Subversa

Me permita | Andre Victor Marques (Rio de Janeiro, RJ, Brasil)

mepermitaOlhou e sentiu aquele arrepiar, de desconstruir qualquer possível ideia de fingimento. Foi espontâneo, foi mágico. Foi algo que nem ele mesmo soube dizer o que era. Viveu a vida a procurar. Se entregou nessa procura incansável, nessa rotina de busca implacável. E foi então, que estranhamente, construiu todo seu império de sonhos. Todas as suas fantasias vieram à realidade. Havia conseguido seu amor: seu amor correspondido, sua solidão retirada, sua vaidade aguçada. Seu coração transbordava. Sentiu como se tudo, absolutamente tudo, fosse infinito. Até mesmo as horas, que se passavam como a máquina a correr na cidade moderna, era infinito. Os instantes curtos e rápidos, tornou-se uma vida inteira, um carnaval a ser contemplado. Seu amor, era sua fantasia, sua fantasia mais bonita de todas. Esqueceu-se, até, da triste roupa cinza e sem graça, que a solidão lhe vestia. Mas desconsertadamente, assim como tudo foi construído, passou a ser temido. Agora era tanta correria, ainda se viam, mas com a triste sensação de tudo acabar. De tudo se desmoronar. O trem parou, seus olhares se cruzaram, em rápidos e decisivos minutos, e tudo se descortinou, tudo virou fumaça. Seu amor desceu, e ele, que ficou, se despiu de forma tão bruta, grosseira. Ainda tentou avistar pela janela, mas agora começavam a ganhar velocidade, andando rumo ao próximo destino. Seu olhar voltou ao vácuo, ao nada, sem profundidade, eram somente lamentações. Seus olhares cruzados, fixados na alma de cada um, foi a realidade imaginada. Tudo ali se fez. Tudo ali virou tudo. Seu amor não lhe permitiu, ele deixou-se levar. Num desencontro, o tudo agora era nada. Eram somente lembranças de um passado acontecido quase agora. Permitiu-se amar tão humanamente, inteiramente. Ficou entregue.   Mas deixou de se conectar, deixou de amar no momento que perdeu de vista, na rapidez com que um cisco vai encontrar o chão. Vestiu seu uniforme cinza novamente e se perdeu. Seu mar de solidão já havia preenchido tudo. Seu corpo era tomado pela inércia. Transformou-se num náufrago. Um náufrago só.

 


André Victor Marques (Rio de Janeiro, RJ, Brasil) é estudante de letras – literaturas, carioca e obsessivo por livros. Com o grande sonho necessário de escrever e somente escrever. Externar os sentimentos reprimidos, a angústias isoladoras, as felicidades estranhas. Escreve, por amor, no blog Prazer em dizer.

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