Subversa

Helena | Eber S. Chaves


Helena, um corpo esbelto quase não afetado pela existência. Diante do espelho, contemplava-se.

O silêncio crescia como um câncer dentro do pequeno cômodo. E mesmo depois de tantos longos anos, Helena ainda sentia que havia amor no silêncio. Ela se aproximava do espelho, um pouco mais perto: — Sou esta que está diante de mim? — perguntava, na tentativa de compreender algo além de sua superfície.

Helena sempre percebera que nos lábios da imagem no espelho pairava um certo desdém. Uma indignação repentina ardia em seus olhos, mas logo se abrandava, e as suas pupilas se enchiam de doçura.

No espelho, ela via-se aos pedaços. Primeiro fixava-se em seu rosto, depois descia o olhar pelo corpo. E nada encontrava além de superfícies, contornos. Não havia nenhum mistério nisso. E lembrava-se de que, quando pequena, sua imagem era sempre furtiva: passava pelos espelhos se espreitando: aparecia e desaparecia.

Uma noite, enquanto penteava os longos cabelos em frente ao espelho, acidentalmente, o derrubou e ele se quebrou. Fragmentos móveis de vidros espelhados brilharam num colorido vago, cintilando aleatoriamente.

Sobre o chão os fragmentos se multiplicavam. Helena abaixou-se, numa tentativa de juntar e colar os pedaços de sua imagem. Sua inquietação, longe de aliviar pela dádiva do amor, se tinha alargado ao ponto de sentir-se aflita, abatida e dependente, desde que conseguira fazer de si mesma esse ser único, sua  única companhia.

Descentrada e deportada do seu próprio ser, ela tropeçava em seus pensamentos antes de falar. Palavras eram triviais. E com um doce sorriso nos lábios, então, falou: — Eu nunca dei a entender que me importava; eu me basto a mim mesma!

Um passo para trás esperando por seu próprio julgamento. Os estilhaços cortavam seus pés. Ela caminhou em direção à porta. E saiu para a sala, depois de fechar e trancar a porta do quarto atrás de si.

O delírio às vezes é tão espontâneo quanto o ato de respirar.


Eber S. Chaves | Vitória da Conquista, Brasil

 

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367