Subversa

Irredimíveis eternidades | Raphaela Viana


para Sillas Coelho

 

Há quem diga ser impossível saber o momento exato do descarrilamento dos trens por trás dos olhos, o momento que devora os dentes e bombardeia cidades inteiras. O que dizem é que, invariavelmente, só nos damos conta quando a lama nos roça o queixo.  O fato é que, naquela época, ele namorava Pietro, que entendia o xadrez de suas camisas como um estado de prontidão para os piqueniques, errava a idade de sua mãe de propósito e dizia amar o gosto de fita – de – máquina – de escrever de seus beijos. Nossas idades somadas não davam meio século e nossa fome nos deixou ali, numa mesinha encardida. Eu queria só um milkshake e ele uma dessas coisas que não se vive para ver o resultado. Foi quando, debaixo daquele paletó, que certamente já vira dias melhores, vi seu pijama, o que inaugurou em meu peito um jóquei, onde apenas um cavalo seguiu desembestado após o disparo. Foi quase como olhar para uma lâmpada e piscar. A diferença é que uma hora a lâmpada some, mas seu rosto permanece em minhas pálpebras, não importa o quanto eu pisque.

Era, muito provavelmente, a criatura mais descabelada da face da terra. Achava que se o vento tinha mais tempo e disposição para lidar com seu cabelo, era melhor não interferir. Sua involuntária coleção de pelos de cobertores alheios, abrigados ali, foi o que, por algum tempo, me ajudou a saber por onde ele andava. Estava disposto a amá-lo em silêncio, ainda que um silêncio povoado por alvoroços.  A ser mesmo o conhecido de quem ele ocasionalmente tomava emprestado o black and decker para passar camisas com o intuito de causar boa impressão nas entrevistas de emprego. A desordem de seu cabelo só não era maior que a do meu coração quando ele estava por perto.  Atrapalhava-me tanto, parvo, gago e desastrado, que ficou obvio meu afeto.

Aconteceu que, dentre todos de quem roubara o inquilino da caixa torácica num simples gesto de sorrir, escolhera a mim, que até então duvidava que a felicidade pudesse assumir tamanhas proporções.

No começo fizemos todas aquelas coisas, burlamos estudos e empregos para visitar xamãs em tribos, concordamos serem desnecessários os livros de filosofia ante os discos de jazz, imitamos Johnny & June em karaoquês, amaciamos carpetes dançando Slim Gaillard, engambelamos guardas de trânsito –   que nunca entenderam nossa pressa. Nos sentíamos domadores do tempo desbravadores do mundo, transformado em palco para nossa história.

Sabíamos, com assustadora exatidão, as origens de nossas cicatrizes, a quantidade de açúcar que preferíamos no chá, as lembranças que evitávamos, como nos ferir, como nos tocar, o que havia por trás de uma mão no queixo ou de uma testa, que se franzia por um elenco de motivos conhecidos.  Mapeamos nossos corpos e sinais, nos conhecíamos pelo avesso, o que por vezes era bastante incomodo.

A inspiração era tamanha que as galerias abriram as portas para minhas telas, seus filmes foram premiados em festivais semidesconhecidos, em diversas localidades do mundo, e no tempo, que quase não sobrava, passamos a dividir um teto.

Quando o mundo o aborrecia – e era ainda capaz de fazê-lo mais do que eu próprio – era em mim que se refugiava, a maciez de seu peito contrastava com a aspereza de sua barba, sempre por fazer. Nas poucas vezes em que dividimos um sono tranquilo, ao apalpar minhas costelas, a seguinte constatação se repetiu: estás sumindo. E, de fato, estava, mas, na época, achava que o tempo não podia ser desperdiçado com preocupações tolas, tais como comida, algo que deixaria meu corpo de maneira nem um pouco nobre.

Meu sono, grande parte das vezes, era interrompido pelo tilintar das moedas que ele contava para o primeiro cigarro do dia, outras vezes chegava tropeçando nos próprios pés, após uma noitada. Eu fingia dormir quando ele abria a porta, ele então a fechava com delicadeza e ia dormir no sofá onde, por vezes, desejei que ele encontrasse meu paletó esvaziado de mim, dando por concretizada sua profecia, meu sumiço.

Ante a impossibilidade de quebrar o que sentíamos, o que estupidamente insistia em nos manter juntos, quebrávamos pratos, ateávamos fogo as cortinas. Era comum que, mesmo nas tréguas, cacos de vidro, esquecidos pelos tapetes, nos furassem os pés. Eu quebrava suas câmeras e prêmios, ele arranhava meus discos, os arremessava pela janela como se fossem frisbees, chutava meus cavaletes, esvaziava minhas tintas na privada. Depois misturávamos e bebíamos nossas lágrimas e sangue, quando havia.  Nos amávamos com brutalidade e em seguida fugíamos assustados. Nos internávamos, tentávamos convencer os médicos de nossa suposta loucura incurável, mas eles só faziam atestar nossa sanidade e constatar que já havíamos ultrapassado a faixa etária em que se pode ignorar o sono, viver de sanduíches e pouquíssimos banhos.

Decidimos abrir mão do papel de pedra no caminho que, na época, concordamos desempenhar com desenvoltura um para o outro. Esvaziamos a casa, reparamos minimamente os danos e demos uma festa na qual, coincidentemente, calhamos de nos refugiar no banheiro. Sentados na banheira, enquanto Sinatra cantava they can’t take that away from me, só conseguíamos gargalhar enquanto lágrimas nos enchiam os olhos e escorriam por nossos rostos. Antes de se levantar, ele segurou minha nuca e disse o que ainda hoje reverbera em meus tímpanos: “não digo que você é o amor da minha vida porque esse sempre foi a incoerência.” Fiquei ali por mais algum tempo, observando o vazio que ele deixara e pensando que desgraçado.

Os anos, indiferentes, passaram. Na maioria deles, estive em companhias agradáveis, que deixariam marcas irreversíveis em muitos corações, mas o meu atravessou o tempo solitário com sua única rachadura de estimação. Contrária sua presença, sua ausência era dócil, de nada reclamava e a todos os lugares me acompanhava. Tentei afoga-la no mar, dissolvê-la na chuva, intoxica-la em porres, abandoná-la em jaulas de animais sanguinários no zoológico, mas nada disso funcionou.  A impossibilidade de reproduzir através das tintas o movimento de seu riso, que nascia no canto direito de sua boca e às vezes tomava todo seu rosto, outras não, fez com que eu perdesse por elas todo o interesse.

O mundo era muito quieto sem ele por perto, sem suas lentes, tripés improvisados, roteiros em guardanapos e aquela ânsia de capturar sequências memoráveis. Por vezes eu acordava pensando estar livre, contente, dava por finito esse amor, que me dardeja o peito nas horas mais banais do dia.

Lembrar sua inabilidade em encontrar meias pares, a curvatura de suas omoplatas, seu rosto iluminado pela primeira luz do dia ou a forma como fazia guitarras e microfones das vassouras, me promovia a plateia e, desafinadamente, entoava um repertório de estação-de-rádio-de-motel, muitas vezes estampou em meu rosto sorrisos pouco ou nada condizentes com as circunstâncias em que me encontrava, como as filas de banco, o trânsito de seis da tarde e as conversas de elevador.

Enquanto tomava o desjejum, no aeroporto Antônio Carlos Jobim, pensava nos atores desmemoriados com os quais estaria lidando, nos pratos exóticos, oferecidos em cardápios intraduzíveis em inimagináveis lugares do globo, que estaria comendo, quando nos reencontramos. Seus cabelos já não eram uma aureola playground de ventos. Nos olhávamos enquanto nossas bocas expulsavam frases, que falhavam ao tentar fazer sentido. Por fim, nos calamos. Deixamos que, num abraço, nossos corações batessem em descompasso, como dois boxeadores, como há muito haviam feito. Um beijo nos esgotou o fôlego, que reservei como um mergulhador para aquele momento, que já desacreditara que aconteceria. Nos interrompíamos, nos afastávamos para assegurar aos olhos a realidade de nossas presenças.

Já é quase hora do almoço, começo a pensar que hoje ele talvez não venha. Lastimo não ter lhe dito que, para mim, sua beleza independe de ângulos, que, apesar de minha eloquência raramente ter coincidido com seus inquéritos, as malas para New Orleans nunca foram desfeitas, que entendo pouco de etimologia, mas suspeito que o adjetivo fantástico originou-se de seu traseiro.

Ele traz em suas roupas gotículas da primeira chuva de Setembro, resmunga algo sobre o preço dos selos, seu pedido chega sem precisar ser feito: pingado com pouco leite. Não disfarço minha irritação, ele hesita antes de iniciar um monólogo, que não dura, beberica seu pingado e me olha apreensivo. Sustento o olhar até que ele começa a fazer caretas, se põe vesgo, me mostra a língua…Desvio os olhos, ele acende um cigarro, furto uma olhadela de seu rosto, próximo ao fogo, quase um Prometeu. Estou certo de que o café não é responsável pelo aceleramento em minha corrente sanguínea. Ele diz meu nome, mas não atendo.

Ele me abraça. É alivio, o que sinto. Amanhã chego na hora. Deixemos de coisa, sim? Diz ele, antes de encostar seus lábios nos meus. Esses encontros antes dos dias me permitem sobreviver aos mesmos.


Raphaela Viana | Ouro Preto, MG | raphaelavianagomes@gmail.com

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