Subversa

Let it go | David da Motta

 

Eu não consigo acordar tarde, alguma coisa em mim começa a gritar “acorda vagabundo”, e dormir se torna desconfortável. É como se minha cabeça ficasse me humilhando, “não tem vergonha de dormir até tarde? Levanta!”. Mas eu tampouco acordo cedo. Não consigo. Acordo oito horas da manhã. É o meu limite entre o cedo e o tarde.

Eu me levanto, arrumo a minha cama e desço para tomar meu café. Ela grita animada quando me vê toda manhã. “Primeiro vou tomar café, depois brinco com você. Fica com a vovó.” Engulo o café doce demais – minha mãe perde a mão no açúcar – e como um pão duro do dia anterior. Oito e meia eu estou sentado no chão ou andando pelo quintal atrás dela.

Às nove e meia minha mãe nos deixa. “Vovó vai fazer o papá”, e eu fico às voltas com a pequena. Nós brincamos de boneca, de pintar, de princesa, de castelo, de cházinho, comidinha e de bola. Ela atualmente tem gostado de pentear o meu cabelo. Eu me sento no chão e ela puxa meu cabelo com uma escova velha enquanto eu seguro as lágrimas. Hoje ela começou a pintar minhas unhas. Ela só tem três anos, mas me faz de gato e sapato.

Por volta das onze e meia minha mãe nos chama para almoçar. “Vamos papar?” e ela vai para a sua mesinha que fica ao lado da mesa dos adultos. Ela come bem, mas faz manha. Não posso dar a batata ou o aipim frito junto da comida, se não ela come tudo e fica pedindo mais. Então, em determinada altura começamos a barganha. “Quelo mais”, ela choraminga. “Mais duas colheradas cheias de arroz e feijão e eu te dou mais batatinha”. Ela geralmente obedece, mas hoje não foi um dia desses. Reclamou e pediu para que eu desse na boca. Ela comeu tudo, mas eu almocei um prato frio.

Almoçamos até uma hora da tarde. Depois nos sentamos e ela vê um pouco de TV, Show da Luna é o programa favorito dela, tenho alguns episódios gravados, assim ele pode ver quando quer. Depois, por volta de uma e meia, eu levo ela para tomar um banho e dormir. Nem sempre ela está cansada, mas eu preciso desse tempo. Ela toma um banho brincando com os brinquedos de plásticos que ficam no banheiro. Depois se deita na cama da minha mãe e eu leio alguma história. Princesas, rainhas, bruxas… Ela gosta de Frozen. Já tentei contar algumas das minhas histórias, mas não sou muito bom com histórias infantis. Tentei contar o que lembrei de cabeça do Roverandom, o cachorrinho mágico do filho do Tolkien, mas nada compete com a Elsa e Ana. Nem sempre é fácil fazê-la dormir, mas ela acaba caindo no sono e eu posso finalmente ligar o meu computador.

Finalmente me sento para ler, escrever e estudar. O café da tarde eu faço questão de fazer. Até porque, minha mãe costuma dormir na sala essa hora, com a TV ligada em algum programa de fofoca que ela jura não assistir. Então, entre duas e cinco horas da tarde, eu me sento na escrivaninha silenciosa e escrevo ingerindo litros de café amargo. Mas nem sempre o trabalho rende fico atento a qualquer barulho do quarto ao lado. Ela não pode descer as escadas sozinha, é perigoso. Mas a menina é teimosa e minha mãe esquece de botar o tampão que serve de portão para a escada e eu não posso me levantar a cada cinco minutos só para checar. Então, qualquer barulho vindo do outro quarto me deixa tenso. Consequentemente, não me concentro no meu trabalho como gostaria.

Minha mãe acorda primeiro e reclama que eu não lavei a louça. Minha velha não leva meu trabalho muito a sério, mas me apoia. Meu pai deixou uma pensão considerável, então consegui me dedicar exclusivamente ao trabalho intelectual. Não paga muito, mas ela fica orgulhosa quando meu nome sai em algum jornalzinho ou revista. Quis emoldurar uma página de um jornal local para o qual dei uma entrevista uma vez, quando meu único livro foi publicado, mas eu não deixei.

Quando se aproxima das quatro da tarde, eu dou uma pausa e vou comprar pão. Nem sempre tenho fome, mas preciso comprar para tomar café no dia seguinte. Geralmente eu consigo voltar a trabalhar, mas tem dias em que a cabeça simplesmente não quer funcionar. Não tem café que dê jeito. Esse é um problema do trabalho intelectual que não te contam, a tal da estafa mental. Quando a cabeça não quer, ela não funciona e ponto final. Não estou falando de bloqueio criativo ou coisa do tipo, é literalmente um cansaço mental. A ideia você tem, só não consegue dar vida a ela. É frustrante. O corpo cansado consegue seguir lentamente, trabalhar automaticamente. Mas a mente cansada nada produz. Quando isso acontece eu não consigo trabalhar, mas também não consigo relaxar. Aquela vozinha irritante que me tira da cama toda manhã fica no meu ouvido, “Está descansando? Mas você tem trabalho pra fazer, tá vendo filme? Vagabundo!”. Aí não consigo ser produtivo, mas também não consigo relaxar.

Mas, independente do meu dia, por volta das cinco ela acorda. Certos dias, quando a cabeça pega no tranco, minha mãe fica com ela pra eu não perder o fio da meada. Parar um carro em movimento não é muito fácil, é preciso desacelerá-lo. Mas, nos dias em que a cabeça está lenta, ai ela me chama e eu não tenho desculpa.

Ficamos brincando até às sete, quando eu a convenço a ver TV. Oito horas jantamos e o exercício do almoço se repete. Depois brincamos até as nove, quando ela chorosa toma um banho e é deitada para dormir. Mais uma vez as histórias se repetem. Depois que ela finalmente pega no sono, minha mãe e eu nos sentamos para tomar um chá antes de dormir. Tradição que temos desde a minha infância, de tempos antigos e remotos, de tempos em que meu pai não tinha sofrido com câncer e minha irmã viúva não tinha morrido no parto.

Por volta das onze eu volto para o computador e encaro a tela em branco mais uma vez, mas não posso me alongar nas horas, preciso dormir o mais cedo possível. Na manhã seguinte tenho que cuidar da minha sobrinha. Outro dia ela me chamou de pai. Não soube o que fazer. Comecei a cantar Let it Go e ela esqueceu.

 


Davi da Motta | Rio de Janeiro, RJ.

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1 Comentário

  1. Felipe 16 de março de 2021 em 13:38

    caraca q texto maravilhoso

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