Subversa

Lição encontrada sob a pedra | Rodolfo Minari

 

O primeiro erro é

Menosprezar a folha em branco.

Lutar com ela,

Em vez de amá-la.

Olha para a folha em branco e vê

Que nela já está o poema,

Já moram o sorriso, o gracejo,

A dor, a lágrima de ternura,

O opróbrio e a exaltação

Do coração que o lerá.

Portanto, rebelde

De inquietas articulações,

Respira.

Aprecia o momento que

Antecede a eclosão;

Suga e sabe esse impasse;

Hesita como quem dança;

Flerta com a musa,

Vê-lhe a beleza, a candura;

Enche teus olhos, saliva

Enquanto mira as curvas

Da estrada de sonhos

Por quais ela pode levar

O teu talento.

Voa, estende a folha em branco

E não pega, ainda, o lápis.

Toca, antes, a massa idília,

Afaga a celulose,

Sente o quanto há de água

Em sua alquimia.

Deixa-a esquentar as pontas dos teus dedos

(isso só pode ser feito muito amavelmente),

Deixa-a se lembrar da terra abraçada a suas raízes,

Quem sabe outra árvore ao longe,

Cócegas de passarinhos em sua copa.

Acaricia. Percorre;

Sente onde ainda pulsa a seiva,

Ouve o murmúrio de sangue,

Aos poucos descobre a história

Que quer ser contada por ti.

Sê digno.

Erige-te.

Finca os pés no chão para receber.

Espalha teus ramos, desenha para o céu.

Deixa fluir o silêncio,

Que é mais importante?

Coçar com desejos teu ego

Ou que a pequeníssima princesa,

Forjada na gota de orvalho,

Em sono no cerne da flor

Continue a dormir?

Acalma o teu gênio, à direita;

À esquerda, o medo da morte.

É cedo.

Nem pensa em escrever. Abdica.

Desapega desse anseio por palavras,

Um poema é feito de outra coisa.

Coisa, assim, mesmo, vaga,

Pois quem poderia jamais afirmar

O que é,

Se é coisa diferente

Para cada ser?

O motivo do teu poema

É teu e de mais ninguém.

Serve só a ti,

Como, para Kafka, a lei;

Como, para Borges, o Aleph;

Como o nirvana ou o céu, para a fé.

Escrever

Enquanto a folha

Tenta te dizer

O que tu buscas

É o segundo erro e o mais mortal.

Erros são permitidos. Também permitido é morrer.

A única maneira de encontrar o teu motivo,

Uma vez que ele é teu, teu somente,

É seres tu.

Enquanto fores vozes

Desta e de outras gerações,

Nada encontrarás.

Silencia-as todas;

Detrás da pedra solitária,

Signo de teu puro ser,

O menor brotinho nascerá

E te apontará a direção

Do Sol.

Se o vires,

Começa a escrever.

 


Rodolfo Minari é advogado, editor e compositor. Diretor da editora 3 Serpentes e da casa de cultura Massemba. Premiado em dezenas de concursos literários e festivais da canção no Brasil e exterior. É paulista e reside no Acre há 11 anos, onde canta, toca e ensina composição musical popular para adultos e crianças.  Face /minarimusik – insta @3serpentes

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Carlos 16 de janeiro de 2021 em 13:05

    Lição anotada. Vou tentar por em prática por aqui.
    Gostei demais!

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