Subversa

Início e Repetição | Carlos Frazão


Encostados ao fim. Uma sombra entra pela janela – como se fosse o ar que o pulmão respira. O verde mais distante deixa os olhos no silêncio mais cúmplice. E mais, a noite que volta até ao fim. Nunca perder o rumor dos lábios, a casa por onde se ouvem pássaros perdidos acima da luz. Esta solidão no arrasto das horas brilhantes. São os dias de um silêncio cúmplice, inscrevo agora na margem. Nunca perder o rumo das viagens. A cidade é um fundo na atmosfera, registo-a enquanto se prolonga a voz, uma palavra escrita regista os passos em volta. E todos os dias em direcção à soma dos dias, ao espaço de outra voz pela alba do quotidiano. Mas o essencial, se o essencial fosse descrever com exactidão a vida, era ficar no terraço desenhando com os teus dedos o mar. Uma impressão nas paredes da casa.

As palavras repetidas em frases repetidas.

Isso é o fim, este lugar irrepetível no areal dos olhos factuais – abro de novo a janela aberta à ontologia do vento e entendo o que na memória fica do lume breve do real. Um corredor de lâmpadas nas estradas do crepúsculo e ninguém tão próximo como as árvores. O lado factual do teu ombro decaído num anel luminoso. Pelo dealbar da tarde, o regresso ao Verão longínquo que vinha da infância, ou o latido dos cães invisíveis em prados outonais. Ficávamos sentados em silêncio e todas as palavras eram errantes e talvez mais perfeitas do que vamos julgando que seja o mundo. Tão vastas como o mundo. Eu gostava das tílias, dos muros, os vidros azulados das janelas, aquela hora já breve da penumbra, da impaciência.

Entram as imagens pelos vidros de qualquer lugar. O sul da Irlanda, quando a noite era um aceno e Yeats falava dos pássaros brancos e dos cisnes que cantam em voo. E eu vejo as hélices no céu do mar arrastando o vento numa sombra móvel. Podia não falar da Irlanda, havia outros vales, a morte de Poe em Baltimore, a certeza do azul mediterrâneo de Alexandria, cenário das folhas soltas de Cavafy. À imaginação vêm as palavras explorar as sensações do corpo aberto na memória. O sul é esta página por onde se desce ao longo de um espelho, a interrogação à janela de um quarto quando o poente ou as palavras ou o silêncio, as cortinas abertas, os terraços na noite e a felicidade, os insectos, os cães, os dias, cidades invisíveis, o grito, a solidão das avenidas, jardins de domingo – quando?


Carlos Frazão | Porto, Portugal

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