Subversa

Grãos do embotamento | Lorraine Ramos Assis


Olhar para os fotogramas em que me vi de cabelos lambidos de tonalidades quase que em louros residuais é como uma sensação turva após um shampoo recair sob sua face desnuda.

A Kodak Portra 400 é um filme de grãos finos, com uma saturação maleável quanto meu corpo que em outros tempos conseguia não ser de tensão, esgueirando-se em cômodos de disparos infinitos em minhas sandálias Melissa (como ao disparo de um obturador). ‘’Não quero véus brancos, mas sim em cascatas pretas’’, dizia para minha mãe no rodopiar de portas que interditavam no bater da hostilidade tenaz.

Esgueirando-se no turbilhão encardido de Alexitimia para com meus antigos e tão brevemente futuros colegas de classe um ano após as defesas transpassadas no cordão afetivo. Era o pensamento que não tinha extradição de um embotamento interior. Luzes com baixa saturação iguais a um baixo ISO de uma câmera analógica eram avistadas por uma cuidadora incomum de trêmulos glóbulos oculares ao aumento do “black metal”. Ninguém aguentava o som, qual é.

Apesar disso, o significativo aumento não era mais de uma cantiga estrondosa no ruir das noites em claro, mas da vívida experiência de ser fotograda e transportada para personagens típicos, mas de uma excentricidade estatuída que eu conseguia emanar nas piores maresias de meu bairro natal. A nebulização não era somente de minhas crises de rinite alérgica que ainda compartilho os piores momentos.

A Pentax ou a camêra batida de um pseudo smartphone eram requisitadas na interpretação defensiva. Feições e falas imbuídas de emoções entrecortadas por rouquidão e uma calorosa coloração avermelhada eram habituais.

Ou de acalentadas mãos que iam e desciam, incontestadas, tragando o cigarro que fazia o préludio da morte. Essa, uma velha companhia que nenhuma Kodak e seus granulados iriam captar. Ou talvez fossem capazes de fixar nas gelatinas dos filmes, mas que dependeria de sua opinião para ser manifestada.

“Era bom falsificar o que não deveria ter sido aberto ao público”. Talvez estivesse certa ao deparar-me com um princípio dramaturgo desde essa idade.

Mas não era de toda falsidade aqueles negativos expostos após a diluição fluorescente. Afinal, a maioria das coisas é solúvel. Ao menos na vida terrena quando se tem uma infinitude de fragmentos de lembranças.

Diluído a ponto de ser lambido. Igual a um cabelo naturalmente alisado.

Memorar os hábitos que vivíamos circundando até o esvair de nossa consciência. Eis o dilema que tento manter quando vejo o fotômetro.

Da mesma Pentax.


Lorraine Ramos Assis | Rio de Janeiro, Brasil | Instagram: @catarsesoculares

 

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