Subversa

Israel | Herbert do Nascimento

 

Poderia ter sido numa sessão de análise – se eu fosse burguês o suficiente para gastar o dinheiro que não tenho com isso – quando fiz umas ligações malucas na minha cabeça.

Meu cérebro não tem conserto, não adianta chorar e nem espernear, minha vida adulta começou em algum momento entre o dia em que eu bati minha primeira punheta e o dia em que eu troquei sozinho uma resistência de chuveiro pela primeira vez. Minha vida adulta terminou, porém, em algum momento entre o dia em que eu quebrei a porta do meu quarto com um soco e o dia em que eu quebrei minha testa na parede. Que não exista definição para o meu problema, contento-me em reclamar das injustiças na minha vida e das relações de consumo que ditam as regras de interação entre as pessoas na sociedade contemporânea. Não aceito nenhuma das duas. A vida e as relações. As injustiças e as interações. Se pudesse, ficaria comendo miojo de cueca com a cortina fechada o dia inteiro, sabe Deus o porquê. Provavelmente porque quando nasci, um anjo torto, desses que vivem nas sombras, disse: vai, H., vai tomar no meio desse seu cu. Mas divago.

Como em toda boa sessão de terapia (ou assim eu imagino que elas sejam), eu começaria o processo de livre-associação falando da minha infância. Quando eu era garoto… Mas isso numa crônica sobre as pessoas mais singulares da maior metrópole do mundo fica chato para caralho.

O caso é que meu pai tinha um Opala (teve três ao longo da vida) e o que protagoniza a lembrança era branco. Um carro sólido: por fora tinha massa e ferrugem no lugar de lataria; um carro confortável: por dentro tinha molas e queimados de cigarro no lugar de bancos; um carro moderno: tinha um siri dentro de uma bola de vidro no lugar da manopla de câmbio (na verdade essa eu inventei, mas bem que poderia ter). Um Opala branco. Na época em que carro branco em SP era táxi ou ambulância, era o que dava para o meu pai.

Pisa no freio. Solta o freio. Pisa no freio. Solta o freio. Era esse o diálogo entre pai e filho num domingo ou sábado à tarde na garagem de casa. O cheiro de cigarro e o calor dentro do carro me agoniavam. Não tinha escolha. Pisa no freio. Solta o freio. Não, caraio, o freio, moleque! Isso é a embreagem! Meu pai se irritava porque tentava sangrar o burrinho.

Muito do vocabulário que eu ouvia sair da boca do meu velho tinha a ver com o Opala. O burrinho, o alternador, o cabeçote e a junta do cabeçote, a cebolinha, o radiador, o carburador, a embreagem, o trambulador, o homocinético (para nós era uma peça masculina, quem já viu um sabe o porquê), o abafador, o silencioso, o cachimbo, a vela, o chicote, o coxim. Tudo isso quebrou, estava para quebrar, foi consertado ou ficou para consertar.

O Opala (branco) foi sucedido por um Corcel, depois por outro Corcel (branco e dourado, respectivamente), por um Verona (prata), por um Tipo (prata) e por um Classe A (prata). Na última vez que conversei com meu pai, falamos da válvula termostática, da tampa do reservatório e da suspensão (a do lado posterior direito do Classe A está fazendo um barulho que pode significar que esteja seca). Ele pensa em comprar um Peugeot (preto). Prevejo vícios ocultos nessa futura aquisição.

Mas que diabos era sangrar o burrinho? Mais de dez anos depois, descobri que aquela porcaria tinha a ver com freio (por algum motivo, não era tão óbvio quando eu tinha 8 anos) e, portanto, tinha a ver também com a segurança da família e que meu pai, que não era mecânico, dependia do filho mais velho apertar o freio para poder consertar.  Não tinha, como temi na primeira vez que me foi pedida ajuda, absolutamente nada a ver com sacrificar um pequeno animal de carga.

Penso que tal associação não se deva ao fato de eu ter sido sempre maluco, mas, antes, por eu ter sido uma criança religiosa – o que, diga-se, é quase a mesma coisa. Pois é, uma passagem que me fascinava quando menino era a de Abraão, quando Deus ordenou que imolasse Isaque nas montanhas de Moriá (Gênesis 22:2 para referências). Deus, no fim, manda um carneiro – ou bicho que o valha – para que Abraão ofereça em sacrifício e poupe o sangue do próprio filho (spoiler alert?). Não era um burrinho, mas um carneirinho. Ainda assim sangrar o burrinho sempre me lembrava do quase holocausto de Isaque, e, quando conheci o Israel numa travessa da 9 de Julho, a história toda veio na minha cabeça.

Porque Israel foi o nome que Jacó (filho de Isaque – o que ia ser sacrificado, mas não foi) adotou por algum motivo que não me lembro, depois de trocar de lugar com Esaú (o maior burrinho que aparecerá, ainda que brevemente, nesta história) pelo direito à primogenitura.

Eu estava bebendo uma cerveja, minha vira-latas branca, como sempre, amarrada na minha perna pela coleira, em um boteco ali perto da 14 Bis, depois de mais um dia de briga intensa com a minha mulher. Ficava pensando no meu dinheiro, que ainda demoraria mais dois meses para cair depois do último trabalho, e comprava mais um litrão com dinheiro emprestado. E eis que chega o Israel.

Apresentou-se, maltrapilho e sujo, as manzorras nodulosas estendidas numa saudação desajeitada. Pediu não um cigarro ou um gole de cana, mas algo para comer. Pensei na minha carteira, na grana para cair e nas brigas todas e falei, patrão, o senhor me desculpa, mas olha bem para mim e me diz se não tem ninguém melhor pro senhor pedir um lanche. Uma puta de uma resposta escrota, eu sei. Mas como numa sessão de análise – ou num tribunal –, estou aqui para falar a verdade e somente a verdade. Uma moça na mesa ao lado pagou um pastel para Israel e ele começou a puxar papo. Falou do restaurante comunitário que não tinha senhas suficientes para todo mundo. Falou dos documentos que tinham roubado dele. Falou dos serviços que faz e pelos quais não recebe. Ofereceu uns livros que tinha consigo. Enfatizou, entretanto, que não tocássemos nos livros de inglês, já que ele estudava o idioma. Carregava-os numa bolsa velha, dessas que deveriam levar tacos de golfe ou cadáveres, dessas que se usam para carregar roupas para uma viajem longa até o norte.

Conversamos por mais uns minutos, ele me falou dos joelhos que já não eram mais os mesmos e que por isso não conseguia trabalhar, mas que no seu tempo podia descarregar um caminhão de tijolo e até mais do que isso. Disse que agora ele já era. E que tinha que ir.

Agradeceu a mim, que não tinha feito absolutamente nada, numa atuação mais inútil que tentar ajudar meu pai com os freios do carro. A mim, que há três décadas não tenho prestado para nada além de reclamar das injustiças na minha vida e das relações de consumo que ditam as regras de interação entre as pessoas na sociedade contemporânea. E agradeceu também à moça que pagou o pastel (e que, no fim, não pegou nenhum livro dos de Israel, já que o que ela queria de verdade era o de inglês).

Eu disse a ele que por favor ficasse bem, que Deus que lhe abençoe porque tudo vai dar certo para o senhor, viu? Ele meteu a bolsa nas costas e se foi. Eu fiquei e me sentia um lixo. O Israel bíblico dormia com a cabeça sobre uma pedra a caminho de Padã-Arã quando Deus deu a ele uma visão. Nela, o filho de Isaque recebe promessas de bênçãos diversas, a si e à sua descendência. Não precisa ser um gênio para saber que o Israel da Praça 14 Bis vai ter sorte se conseguir uma pedra sobre a qual repousar a cabeça. Ele não terá a visão de uma escadaria que se estende aos céus e pela qual sobem e descem anjos e, certamente, não terá bênçãos diversas como as que foram prometidas ao seu homônimo bíblico. Ele não vai ficar bem. Eu sei disso. Ele sabe disso. Você, agora, também sabe.

Fiquei no bar mais um pouco, terminei a cerveja já quente e voltei para casa com a cachorra. Tinha um gosto amargo na boca. Pensava ainda nas contas, nas brigas e agora também em Israel. Às vezes me pego pensando em como não sou capaz de processar essas coisas como deveria, como tenho uma visão adolescente (romântica, autodestrutiva e reclamona) desses eventos, grandes e pequenos, que acontecem comigo ou passam pela minha vida mais ou menos rápido.

Porque minha vida adulta começou em algum momento entre a morte do meu primeiro cachorro no interior de SP e quando adotei a atual cadela com a minha mulher na Zona Leste paulistana. Porque minha vida adulta acabou em algum momento entre eu ter largado meu emprego para viajar e ter voltado da viagem. E porque, sobretudo, a jornada da Terra Prometida até o bar sob o viaduto da 14 Bis é apenas um passo para quem não tem a mente amarrada à perna pela coleira e nem dinheiro para uma sessão de terapia.

 


Herbert do Nascimento | Belo Horizonte, Brasil | “Ex-operário. Às quartas, escrevo.” |herbert_hn@hotmail.com

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367