Subversa

Inventário de mentiras sobre a mamãe | Laura Elizia Haubert


Mamãe gostava de mentir e passar batom vermelho que deixavam seus lábios parecendo o diabo. Depois ela arrumava o cabelo, e muitas vezes, demorava-se tanto no banho que quando saia seu corpo estava também vermelho como se ela tivesse se entregado para algo. Mamãe era uma senhora com muitos segredos. Ela também colecionava desgostos, especialmente os relacionados a papai.

Ela saia de casa logo cedo, voltava à noite. Às vezes, não voltava. Nestas noites papai bebia mais cervejas do que o comum, escorado na porta, sem camisa, com uma bermuda amarrada com um cinto de couro velho cujos buracos quase estavam arrebentando. As noites eram quentes e abafadas. Ele cozinhava e depois jantávamos ouvindo a televisão, suas tantas vozes estranham preenchiam o espaço da sala pequena, por vezes papai gritava e batia a mão contra a mesa, depois me olhava e eu só sabia concordar, embora em verdade quisesse lhe dizer que ele me assustava.

Seus olhos eram verdes como a morte num dia de primavera. Quando cansava, o que não demorava muito, porque papai já trabalhara o dia todo sob o sol, ele se sentava no banco da frente, ou no batente da porta e ficava lá olhando pro nada. Olhando para toda aquela ausência, que eu bem sabia não era só de mamãe. Acho que papai olhava para o tempo e para as memórias que ficaram pelo caminho. Para as que não tiveram caminho.

Eu tirava a mesa, lavava a louça e depois ia me deitar na sala, enquanto assistia a novela, depois ao jornal, até ficar tão tarde que ele começasse a gritar comigo. “Por que você não pode me obedecer? Já para a cama!” Eu ia para a cama em silêncio, desgostosa, esperando o momento que ele fosse dormir, que não iria demorar, só pra voltar para sala e cuspir na porta de seu quarto.

Algumas vezes quando mamãe voltava de madrugada ela me acordava e me conduzia até a cama, recebia um beijo e séries de carinho, de seus lábios de diabo nunca ouvi coisas desagradáveis. E se as ouvi, já não me lembro. Mamãe parecia exausta, vinha engordando. Depois do quarto, ouvia a porta do banheiro se fechar. Por baixo da fresta notava quanto tempo ela passava no banheiro, era longo, tão comprido quanto pernas de atletas olímpicos. Boa parte das ocasiões ela me vencia, caia no sono sem graça antes de vê-la ir dormir.

Pensando bem, já não tenho certeza de onde mamãe dormia. Quando ela ia para o quarto eu podia ouvir os gritos abafados, o choro e algumas vezes a porta se abrindo de novo. O curioso é que não era mamãe que chorava, as lágrimas salgadas e agudíssimas vinham de papai. Numa destas noites eu estava pegando água quando ele saiu do quarto aos prantos, de cueca, magro e mirrado, uma criatura de dar pena, gritou uma indelicadeza sobre a vida sexual da qual eu não sabia nada, mas tive ouvidos e então ouvi. Envergonhado catou a roupa no varal, abriu a porta sem deixar bater e saiu com o carro.

Mamãe veio atrás de mim, sorriu, perguntou se eu queria sorvete. Claro. Recordo de ter dito. Então fomos à cozinha, ela preparou uma taça com cobertura com direito a cerejas, depois me entregou e sentou do lado fazendo carinhos em meus cabelos. Comi rápida porque estava em pânico, e porque era sorvete. “Agora vá se deitar, sim?!” Ela disse. Eu fui. Deitei e não lembro de pensar na tristeza que era a criatura chamada papai.

Pela manhã ele estava fazendo o café, já de roupas, e com metade da dignidade restante. Nos entreolhamos envergonhados. Ele serviu meu café, enquanto mamãe se arrumava para ir ao trabalho. Seu cabelo cheirava a baunilha e morango e sua pele era tão lisa devido ao pó imperceptível que quando pensava em bonecas, eu pensava em mamãe.

Mamãe saiu para o trabalho, papai também, fui para a escola a pé. Na escola, a professora usava roupas surradas e tinha o mesmo olhar morto que papai. Ela não tinha pele brilhante, e seus cabelos se recobriam constantemente com pó de giz. Com os dedos aconteciam o mesmo. Ela passava metade da manhã gritando por atenção e a outra metade contra desrespeitos. Durante o intervalo a observava arrastar os pés em direção a sala dos professores, enquanto me perguntava se ela também tinha uma bermuda e uma porta para o vazio.

Meus colegas corriam, enquanto ficava sentada nas escadas lendo o livro que mamãe tinha me dado. Era sobre uma espiã, uma mulher com armas e inteligência, ela parecia sempre forte e mesmo quando apanhava, conseguia se levantar e superar. Queria ser como ela, queria ser forte, queria desesperadamente ser tão plena e cheia de mim mesma, porém, no minuto que o sinal tocava nos mandando de volta a sala e eu me deparava com a professora, ou na hora da saída com papai, enchia-me de temor. Talvez, fosse como eles, triste.

Mamãe estava em casa me esperando, ela tinha conseguido uma folga. Papai pegou suas coisas e foi pescar. Ficamos sozinhas. Ficamos em paz. Ela cozinhou macarrão com salsicha e encomendou brigadeiros, porque os seus sempre queimavam. Depois vimos filmes, e eu a observava com o canto do olho. Ela era abatida e cansada, mas sua pele tinha tanta vida, que seus olhos brilhavam e sua tristeza era quente como o verão.

Queria ser como mamãe. Ela era uma senhora respeitável, podia imaginá-la muito bem pegando as armas e batendo em inimigos, podia imaginá-la como policial ou advogada, contudo ela era secretária. De modo que tive de me contentar com suas formulações inteligentes destinadas a folhas de papel. Mamãe deve ter segredos lá fora, depois da porta, em direção ao mundo.

Papai quando ficava muito ressentindo, o que acontecia com frequência, bebia de novo e chamava-a de nomes que não gosto. Uma vez nos trancamos no quarto enquanto ele fora de si lançava coisas a porta. Quando penso em papai, penso em alguém perdido. Papai não sabia de si, talvez, fosse justamente este o problema. Mamãe ficou irritada e lhe disse poucas e boas, ele logo começou a chorar e saiu. Fui dormir pouco depois, as cenas aconteciam sempre pela noite, de modo que me apressava a deitar, porque quando acordasse o café estaria normal na mesa, o pão torrado e também meu uniforme. Aos sábados, ia com mamãe para o escritório e depois passeávamos. Aos domingos, ficava na casa da vizinha, enquanto meu pai ia sair com os amigos e mamãe limpava a casa, cuidava do gato e depois adiantava serviço.

Ela também dava aulas particulares para os filhos dos patrões que lhe pagassem bem. Ela sabia história e português, no entanto, carecia de conhecimentos geográficos e confundia com facilidade as capitais, os rios e os montes… Bem, mamãe não sabia nada sobre os montes. Isto não incomodava os senhores que lhe pagavam, nem os seus filhos, que apareciam nas tardes de domingo, usando boas roupas, limpíssimos, com cadernos e apetrechos. Também havia tristeza neles, mas era um tipo tão diferente que eu só conseguia farejar com dificuldade.

Quando eles iam embora a casa cheirava a perfume de criança, e eu espirrava sem parar, tendo que ficar no banco de fora até que o odor fosse embora. Para ajudar, mamãe circulava com um ventilador espantando o cheiro, depois cozinhava o jantar e ríamos alto sozinhas. Papai não gostava que eu risse alto. Papai não gostava que eu risse. Ele dizia que era coisa de gente indecente, que mulher direita não ria. Queria lhe dizer que eu não era mulher, que eu era eu mesma, e queria rir até morrer se possível. Mas isto o deixaria triste, ele iria me olhar como olhava para mamãe, e isto seria pior que qualquer castigo.

Mamãe era uma mentirosa. Mamãe não tinha um pingo de coragem nas veias, o que ela tinha eram impulsos que a faziam continuar sobrevivendo e só. Acho que por isso, mesmo com sangue por todo o corpo e principalmente nos lábios acompanhados de uma armaria de palavras, ela nunca disse as necessárias para fazê-lo partir. Mamãe era viciada na tristeza alheia, como uma criatura das sombras que suga a infelicidade dos outros, mamãe queria ser boa, mas ela só podia ser ela mesma.

Ainda assim, mesmo hoje, quando penso em mamãe, ainda penso na agente poderosa, na mulher que preencheu minha imaginação e não meu estômago, e de cujas entranhas não recordo nada. Devia ser aconchegante, porque nasci com semanas de atraso, porém, é possível, que já nesta época estivesse fugindo de olhos vazios. Como os de papai. Como os meus.


LAURA ELIZIA HAUBERT | São Paulo, Brasil

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5 Comentários

  1. Lázara Kelly 16 de setembro de 2019 em 20:14

    Parabéns, Laura! Estou emocionada… Muito lindo!

  2. Neusa Haubert 16 de setembro de 2019 em 21:22

    Parabéns Laura Elizia, encantador, lindo e emocionante.

  3. Eduardo Klein 16 de setembro de 2019 em 22:20

    Parabéns Laura, excelente e profundo! E parabéns pela sua voz!

  4. Eduardo Klein 17 de setembro de 2019 em 10:34

    Parabéns Laura, profundo e emocionante. Parabéns pela forma maravilhosa que você escreve.

  5. Fabio Poquiviqui 21 de outubro de 2019 em 17:39

    Parabéns, Laura. Tem uma crueza e uma delicadeza misturadas, bem emocionante 🙂

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