola de pipa que quando está ninguém nota e quando falta cria ausência. Porra nenhuma, porra nenhuma. Xi, tá confuso. Este é um relato de três fotos porque as outras faltaram, pediram licença, apresentaram atestado médico e vazaram. Jeito meu engraçadinho de falar que não lembro, não as tive, não as tenho. Estão somente as três fotos enfileiradas ao lado uma da outra na ordem que eu escolhi que ficassem. Imagina agora: três fotos enfileiradas. Já já as descreverei e você entenderá. Por enquanto só imagina. E como todo o resto falta, este é um relato de ausências. Porque foto não é vida: foto é registro. Se só tem o registro, o resto falta. Além do mais, se não fosse eu, quem mais poderia contar? Ninguém. Então, se sou só eu, falta.

Falta no futebol é foda. E quando até o futebol falta?

– Deixa ele correr, marca o dez, o magrinho deixa aí sozinho que este aí a vida mesmo marca ele, hahahah.

– Hahahahahah, vai deixar ele te zuar assim?

– Mano, sério, vai pro gol, na linha você não serve. Agarra lá pra gente.

O gol. O gol, ponto. O gol com o qual todos sonham, aquela marca de que finalmente você chegou lá, sabe? Fazer o gol, marcar o gol, ser o artilheiro do país do futebol, ser o campeão e levantar aquela caneca que, nos jogos finais, fica atrás do gol: pra te atrair. “Bota ele no gol”, “Não põe ninguém pra marcar ele não, este aí a vida marca”;

#botaelenogol;

#esteaíavidamarca.

-Vai pra quermesse?

-Quermesse? Mas minha mãe disse que não deixa, sei lá, o povo bebe, fuma maconha.

-Áaa!, rásefodê então.

Maconha não, macumba não, não me misturo, não se mistura, não sei, não sabe. Não posso ir com o povo da maconha e da macumba. E sabe por quê? Porque hoje você tá rico e compra um bagulho e bota na boca junto com seus amigos ricos que também botam na boca e olha que legal! e olha que barato!, e olha que descolado!, e vamos descontrair!, e é só pra relaxar, e maaaaaaano, cê não sabe quem colou aqui com um barato louco, e vamos no morrinho depois da prova?, e carai, tá cum zóio vermeio heim, fiu? Cê se ligou? Então, tudo isto que é mega moderninho e que você acha bacana, tudo isto que faz de você hoje um cara mais legal, não era muito legal ali, naquela época, naquela década, naquele momento onde fumar aquilo ou não era o que diferenciava os meninos que chegavam à idade do exército vivos e livres e os que não davam certo, os que viravam números. Cê entendeu? Entendeu que o que é maneiríssimo pra um pode ser foda pro outro? Cê já sonhou em ter uma caixa de isopor branca e novinha pra vender sorvete no trem? E a macumba? Ah, macumba era frescura mesmo. A mãe achava que era do capeta, ensinaram que era do capeta. Só isto.

Três fotos enfileiradas. Lembra delas agora. Imagina. E era tudo que tinha sobrado. Tinha mais foto antes. Tem uma que eu lembro que aparecia o vô. Tinha aquelas fotos que eram pequenininhas, quase transparentes, impressas num filme escurinho. Daí você colocava num negocinho de plástico que parecia um funil retangular. Numa ponta tinha uma lente e na outra ficava a foto apoiada num suporte branco. Daí você apontava este negocinho pro Sol e via a foto. O Sol atravessava. A luz atravessava. Você atravessava a foto e via. E era super tecnológico, bom pra caralho. Mas daí a gente jogava a foto fora e usava o negocinho como lupa pra canalizar a luz do sol em um foco único e tentar matar formiga. Carbonizada. Antes do YouTube ter dó das formiguinhas era isto que a gente fazia. A gente não tinha politicamente correto nenhum para com a #formiguinhaquedó. Era feixe de luz na cabeça. Mas nesta, vai vendo, a foto (lembra da foto) sumia. E ficava só o negocinho de plástico. E foi assim que a gente acabou com o passado. Com infantilidade imprevidente, insensatez, crueldade, falta de educação e ignorância: os mesmos ingredientes com os quais um monte de gente mata um monte de coisa. De travesti a continentes. Daí sobraram só as três fotos enfileiradas.

Na primeira tem um sorriso lindo na sua cara, moleque! Porra, como era gostoso te segurar naquela época, super inteligente, esperto pra caramba já, ria de tudo, a vida tinha uma graça imensa. Você sabia junto com o cachorro quando o pai tava chegando. Ele abanava o rabo e você abria o sorriso. O barulho da Kombi velha, papapapapapappappapappapapapapapaaaaaaaa (desliga o motor), au, au, au, au, au, gãããããããã, baba! Coisa mais linda. Era bom te ver sorrir, moleque, tô lacrimejando de lembrar. E a colcha cafona e quente da cama? Bagulho enchia de pelo de bicho, esquentava pra cacete, fedia a suor. Hahahaha. E a cortina? Hahhhaha. A cortina, mano, tinha tipo uma estampa de cana-de-açúcar verde, um bambu esquisito. Mas já dava pra ver que iriam te deixar metódico. Sua roupa parecia um uniformezinho, tudo combinando. Daí começou uma coisa esquisita. De querer tirar foto sua e te ver bonito. De te comprar roupa pra te vestir legal. De te fazer ser quem você não é. Tem uma foto, a do meio, que é assim. Cê tá lá, sentadinho tipo um rei no trono. Cara de rei. No trono. Sentadão, pá! Vai vendo. Fundo falso, puta foto fake anos oitenta imitando um bosque outonal num país frio. Vai vendo, fazendo foto em Carapicuíba com paisagem Canadense no fundo. Você lá, mó cara de marrentão, nem sei se era sua ou se mandaram fazer. Não! E o “Trono”? Cadeirinha daquelas que parece que eles entrelaçaram centenas de canudinhos até dar liga pra sentar. E você lá: marrentão. Daí, já viu, né? Terceira foto, pô, to chorando mesmo, djou… terceira foto é foda. Cê tá sozinho. Que nem você iria ficar. Acho que cê fica porque gosta. Mas cê parece triste nesta foto. O cachorrinho preto tá no seu colo e é tudo que você tem. Você segura nele como quem abraçasse, mas seu rosto mostra outra coisa: parece que você segura ele assim porque é a última coisa que você tem. Porque você não tem mais ninguém, porque você nunca teve ou porque todo mundo foi embora. Mas quem teria ido? Não, ninguém foi. Ninguém veio. É isto: na realidade enquanto eles jogavam bola lá fora você olhava da grade de madeira do portão, #botaelenogol, #esteaíavidamarca, só tem você, o cachorrinho e eu batendo a foto. E foi o que sobrou: as três.

Faltam fotos porque falta história porque falta família porque faltam elos porque falta orgulho porque falta amor porque falta amor-próprio porque falta jeito de se amar porque sobra medo porque houve fuga e culpa porque pra ter foto tem de ter grana porque nos anos oitenta não tinha smartphone porque nos anos oitenta quem tirava foto era rico ou fotógrafo quer dizer não precisava ser rico mas precisava ter câmera quer dizer não precisava ser rico precisava só não fugir não ter medo arranjar um jeito de amar ter amor-próprio ter amor e orgulho pra fotografar precisava ter os elos e pra fotografar precisava antes ter família pra poder ter história. Era assim nos anos oitenta.

Mentira, precisava ter nada.

Pra fotografar só precisava luz. O resto é desculpa.


PEDRO SILVA admira todas as formas de arte e fica triste sempre que sua vida se afasta deste meio. Escreve desde 2009, mas somente agorinha se convenceu de que poderia dividir isto seriamente com o mundo. publica no blog ESCREVENDO PEDRO | ESCREVENDOPEDRO@GMAIL.COM

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2 Comentários

  1. Luciene Bernardes 1 de outubro de 2015 em 18:28

    “precisava só não fugir não ter medo arranjar um jeito de amar…”

  2. Daniela Dufloth 30 de outubro de 2015 em 00:46

    Curti esse 🙂

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