Subversa

II. | Laura Chaloub


(esse é um texto de despedida, ainda que não se pareça muito)

a vida às vezes é engraçada.

há alguns anos minha tia me deu um lenço vermelho que carreguei comigo em todas as minhas viagens. em todas elas, o lenço me aqueceu, embelezou minhas fotos, me serviu de travesseiro, de cobertor, protegeu meu corpo de olhares violentos. sem dúvidas ele foi uma das peças mais preciosas que eu sempre carreguei comigo, e talvez a minha preferida.

há sete meses viajando, passando por sete diferentes países, estive com meu lenço vermelho comigo quase que todos os dias (salvo os dias tristes que eu precisava lavá-lo). nesses tempos de correria e movimento, nunca perdi nada, a não ser por um prendedor de cabelo, que confesso que inclusive demorei a perceber.

há exatos dezessete dias um estranho fenômeno me tomou conta, e eu quase perdi o tal lenço diversas vezes. de repente, se tornou corriqueiro que o lenço escorregasse dos meus ombros sem que eu percebesse, ou ficasse nas cadeiras dos restaurantes, nos quartos de hotel.

eu sei que parece que estou me despedindo de um lenço vermelho (que foi presente da minha tia, vindo de viagem da turquia). e que eu também de alguma forma prometi que isso tudo teria alguma graça.

a única foto que eu tenho sua é usando meu lenço vermelho, no último dia em que estivemos juntos. e te vendo daquela forma, sabendo que talvez fosse a última vez que eu fosse te ver, eu senti vontade de te dar o lenço vermelho. o lenço que sempre significou tanto pra mim, que viajou o mundo comigo, que sempre me foi tão útil. dentro de mim, meu coração queria que você o tivesse, enquanto meu apego me dizia que te perder já era difícil o suficiente.

acho que você sabe onde eu quero chegar, né?
no dia que eu recebi na minha caixa de e-mail seu texto de despedida, eu perdi meu lenço vermelho. não sei dizer onde, nem como. procurei em todos os restaurantes que estive durante meu tempo em rishikesh, perguntei às pessoas que estiveram comigo.

eu sei que nessa altura não é bem engraçado ter perdido você e ele, mas é engraçado que vocês tenham ido no mesmo dia, como de fato deveria ser. é esquisito, não é? como a vida se ajusta da forma como tem que ser.

 

você já reparou que a gente se conheceu quando você me disse que estava indo embora, e a gente se despediu se cumprimentando? acho que a beleza de tudo está no pouco sentido que tudo na verdade tem.

em uma das minhas músicas preferidas, seu guru canta que sua religião é viver e morrer sem arrependimentos. e esse tem sido um bom mantra que vim repetindo inconscientemente nos últimos meses.

o mundo segue tremendamente esquisito.

a vida nunca foi tão bonita.

e eu sou muito grata a você.

muito grata por tudo que você me ofereceu, por tudo que você me ajudou a entender, por tudo que você me fez sentir. eu sou grata pelo seu sorriso na minha lembrança, pela sua voz cantando uma música boba, pela sua risada de criança, pela sua doçura, pela sua loucura.

por você ter me deixado. por você ter me feito chorar.

e ainda que eu sofra, ainda que eu não concorde, ainda que eu ache injusto, ainda que eu sinta falta de ouvir sua voz.

o mundo nunca foi tão bonito.

a vida segue tremendamente esquisita.

e eu não me arrependo de você.

pode parecer meio tarde demais, mas passei as últimas horas lendo sobre quem foi milarepa. talvez tenha sido meu último esforço em estar perto de você.

de alguma forma, parece certo que eu me conecte com todas as suas partes antes de enfim dizer adeus. talvez por isso pareça tão difícil terminar esse texto.

porque eu tenho vontade de falar sobre a sua genialidade. sobre como é te ver tocando violão ou como é que você faz quando está nervoso. como você não tem vergonha de ser você na rua, mas teve vergonha de se mostrar para mim. eu tenho vontade de falar sobre a luz que você carrega no peito, sobre como você é uma pessoa especial.

existe sorte?

milarepa, eu sei que você não se arrepende, você não já não pensa demais nisso. eu sei que você está inteiro. e ainda que você talvez sinta falta uma vez ou outra, eu sei que você nunca esteve tão livre.

o nuno ramos escreveu no seu livro ó que todas as coisas estão sujeitas ao fenômeno de despertar para nós.

milarepa, será possível despertar para si mesmo?

eu espero que você de alguma forma encontre meu lenço vermelho. e leve contigo. porque foi uma honra te ver de perto, te ouvir cantar, tentar entender seu jeito de ver o mundo, brincar de deus, transformar tudo a sua volta. a verdade é que foi um privilégio te amar.

eu sei que a gente viveu algo completamente inexplicável do início ao fim. a cartomante disse que era pra ser. e eu nunca vou me esquecer como eu me apaixonei por você olhando nos seus olhos, sem falar muito, sem ouvir muito. também não vou esquecer que, naquela última noite em que estivemos juntos, eu vi a luz do banheiro refletida nos seus olhos e de alguma forma eu me dei conta de que aquele brilho era eu.

a gente é só uma luz refletida, milarepa.

e não tem nada de errado nisso.

desculpa não ser capaz de satisfazer sua fantasia de casar e ter seis filhos.

eu não sei se sou capaz de ter seis filhos, de qualquer forma.

desculpa se a gente passou mais tempo longe do que perto.

eu tenho essa estranha carência que não sabe ficar muito perto.

desculpa todo o medo. toda dor.

eu ainda estou tentando entender essa fraqueza em ser forte.

 

parece que a gente foi uma eternidade, não é? parece uma eternidade também desde a última vez que nos vimos.

mas foi só um dia.

um dia na vida dos deuses.

 

até.


Laura Chaloub | Rio de Janeiro, Brasil  | laura_chaloub@hotmail.com

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Berenice Fialho 26 de junho de 2020 em 13:44

    Gostei muito. E fiquei curiosa em saber quem foi milhares. Laura, v escreve muito bem!

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