Subversa

Michelle | Alessandra Barcelar


Os fracos morrem sem amor.  Não me ligaram para avisar a primeira vez que ela foi internada.

*

Já tinha aquilo dentro de mim. À noite, quando o único som era o dos ratos andando pelo telhado, eu cobria o rosto. Deixava minha mão descer. Fazia medições para ter

certeza do que era ter aquilo.

*

Sentado de frente para uma janela no centro da cidade, começo a temer pelo encontro

marcado para daqui a pouco.

*

“Faz mais de quinze anos que você foi embora e nos deixou nessa latrina. Com que

direito aparece agora?”

“Saí, porque meu corpo só carregava um”.

“Você é um bosta. Acha que sua carteira aberta é uma parte de benevolência”.

*

Virei as costas e fui em direção à porta do quarto. Temia vê-la de uma forma diferente

daquela que conheci anos antes.

*

“Vamos à benzedeira. Tudo tem jeito nessa vida. Só não tem jeito pra morte”.

“Pra morrer basta estar vivo”.

*

Seu corpo arfava sobre a maca. Braços amarrados com gazes. Olhos catatônicos. Um

tubo enfiado pela boca e lábios arroxeados. Sobre o corpo, um lençol já amarelado pelo

uso em outros corpos deixa parte de seu colo nu à vista.

*

“Sua mãe acha esse jeito estranho. Pergunta se nunca reparei em nada.”

“A loucura faz parte. Acho que é só um jeito de pensar que sai descarrilhado da

cabeça”.

*

Minha irmã chorava copiosamente sentada numa cadeira. Amparada pelo banana do

marido, questiona Deus.

As pessoas pelos corredores. Éramos fantasmas para elas. Cada um tem seus próprios

doentes e recebe suas más notícias a seu tempo.

*

“Que porra é essa no seu caderno? Quem é? Eu não acredito que Deus me castigou

assim!”

“Sua mãe perguntou sobre essas coisas no seu caderno. Eu disse que era brincadeira de

alguém da escola”.

*

A pele dela há muito era um leito de rio seco. Os lábios roxos em nada lembravam a

vivacidade vermelha de outrora. Será que ela ainda tem aquele cheiro? Levei uma surra

um dia porque mexi nas coisas dela. Perfume. Batom. Pó. A mangueirinha do chuveiro

abriu vergões em minha pele. Chorei por todos os motivos. Passei vergonha na escola.

*

“Sabe, eu te defendia na escola. Briguei quando te zoavam. Uma vez fiquei com o olho

roxo. Aí, um dia, você vira as costas e some.”

“O mundo só é grande se a gente abre espaço”.

“Claro que ela não iria aceitar, mas ela chorava feito pedra minando água”.

*

Logo vai chegar minha tia. A boa samaritana da família. Usa saia e faz tudo que o

pastor manda. Vai me olhar inquisidora. Perdeu tudo, menos a pose. Cumprimentará

minha irmã. A filha que ela queria. A filha que ela tentou roubar da minha mãe. Até

berço comprado já tinha. Não era justo uma menina bonita naquela miséria.

*

Ainda há fios espalhados aqui e ali pelo seu couro cabeludo. Suas fotos da juventude

mostravam um cabelo volumoso. Usava bobes para fazer os cachos. Nas excursões para

a praia, nunca molhava os cabelos. Dizia que frequentava os bailes dos anos 70. Deve

ter dançado Jackson Five e Donna Summer.

*

“Ela nunca soube que era você quem mandava o dinheiro. Eu dizia que era da venda de

Avon”

“Todo suor dá dinheiro”.

*

“Eu fingia não ouvir as piadas quando passava no bar. Às vezes, eu pensava em estourar

e virar um diabo doido lá dentro. Sei que te achavam uma aberração e que a culpa era

minha. Para os outros, a culpa é do pai, que não deu exemplo”.

“O exemplo é só uma embalagem para não derramar o que tem dentro”.

*

Meu pai apareceu com o médico. O doutor colocou a mão em seu ombro e fez um

afago. Passou pela minha irmã e fez o mesmo. Diante de mim, um susto. Perguntei a ele

se ela conseguia entender algo. Ele disse que naquele estado ainda resta consciência. Ela

ouve? Sim.

Abri a porta e a enfermeira pediu licença. Coloquei a mão sobre seu colo e segurei sua

mão. Senti-a fria, mas ainda arfava sob o lençol.

— Eu fiz a escolha certa, mãe. A senhora não aceitou nunca, mas a natureza da gente é

um bicho que não dá pra domar. Mãe, eu te perdoo. Guardamos rancor demais pra levar

agora. Eu só queria um pouco de atenção, porque eu sempre soube do que eu gostava.

Chorei e abaixei a cabeça. Beijei sua testa já gelada. Seu peito subiu alto. Cheio de ar.

Um apito ininterrupto tomou conta da linha verde na máquina ao seu lado.


Alessandra Barcelar | São Paulo, Brasil |  é historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu, e atua na área de Economia da Saúde. Publicou contos em revistas literárias do Brasil,  Portugal e Alemanha. Colaborou na coletânea Mitos Modernos I, que recebeu o prêmio Le Blanc de Literatura  Arte Sequencial

 

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Yasmin Bretas 26 de março de 2021 em 09:35

    Muito bom 😊

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