Subversa

Intervalos | Lara Nogueira (Brasília, DF, Brasil)

Ilustração: A. Mimura


em dias em rostos cinzelados
em madeira, espero
sem sentir o vento que risca meu rosto

um dia, querendo morrer, espero chorar
sem sentir o vento que risca meu rosto
um momento que me fez não ser quando
nos juntamos para não existir
já não me lembro e não há, há, documentos
que provem, tudo se deteriora, tudo?

eu, às loucas, espero que sim

e que sobre apenas ruínas e nossos pedaços voando por todos os lados
podendo dizer, digo, e me nego depois
que a mesma voz, o significado
direcionado a mim
nos juntamos para não existir
não me lembro mais que posso morrer
para não acordá-lo em desespero
não dizer não percebe que morro
não percebe que o filme será tido em meio?
a celulose queima em círculos e aguardo fechar-me os olhos
não conte a meus pais, não conte,
quando tiver morrido, que eu o amava
qual lágrima desceria o rosto dos que soubessem
que não sinto nada
minha primeira lágrima ainda espera o retorno
e ouço a voz que imita a minha, que imito,

sólida,

sólida, a ária preenche os espaços vazios dentro de mim,
entre ossos, o espaço que hesita o encontro,
afundo pedra maciça, e em meio aos ossos de dEUs
dormirei
talvez um dia
eu mãos dadas e ele no inferno

 

espero o testemunho que me afirme a dança de corpos a sós

 

II.

lobos carregam meus ossos a ele e os alinham no chão a sua frente

uivos me dizem a dor que não sinto, não sei,

lobos me levam a lugares, antes, onde ele não está

mas sei onde está,

sei todos os espaços, quase todos, os espaços, que ocupa

espero os lobos me levarem a ele

 

III.

nenhuma marca por entre pele, entre peles
espaços que se preenchem de dEUs
e dEUs não existe há um tempo enquanto não o vejo
não à transgressão da respiração que chega ao meu rosto
arranque cada um dos dedos, um por mim, minha mão direita
anéis dedos sem fim , sem bordas, sombras constituídas
de uma mesma escuridão, sombra
me alimento de um dia e não me ouço
você tem flor de maio em casa?
eu sinto seu receio em mim, dentro de mim corre a dúvida
e me consome

 

IV.

nossos ossos todos no escuro

respiramos apenas no escuro

eu você e o espaço entre nós

 

V.

ópera só interlúdio

VI.

sou todos os peixes
e antes os que se asfixiam na margem
margem seca que não toca a água
sou antes eles
observando meu último cenário
num último fôlego
metade terra, metade o céu e está tudo muito escuro
está tudo muito escuro enquanto sinto um último toque
ou primeiro toque,
uma experiência, sempre a primeira e a final
não há nada além do toque
não há nada além de um pensamento em comum
as nuvens de fumaça começaram sem uma
noite de incêndio

 


LARA NOGUEIRA é poeta, pintora e fotógrafa brasileira. Publica seus poemas no blog Arestas de Nenhum Polígono, e suas pinturas e fotografias em seu portfólio online www.laranogueira.com | LARANOGUEIRA02@GMAIL.COM

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367