Subversa

Linhagem | Thássio Ferreira

 

A vó contava que a bisa era índia maxakali, do Vale do Mucuri, perto do Jequitinhonha. Que tinha se apaixonado e fugido com o biso, no tempo que a gente do litoral foi ocupar as terras entre o mar e as minas, depois dos portugueses levarem todo ouro e diamante que conseguiram. Mas a bisa dizia — a vó contava — que na época dela ainda mocinha, acontecia dos brancos laçarem as índias à força, feito bicho.

— Imagina, preá! — Ela me chamava assim, toda dedos de terra úmida: preá, preazinha — Se fosse comigo, eu fugia! Como a tua bisa fugiu pra casar, eu fugia era do marido! Mas a mãe dizia que algumas até gostavam, já no início ou então depois…

Quando mais nova eu não falava nada, meio vazia de mim, ainda. Mas depois comecei a responder a vó:

— Isso não justifica, né, vó?! E se não? E mesmo quem gostava, tá errado, não ser de escolha, ser à força; no fim a gente é capaz de se acostumar com quase tudo, e até confunde com gostar; mas não justifica.

A vó ria, às vezes um riso meio triste, outras franca gargalhada. Às vezes falava num fiozinho de voz “Ah, preazinha, mas se gostava…”. Noutras, mais raras, até me dava razão, arqueando as sobrancelhas e esfregando as mãos. Ela parecia ter orgulho quando eu me apoquentava assim, ensaiando rebeldia. Acho que era nessas horas que me achava mais parelha com ela. Mais que a mãe.

É que a vó tinha um jeitão dona de si, que a mãe não tinha. Eu achava, né. A vó botava banca. Eu gostava. E matutava que isso vinha da bisa, sem medo de largar mundo obedecendo o coração. Mas ela também tinha, misturado, umas opiniões tortas, como tanta gente tem, até hoje, meu Deus. Passava uns panos, como se diz. Feito nesse caso de achar que tinha remendo laçar mulher, vê se pode! Podia de ser da mãe dela isso também, que fugiu porque quis, mas foi pra ir se submeter também, não foi?

A mãe sempre foi mais caladona, não era muito de contar história. Eu queria que ela falasse da vó como a vó falava da bisa. Ainda mais que a vó era viva, né, eu queria saber dela pelo olho da mãe. Mas não. O pai que às vezes contava uns causos, mas com um tipo de inclinação da voz, do rosto, que parecia fazendo troça dela, um tanto. Um dia assuntei isso pra mãe: que ele parecia mangar da vó quando papagaiava os acontecidos com ela. A mãe disse que era inventação minha.

O que ele contava mais seguido era da vez que a geladeira da chácara de um vizinho queimou. O Zezinho, amigão do peito dele. Tinha uma terrinha lá pros lados de Bom Riacho. O tio Zezinho pediu ajuda ao pai pra levar a geladeira nova pra chácara, mais a mãe: assim passeavam todos. A mãe quis levar a vó. Descarregaram a geladeira e a vó perguntou se iam fazer alguma coisa com o papelão grosso da embalagem. Foi responderem que não, pegou tudo e tomou rumo do morro, toda faceira — essa palavra antiga que o pai usava meio com deboche mas eu acho que combina com vó. Subiu um tanto, ritmo firme, deitou o papelão, sentou em cima, e escorregou ribanceira abaixo, despinguelada, toda trabalhada no riso. Danou-se a repetir, com os guris da redondeza olhando arregalado: às vezes descia de mais alto, outras dava impulso com as mãos, noutras tentava fazer curvas. Os guris se renderam: foi festa.

Numa vez perguntei ao pai onde tavam as gurias nessa história, mas ele não lembrava de nenhuma. O pai se fosse da época da bisa era capaz de achar certo pegar mulher à força, capaz até fazer. Eu tentava ensinar pra ele um amor mais largo, mas era difícil: o pai era muro. E eu nem podia contar com a mãe pra me ajudar. O principal da história era o final: um dos garotos, justo o mais capeta, se achegou nele e no tio Zezinho pra dizer, purinho espanto e excitação, que: a vó era louca!

Eu muito não sei por que a mãe puxou só as opiniões tortas da vó. De se submeter. Não sei mesmo. Mas tenho palpite que viver com o pai fez só piorar esse malogro. O pai era duro. Talvez a mãe tivesse se acostumado a gostar dessa dureza, do jeito que eu falava pra vó podia ser o caso das índias laçadas, mas não justificava! Eu escapulia um tanto porque era filha, comigo ele era um pouquinho menos. Mas só um pouco. Eu queria o jeitão da vó, sem as tortices. Botar banca.

Ela me ensinou muita coisa, viu. Cuidar de planta. Limpar, temperar e amaciar carne. Umas manhas de andar no mato: “Não dá passo grande que cansa mais rápido. Deixa pra abrir as pernas noutra hora”, e ria gostoso, matreira. “De vez em quando tem que olhar pra trás, preá, pra entender de onde cê tá vindo. Se precisar voltar.”

Um dia ouvi por acaso o pai no telefone, dizendo “Tá chupada, já. Não quero mais, pronto. Acabou a vontade em ficar junto. É isso. Não tem porquê.” No dia seguinte ele saiu de casa. Disse que me amava e voltava pra me ver, mas era melhor dar um tempo pra mãe curar. Só não disse como. Nem quando.

A mãe, feito liana agarrada no muro, despedaçou. Passava os dias chorando nos cantos, cabisbunda (a vó falava assim), perdeu até a mania de limpeza. Eu fiquei preocupada mesmo foi por causa de um detalhe: quando percebi que ela não trocava mais aquelas pastilhas de cheiro no banheiro: glade plug. A mãe era vidrada nesse troço.

Tinha um cheiro adocicado que no início era até bom, mas logo parece que agulhava as narinas da gente, raivento: doce demais, forte demais, enjoativo demais. Botar pastilhas novas era das poucas alegrias escancaradas que a mãe praticava, sempre cantando a musiquinha do anúncio: “Glade plug glade plug, glade plug eu vou usar.” Quando percebi que o banheiro não tinha mais aquele cheiro, chamei a vó.

Ela veio ficar com a gente um tempo. Tentar animar a mãe. Mas era difícil: a mãe se entocava pelos escuros da casa, fugindo, pra chorar em silêncio ou escutando um bolero de que gostava, cantando junto, baixinho, quando chegava na parte que dizia “Y de noche, por la noche, por no sentirte solo, recordarás el sabor de mis besos…”. Essa, antes, era outra alegria escancacarada que eu lembrava dela: quando nós duas fomos ver um show na praça, no aniversário da cidade. Uma cantora altona, larga, toda imponente, muito linda, de olhos meio orientais e um vestido grafite e dourado, cantou várias músicas que a gente não conhecia. Dessa a mãe gostou mais. Disse: “Olha, filha, que lindo” e os olhos dela radiavam mais que as luzes do palco, eu achei. Depois procurei a música pra ela, e guardei pra mim aquela radiância. Agora, quando ouvia esses versos gemendo pela casa, eu sabia que os olhos da mãe não tavam radiando. Doía em mim também.

Na mesa do café, a mãe no quarto ainda, a vó disse que não condenava o pai: “Se teve mais coisa eu não sei, mas tua mãe só me contou dele falar que o amor acabou, preazinha. Aí dói, mas vou enfezar? Não consigo. Amor quando tem tem, se não tem mais, não é pra ser.” Eu contei do pai no telefone, da mãe tá chupada. A vó me olhou comprido, desanimada. Disse que o pai não devia ter falado daquele jeito, mas que “mesmo com esse motivo bem capiroto de homem ruim, amor não tem razão nem desrazão. É o que é. Quando tua mãe entender isso, vai melhorar.” Na hora eu não consegui decidir se era tortice da vó ou se ela tava certa. Resolvi contar pra mãe: vai que ela melhorava. Eu acreditava muito nas manhas da vó.

A mãe primeiro me encarou, parecendo na verdade olhar pra dentro, mais que pra mim. Suspirou uma largueza e falou devagar, a voz pingando mágoa:

— Ela pode tá certa, até. Mas pra ela é fácil dizer do amor assim, sem sangrar. A tua vó tem dois.

Senti minha cara desalinhar, esticando susto. Depois que uma nuvem passou nas vistas dela, continuou:

— É. Além do teu vô, ela tem outro homem. Desde muito tempo. Me contou quando eu virei maior. Diz que ia fazer o mesmo contigo, mas agora falei. Teu vô sabe, eles vivem bem assim. Talvez que cada pessoa tem seu jeito de amar. Deus queira o teu seja feito o dela, e não o meu.

Levantou, crispada, e se trancou no quarto, antes que eu pudesse lhe tocar os cabelos, dizer “Eu também te amo, mãe”. Que ela tinha muito amor também. Não é o mesmo tipo, mas é amor.

Todo modo, Deus quis, sim, fazer meu jeito de amar mais parecido com o da vó. Acho. Um tanto. Mas não deu tempo dela me ensinar mais dessas manhas de amor. A mãe já tinha melhorado, o pai tinha vindo algumas vezes, mas eu ainda não tinha coragem de falar com a vó dos dois homens dela, até que ficou tarde. Deus bota mais banca que a vó da gente, né? E também tem as tortices dele, as pessoas não falam?


Thássio Ferreira | (twitter: @thassiogf)

* Este conto integra o livro Nunca Estivemos no Kansas, a ser publicado em 2021

 

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1 Comentário

  1. elimacuxi 15 de janeiro de 2021 em 16:08

    Sensível e belo.
    Viajei.

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