Subversa

Impressões | David Barreto Coutinho


Encarava no espelho sua imagem cansada. É certo que aqueles olhos baixos há muito lhe pertenciam, estava acostumado àqueles contornos profundos e as marcas de olheiras que traziam ares de vaga sabedoria aos seus olhares distantes. Suspirou e tossiu antes de dar uma golada no copo d’água que deixara previamente sobre o criado mudo para atendê-lo nessas ocasiões. Gostava de se levantar um pouco entre uma passagem e outra da música, mas naquele momento, próximo ao fim dos seus esforços mais incontidos, da fadiga e membros doloridos por tocar horas a fio, via-se frente a sua Ilíada. Pegou novamente o violino, posicionou o queixo sobre o instrumento e tomou uma postura tão ereta que não fazia jus a todo peso que sentia nos ombros nem aos espasmos nas costas. Ajustou as cravelhas de afinação, muito vagarosamente, dedilhando devagar as cordas com os dedos de uma mão, apertando e afrouxando com a outra. Mantinha a respiração ampla e espaçada, como se não quisesse fugir um semitom sequer das notas que desejava encontrar. Investiu tanto ali que não queria soltar o violino para dar forma agora ao arco, com quatro quartos de tamanho e finalizado com cerdas da crina de um cavalo. Por um momento pensara que tipo de cavalo seria, talvez um reprodutor garanhão, ou um vencedor de corridas, ou ainda cavalo nenhum, apenas artifício sintético, o que era mais provável, resolveu. Folheou a partitura e encontrou, escrito à mão com penugem e tinta, centralizado e dominando o topo do papel vinha o título que procurava Sinfonia número 1 em C menor, op. 68. Ao lado esquerdo, mais embaixo, o instrumento e sua posição na ópera, Violino I, na mesma linha do lado oposto o autor Johannes Brahms, fixou os olhos e começou a tocar.

No canto do cômodo o vulto alto da morte permanecia em pé, assistindo a mais imperiosa demonstração de habilidade. Havia traços característicos de si mesma naquele homem, que estava entre o velho e muito velho, das quais ela mesma se reconhecia, por exemplo, seus dedos longos e ossudos, ela não precisava olhar sua mão e nem a dele para saber, conhecia tanto a si mesma como a qualquer um, tinha certeza, as mãos do outro eram como as suas próprias. Identificava também o olho fundo, que no caso dela eram vazados na órbita, quem sabe se olhando bem, podiam ser vistas distantes labaredas cor púrpura no fundo infinito daquela negritude. O que tinha de maior diferença em relação ao homem era o tamanho, ele era quase que miúdo, comprido pelo tempo de sua idade, enquanto ela, pela mesma razão, parecia cada vez mais alta e esbelta. Sem querermos ser desonestos, a morte também não tinha aquela habilidade musical do velho, apenas sabia muito. Estava atenta as primeiras notas, que ele tocou tão solene e dramático que ela sempre se esquecia do quanto já ouvira aquela mesma peça tocada por ele antes. Não se sentava, pois não se cansava, tinha inclusive vontade de tocar o homem e retirar dele toda fadiga, entrando ao mesmo tempo em conflito, pois a beleza do que ele conseguia tirar no instrumento provinha quase exclusivamente do seu cansaço. Todo espetáculo de sons ela assistia eufórica, embora mantivesse sua imagem sempre impassível, onde seu gesto mais incontido era um breve aplauso silencioso, quando com o esplendor de um gênio que termina sua grande obra, o músico tocava com correção as modulações repentinas da violenta-romântica composição de Johannes Brahms. O discurso harmônico do artista vinha intacto. A certa altura, ela sempre percebia, ele não tocava mais na partitura, tinha todas as notas fluindo direto do seu íntimo para os dedos. Engolia a seco aquela orquestração brilhante, executada por uma hora no tempo dos homens e apenas um piscar de olhos no seu. Repetidamente a ceifeira ali voltava, observava o velho e seu hábito de tocar de frente para o espelho, algo que ela julgava ingenuamente doce, pois sabia que ele mal reparava que os seus próprios olhos fechavam ainda antes de romper o prelúdio. Todas as noites ela vinha, nunca o levava. Todas as noites ela vinha, nunca o tocava. Lamentava-se por não ter controle sobre a vida, pois assim poderia dar mais tempo ao homem para que ele concluísse sua particular aventura, sublinhada de ponta a ponta com perfeição, capaz de arrebatar ela própria a um nível em que nunca antes estivera logo ela, a morte, transeunte dos mundos e dos tempos, sentiu-se apequenada por um mortal fraco e velho, cuja respiração efervescia junto aos crescentes da sinfonia e cujo coração altivou, por ser ele e não outro a tocar a última nota.


David Barreto Coutinho | Rio de Janeiro, Brasil | barretocoutinho2@gmail.com

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