Subversa

Jumentos em marcha | Glauber Costa (Ubatã, BA, Brasil)

Ilustração: Helena Barbagelata


Pela ponte, iam os jumentos apertados, aos montes, na confusão da tempestade. Os relâmpagos iluminavam seus couros duros. Suas orelhas estavam em pé. Pelos arrepiados. O escuro, a luz azul, o rompantes, o concreto, o rio em movimento.

As gotas no couro seco faziam a vez do suor vivo. Mas estava um ar frio. Eles sentiam frio. Na grande noite, o vazio. Os homens, talvez, atrás. Diziam alguns. Acreditavam. Homens de laço nas mãos. Mãos persistentes. Verdade ou não, os passos dos bichos eram firmes, sempre para frente. Sem vacilar.

A ponte balançava. E parecia que era sempre a mesma ponte, desde a outra ponta do caminho, de onde vieram, por onde cruzavam.

Seguiam mudos, calados, acompanhados pelos próprios barulhos de suas pisadas secas, de suas patas no chão. Seguiam. E os homens atrás, talvez. A tempestade açoitava o tempo, nos corações animais e alertas, dentro do couro duro-calmo. A natureza. A força. Continuavam.

Seguiam burros. Cegos pelos caminhos. O rumo era a ponte. A mesma ponte de todo o caminho. A ponte em si mesma, balançando pelo vento. O vento no pelo. Eles em cima da ponte, reais. O relincho isolado. A verdade relinchada. Ignorada. A noite está dentro da tempestade. E os jumentos dentro da noite. Mais dentro do que se fosse dentro de uma caixa. Seguiam. Os homens atrás. Sempre.

Outra vez o relincho. A cabeça erguida. Desperta ódio, o descompasso. O cansaço. O destino dos jumentos. O grito de uma ave do céu. O jumento cômico. A ave séria. O jumento doendo feio. E duro e firme. Nem parece. No couro. Olhos firmes. Olhos que não vacilam. Por dentro, chora, o jumento. A tempestade pisca, insistente. A vida árida sem barro. Árida e fria. O jumento treme. E relincha. Treme.

Cruzando a ponte, vão chegar ao outro lado. Precisam. Os homens atrás. Os desejos dos homens e os desejos dos jumentos. Os jumentos marchando. A terra absorvendo, molhada. Os dentes grandes dos animais. Não sabem rosnar. A pedra que cai do céu não precisa ter raiva para o estrago. O predador mata pela nuca, pela fome. Os homens atrás. A ponte tem que acabar, para a terra os enterrar. Jumento só sabe sorrir. Em marcha. Os jumentos não querem parar. Entregues. Mas firmes. Trêmulos. E nem parecem. Trovão. E o medo. Tudo se esconde por dentro. E por fora, não se nota, não se enxerga. Mas chove. A chuva fina. Apesar do couro, a pele do jumento é a sua morte sensível.


GLAUBER COSTA publicou as crônicas “No longe, no dentro” e “Gênese”, ambas pela Coletânea Eldorado, da Celeiro de Escritores. Publicou o conto “Meu velho” na Revista Subversa, texto que faz parte do primeiro volume impresso. Escreve no blog glauber-manuscritos.blogspot.com.br e na Fanpage do Facebook chamada Manuscritos. | GLAUBER.COSTA@HOTMAIL.COM

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2 Comentários

  1. Anônimo 15 de dezembro de 2016 em 23:53

    Muito bom o texto! Esse relinchar sufocado, tentando, entre angústia e mansidão realizar suas funções. Entre os defensores da espécie, está o padre Antônio Vieira. Autor do livro “O jumento, nosso irmão”, lembra que o animal desbravou o Nordeste, ajudou a construir estradas, açudes, ferrovias e transportou Nossa Senhora. O relinchar a cada meia hora faz o sertanejo atribuir outra função ao animal: relógio de pobre, uma das denominações nordestinas catalogadas pelo padre.

  2. Suzana Firmino 30 de maio de 2017 em 23:31

    Muito bom mestre, parabéns!

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