Subversa

Meu caso é grave, doutor? | Geraldo Lavigne de Lemos


comecei sofrendo de poesia aguda.
não tratei.

desenvolvi sensibilidade às palavras,
sofri de conceitos e verbetes,
senti alívio usando metáforas
e outras figuras de linguagem.

eu inventava realidades
no labirinto do lirismo.

fiz alguns exames,
guardei papéis nos bolsos,
portei caneta e lancei-me ao acaso.

estava na poesia pelo escapismo
e expelia versos rabiscados.

os laudos foram claros
e, depois do estadiamento,
recebi o diagnóstico
: sofro de poesia crônica.

vejo a curva da mobília repetir o universo,
um palhaço riscado dançando
nas rachaduras da cerâmica
e um pássaro exibir seu voo estático.
apanho água de lago na pia e
ouço cachoeiras no chuveiro.
dissocio corpo, mente e alma.
enxergo as moléculas do ar
e o espaço que ocupam.
capto a vida das coisas inanimadas
e reanimo a morte dos seres vivos.
toco a força dos trabalhos, não a coisa que trabalha.
toco a dor, não a ferida.
sinto a espessura do tempo, o peso da nuvem.
e recentemente vi a luz fazer uma curva
em direção ao amor.

nada é mais real, senão a poesia.

descobri
que é o próprio mal que cura:
hoje trato-me com
poesia nascitura.


Geraldo Lavigne de Lemos | São Paulo, Brasil | geralavigne@hotmail.com

Sobre o Autor

5 Comentários

  1. Bruno Sitta 15 de abril de 2019 em 23:52

    O poema reflete a alma dos poetas……… E de todos os que trabalham com arte, com o imaginário e transcendem as barreiras do real, factível e paupavel! Parabéns pela captura tão singular dessa essência vista pelos olhos da poesia e se traduzem em outros tons!!

  2. Neuzamaria Kerner 16 de abril de 2019 em 06:51

    Parabéns ao poeta Geraldo Lavigne pelo poema , bem como parabéns aos organizadores pela sensibilidade e publicar os belos versos.

  3. Leonor 16 de abril de 2019 em 07:58

    Excelente!! Parabéns!!!

  4. Piligra 16 de abril de 2019 em 08:12

    Diagnóstico médico

    Do mal que tu reclama, enfim, sofrer
    Somente poucos podem reclamar,
    De verso a gente não pode viver
    Neste teu diagnóstico exemplar;

    E mesmo, assim, febril queres saber,
    Se o mal que sofres pode te matar,
    De verso ninguém nunca irá morrer
    E a cura só você deve encontrar;

    Sugiro que tu bebas todo dia
    Dois copos de loucura e um de mistério,
    Evite frente à vida o despautério
    E faça da linguagem a sua guia;

    – Teu mal faz do risível o menos sério
    E ele só vai curar com poesia!

  5. GERALDO Leal de Moraes 16 de abril de 2019 em 10:55

    Mais do que um poeta é um ser divino que transcreve a beleza da vida , Seu olhar é de criar um mundo perfeito que retrata a verdade de sua alma. Realmente poeta deste mal não há cura.

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