Subversa

Jogo as palavras pela janela para não morrer | Luizza Milczanowski

 

Uma carta, que é um e-mail, me diz no assunto: o suicídio é a única morte não prematura.

Todas as outras mortes são prematuras. Um e-mail que me diz engulo os olhos dela feito os testículos do touro. Os olhos tais como as bolas dos touros. O e-mail me diz mais, me diz que

Vi essa frase em uma exposição do MAM. O suicídio é a única morte não prematura. Não esqueço. Mas não devo dizer. É a última vez que digo. A tela vermelha e branca e vermelha

Vou pintar todos os meus quadros de vermelho. Não quero mais saber dos corpos fugidios, das costelas dançantes, dos pelos pubianos, da mistura entre amarelo, branco, marrom, laranja, vermelho e roxo para pele. Desfaço a linha que separa intestinos e paisagem, fundo a carne nos ramos das flores mortas, no fundo da parede chumbo e do taco de madeira. Agora nosso capacete de astronauta está destruído e somos só matéria flutuante no Universo calado.

O homem corre até o ponto de ônibus, senta-se um pouco torto lombar curvada para ler as notícias na tela do celular. A mulher senta-se um tanto ereta e torce para que outra mulher se sente ao lado. Um homem não, um homem não não não não não não

Para frente para trás, há quinze minutos (ou horas?) o som de Beethoven no ar. Vai e volta, volta e vem, como meus dedos que teclam e meu tronco que pende para frente trás trás e frente e me dizem que preciso comer

Senhora

Senhora

Você ainda não é feita de

Palavras

(revelação)

Meu Deus, é por isso. Exclamo. Por isso, por isso ainda tenho estômago, esôfago e intestinos. Pensei que seria o verbo relutante, as vogais dispersas. Não sabia que me fazia matéria. Eu peso. Eu afundo.

Não repetir o eu. Não é elegante. Não repetir. Não repetir a repetição.

Riscar. Corrigir. O dicionário ao lado para criar sinônimos para todas as angústias que insistem em se cravar nos órgãos.

Um contato, K. Um contato, H. Um segredinho.

Me contem o que salva o conto.

Me interrompam na palavra-papel.

Me deixem falar qualquer bobagem, depois a gente diz ser poesia. Só preciso jogar as conjunções pela janela, uma a uma, para ver se atingem alguém. Jogo mais uma, jogo mais uma.

A rua está vazia. Só nos restaram os adjetivos.

Audaciosa sai voando, triste, sozinho, bonito, querido,

Estapafúrdio faz um barulho agudo quando se espatifa no chão.

Ufa! Estamos livres finalmente para dizer.

Ai ai au

A angústia já foi embora?

Ainda não. Tentei jogá-la, mas ela pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa pesa não passa pelo umbral.

É isso, estamos perdidos.

Escrevo para abandonar qualquer coisa que afaste a melancolia.

Escrevo para me permitir viver só mais um

Dia

Eu juro. É tudo uma pilhagem (deixa eu abrir o dicionário).

 

Pausa.

 

Arrancar. Mais um fio que é veia do braço direito (esse não serve para nada, sou canhota). O escritor não mais escreve numa poça de sangue. Isso é puro lirismo. Os sofrimentos garridos do jovem Iessienin. Essa história está no fim. Procuramos uma felicidade mais branda, uma infelicidade mais cálida. Estamos cansados dos poetas trágicos.

Os poetas não existem

mais

Venham! Corram!

Venham ver! Lançou-se ao léu

Voo plano para o futuro

O poeta com sede de porvir

Venham ver a morte da poesia!

Painossoqueestásnocéu

Vai para o inferno em nome de Jesus, sentencia.

Ufa. Calma, pessoal. Era só um romancista. Um teatrólogo. Está tudo bem.

Esse não diz mais nada.

 

Amém, Jesusmariajosé. Vapt.

Alô. Eu tenho uma reclamação a fazer. Sim, sim, sim. Eu tenho uma reclamação. A vizinha está jogando palavras de baixo calão pela janela! Ela ameaça tacar umas piores agora. Começou bem, abandonando os adjetivos, mas essa não presta. Ela vocifera que vai jogar as letras, rasgadas, que voarão até a estratosfera.

Ora, Dona Carmen, isso é um absurdo. Todo mundo sabe como as letras pesam. Como elas vão direto ao chão. Zuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuup. Quase indolor.

Não, não, eu te juro. Ela ameaçou. Se prendeu em um balão e foi flutuando, flutuando até o espaço.

Tudo ocupa espaço, Dona Carmen, até mesmo a senhora.

Sentiu-se ofendida e desligou. Essa juventude desbocada. Por isso, com leviandade, saem jogando as

P

L                                             A                                                V

R                       A                                                  S                                          A

 

Para não morrer

Para não morrer

Não dessa vez.


Luizza Milczanowski | Rio de Janeiro, Brasil | Autora de O Diálogo (Ed. Penalux),  é graduanda em Direito. Leitora voraz, encontrou na Literatura sua forma de estar e agir no mundo. Escreve poesia e prosa, participando de coletâneas e colaborando com diferentes revistas literárias. | https://luizzamilczanowski.com/

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Felipe 3 de abril de 2021 em 08:31

    Cara, esse texto-poema ficou inacreditável! Mto talento

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367