Subversa

Godofredo e o espelho | Glauber Costa (Ubatã, BA, Brasil)

Ilustração: Neal Pickhaver

Ilustração: Neal Pickhaver

Aquela não era uma situação da qual dava para ficar ignorando.

Godofredo andava com dificuldade de enxergar o seu próprio reflexo no espelho. Estava com dificuldade de se enxergar em qualquer superfície espelhada. Fosse em janela de ônibus, em vitrine de loja, ou até mesmo diante da tela da TV desligada, o fato é que ele não estava mais conseguindo distinguir bem o seu reflexo.

Apenas nos momentos em que parava para se olhar no espelho do banheiro é que conseguia ver a sua imagem claramente. Por conta disso, com o passar dos dias, Godofredo, para se sentir seguro, passou a ficar, todos os dias, minutos inteiros ali, contemplando a nitidez de sua imagem, trancado no banheiro. E muitas vezes, lá, reflexivo, chegava a considerar que poderia bem ser coisa da idade. Tinha quase setenta anos.

Apesar de tratar-se de uma questão totalmente particular, para a qual a solução deveria ser a procura de um médico, Godofredo começava a sentir alguns efeitos sociais daquela sua nova experiência. Sobretudo nas vezes em que tinha que passar diante de algum espelho, junto com outras pessoas, e acabava enxergando o reflexo de todos, menos o dele. Isso sempre lhe dava certa aflição, que o obrigava a andar mais rápido ou a disfarçar de algum outro modo.

Dias atrás mesmo, aconteceu de estar sentado em uma pracinha movimentada, e um carro preto, brilhoso e espelhado, estacionado à sua frente, refletir a imagem de todo o movimento da praça, exceto a dele. Ele, então, antes que alguém notasse aquilo, olhou para todos os lados e fugiu rapidamente para casa.

Para evitar essas situações, Godofredo passou a sair cada vez menos e a voltar cada vez cedo para casa.

E sempre que estava lá, de hora em hora, ficava repetindo aquele ritual de ir conferir a nitidez da sua imagem no espelho do banheiro. Lá ela se encontrava, como sempre, firme e completamente nítida. Só que isso não deixava de ser espantoso, visto que, desse modo, a invisibilidade estava sendo seletiva.

Diante disso, passou também a ficar testando o seu reflexo em todas as superfícies espelhadas da casa, o que o levou a descobrir, após alguns dias, que a quantidade de êxitos na exibição de sua imagem estava diminuindo.

Na solidão das noites, deitado em sua cama, Godofredo começava a pensar em contar tudo para alguns familiares e amigos. Mas sempre lhe surgia o receio de simplesmente o taxarem de caduco, e acabava dormindo sem se decidir.

Um dia, pela manhã, tomou coragem de puxar assunto com o amigo vizinho, porém, sem conseguir chegar ao ponto desejado, limitou-se a falar sobre a velhice de modo geral.

Eles eram quase da mesma idade e o amigo sempre dava tom bem humorado quando falavam sobre a terceira idade; o que o fez pensar em aproveitar tal tom para expor a dificuldade de enxergar o reflexo. Mas naquele dia o amigo estava meio apressado e ele permanecia hesitante. Talvez fosse melhor procurar mesmo um médico. Concluiu, pensativo. E mesmo depois de o amigo já ter ido embora, Godofredo continuou ali, parado, sozinho, na porta de casa, ainda pensativo.

Quando retomou a consciência, respirou fundo e decidiu caminhar um pouco.

No caminho, começou a ponderar que talvez pudesse ser, afinal, algum problema nos olhos. As pessoas da sua idade geralmente o tinham. Resolveu, então, testar a sua visão em superfícies opacas também. Às vezes, a visão embaçava, de fato. Mas não era sempre. E nada ficava tão invisível quanto os seus reflexos.

Seguindo pelas ruas, assim, atento a tudo, acabou flagrando, pela fresta de uma janela, uma senhora arrumando vários espelhos pela casa. E como demorasse tempo demais olhando para aquela cena, hipnotizado pela quantidade de espelhos que aquela mulher possuía, imaginando-a a se olhar em cada um deles durante os seus dias, acabou sendo flagrado por ela, que se mostrou um tanto irritada, por estar sendo observada com aquela insistência. Ele corou, envergonhado, e seguiu adiante.

Mais à frente, do outro lado da rua, viu um senhor idoso receber um carregamento por caminhão. Tratava-se de uma entrega de muitos espelhos. Godofredo, achando aquilo coincidência demais, parou e ficou olhando, com interesse. Mas novamente foi notado, e recebeu do homem um aceno negativo com a cabeça.

Horas depois, em casa, batidas na porta o acordaram de um torpor de pensamentos. Era o carteiro. Godofredo, ainda distraído, pensou em comentar algo sobre aquilo. Mas, a tempo, reconheceu a ideia como tola. Resolveu, então, que daquele dia não passaria a ida ao consultório. Despediu-se do carteiro, com uma estranha cordialidade melancólica.

Entrou em casa e abriu o envelope. Dentro, havia uma carta de alguém que dizia ser seu parente, mas que não se identificava. Apenas comunicava que iria chegar uma encomenda de espelhos para ele. E no final, fazia uma despedida emocionada, que Godofredo não compreendia bem.

Aquilo o fez pensar mais uma vez em telefonar para alguém. Mas estava convicto de que não lhe dariam crédito.

Dirigiu-se, então, meio mecanicamente, para a janela, a ficar olhando, absorto, o movimento da rua. E lá viu o seu amigo vizinho carregando um espelho com fios. Parecia um objeto eletrônico diferente. Godofredo, surpreso, esfregou os dois olhos e logo reconheceu que havia sido só impressão sua. Na verdade, era um espelho e um computador sendo carregados juntos. Achou que aquilo estava desgastando a sua mente. Foi tentar dormir.

Sonhou que todas as pessoas, de todas as casas por onde passava, olhavam-se em espelhos ligados em tomadas. Todas elas demonstravam alegria por estar se enxergando. E ofereciam olhares esporádicos de piedade para ele.

No outro dia, acordou tarde e com dor de cabeça. De mau humor, decidiu evitar espelhos, por ora; pelo menos até que conseguisse ir ao consultório. Porém, tratava-se de um desafio difícil agora que aquilo havia ganhado aquela dimensão. Acabou, sem querer, vez ou outra, durante o dia, deparando-se com superfícies espelhadas. Não só. Foi também notando que estava ficando ainda mais raro encontrar uma que o refletisse.

Mais tarde, à noite, com o esfriamento dos ânimos, Godofredo resolveu conferir direito aquilo, sem medo. E dessa vez pareceu definitivo: Nenhum espelho da casa o refletia mais. Nem o do banheiro. Era hora de procurar ajuda. Quem sabe não estivesse ficando cego ou doido? Com o coração acelerado de medo, sentou-se na sala.

Como não encontrasse saída lógica para aquilo, deu nele um repentino furor improvisado, que o fez juntar vários espelhos na sua frente, para ver se, pela quantidade, forçava a formação de sua imagem refletida.

Funcionou! Surgiram, aos poucos, várias imagens dele, nos vários espelhos. Porém, elas se mexiam muito e acabaram deslizando para um único espelho, dando forma a um único reflexo, que foi ficando borrado, até sumir.

Com raiva, quebrou todos os espelhos que havia juntado. E acabou se cortando.

O corte interrompeu o furor. Foi, então, tentar sanar a dor e descansar, porque estava ficando muito cansado, estava lhe chegando uma sonolência estranhamente hipnotizante. Adormeceu.

No outro dia, acordou muito tarde, perdendo a hora de ir ao consultório médico sem pegar longas filas. Ficou em casa, no quarto. Iria amanhã.

Na ociosidade da tarde, enquanto almoçava, com umas colheradas distraídas, notou que havia um espelho enorme deixado em cima da mesa. Não se recordava de ter colocado aquele objeto ali. Talvez tivesse esquecido lá durante a irritação anterior. Notou, no entanto, que a moldura daquele espelho era muito diferente da dos que ele tinha em casa. Aliás, só agora se dava conta de que não tinha tantos espelhos em casa. E que todos aqueles que ele quebrara eram de uma quantidade absurda. De onde eles vieram?

Lembrou-se da carta do parente. Da encomenda que ia chegar. Levantou-se, no intuito de perguntar a alguém lá fora se teriam visto alguma entrega chegar à sua casa ou se alguém tinha entrado enquanto ele dormia. De pé, deu-se conta de que a cozinha estava um pouco escura, ainda que não estivesse anoitecendo. No caminho para acender a luz, colocou a louça do almoço na pia. Foi quando flagrou. Outro espelho estava brotando do ralo da pia. Parecia ter saído por osmose.

Esfregou, então, os olhos para se desfazer daquela alucinação, mas só conseguia ver os seus próprios olhos refletidos ali, naquele objeto nascido do nada.

Como estava escuro, atribuiu aquela ilusão de brotamento ao susto de ter encontrado um espelho dentro da pia. De todo modo, não deixou de continuar dando passos discretos para trás. Até que, em certo ponto, viu, na parede ao lado, mais um espelho. Esse, agora, estava saindo do concreto, a oferecer a imagem do seu rosto espantado, bem de perto. Fugiu rapidamente da cozinha.

Chegando à sala, boquiabriu-se. A sala estava infestada de espelhos. Eram espelhos de todos os formatos e de tamanhos variados. E todos, agora, refletiam-no muito bem, deixando-o tonto. Os espelhos pareciam se mover.

Sem se desfazer da tontura da visão, distinguiu o celular na mesa da sala e pegou-o para ligar para alguém. Porém, quando o segurou, olhando diretamente para a tela apagada, a tontura aumentou, pois surgia, a partir da tela, uma progressão de reflexos advinda de um outro espelho às suas costas. Um bem maior. Quase do tamanho da parede. Deixou o celular cair da mão.

Como a tontura persistia, Godofredo resolveu sair, rapidamente, de casa para buscar ajuda, sentindo, no fundo, certa esperança de que, se alguém tivesse mesmo colocado aquilo tudo ali, pelo menos deveria estar por dentro do seu problema e, quem sabe, da solução.

Mas, chegando à sala de entrada, um susto maior lhe acometeu. A porta da casa, que antes era de madeira, estava toda de vidro. E era agora um espelho, sem nenhuma fechadura. Tentou empurrá-la. Mas o material era muito grosso e pesado. Não saía do lugar. Buscou, então, a janela. E esta também estava assim, sob forma de vidro pesado, grosso, espelhado. Respirou fundo, passou as duas mãos pelo rosto e olhou para cima. O teto também estava de vidro. Desesperou-se.

A passos rápidos, percorrendo a casa à procura de uma saída, confirmou: toda a casa estava repleta de espelhos. Não só. Até mesmo algumas paredes estavam puramente espelhadas. Gritou por socorro.

Sem resposta por infinitos minutos, começou a esmurrar uma das paredes. Mas logo lhe doeram os punhos e os dedos. Reconheceu-se completamente preso. Berrou. Chorou forte feito uma criança. Chorou muito, como se pedisse ajuda pelo soluço, em uma reação de incompreensão diante daquilo tudo. O que o fez cansar, até encostar o corpo no material frio.

Silêncio. Ninguém do lado de fora. Pior, tentou ouvir qualquer barulho e não ouvia nada. Nem mesmo os barulhos comuns da rua.

Ergueu-se apenas quando, minutos depois, teve a ideia de procurar um martelo ou algum outro objeto para quebrar aqueles vidros. Atordoado, pegou uma ferramenta qualquer e começou a bater em uma parede. Animou-se, quando começou a ouvir o estalar de vidro se quebrando. Porém só foi perceber tardiamente que até mesmo os objetos eram agora de vidro espelhado, e o que estava se quebrando não era a parede, mas a chave de fenda em sua mão, agora ferida.

Abriu a caixa de ferramentas e todas eram feitas de espelho, que refletiam, em conjunto, para ele, o seu rosto velho e assustado. Despejou todas no chão.

O barulho de vidro quebrando despertou-lhe o ímpeto de quebrar todos os espelhos menores, todos os espelhos possíveis de serem quebrados. Saiu, então, pelos cômodos, quebrando tudo, aleatoriamente.

Após ter quebrado muitos, respirou fundo e sentou-se no chão, aflito, fadigado.

Depois, erguendo a cabeça lentamente, viu que as paredes em que antes estavam os espelhos menores, que havia quebrado, eram agora todas de vidro. Agora a casa inteira era um jogo de reflexos, que o deixava entontecido.

Estava preso ali na multiplicação de sua própria imagem. Lembrou-se do telefone, dos amigos, da família, do consultório, dos números de emergência, quando viu que o celular também havia se tornado vidro e se partido. Desesperou-se por dentro, achando aquilo loucura. E no meio daquela confusão em sua cabeça, começou a jogar o próprio corpo contra as paredes, em desespero. Ia de encontro ao próprio reflexo e se batia. Primeiro, com algum cuidado, e um tanto desajeitado, pelo corpo já marcado pela idade; depois tombando forte, se machucando, até cansar e desmaiar.

Cansado e dolorido, acordou, horas depois, e começou a se arrastar pela casa, adormecendo e despertando durante o rastejo. Num desses despertares oscilantes, viu um movimento estranho ao seu. Procurou, ao redor, com os olhos machucados, até conseguir ver, de relance, outra vez. Perdeu-o de vista! Mas sorriu, nervosamente, como se tivesse encontrado algo além do seu reflexo.

Sentou-se no chão da sala e viu, sem procurar, alguns pedaços de fios saindo pelo espelho contra o qual tinha se batido.

Levantou-se com dificuldade e foi na direção dos fios soltos. Agarrou um e começou a puxar. Era grande. Puxou com mais força. Era fácil de sair, mas parecia infinito. Pegou, então, a ponta de outro fio. A mesma coisa. Teve a ideia abrupta de puxar as duas pontas, esticando-as para os lados, abrindo os braços forçadamente; o que, por fim, resultou no rasgar daquela parede.

Empolgado pelo êxito, quis repetir aquilo em todas as paredes da casa, já pressentindo sua libertação. Mas logo desistiu, quando notou que, após quebrar a primeira parede, o espaço vazio, que ficou, continuava refletindo, sem que se conseguisse ver o lado de fora da casa.

Passou, resoluto, por cima dos cacos de vidro e dos fios, escombros da parede rasgada. Mas mesmo indo para frente, tudo o que via era seu próprio reflexo, como se não saísse do lugar. Parou, olhou para trás e deu de cara com um céu noturno estrelado dentro de sua sala. Esse céu parecia tão próximo, que Godofredo acabou sentindo, sem conseguir evitar, a vertigem da sua própria dimensão. Esfregava os olhos e a visão não saía.

Parou de olhar para aquele espaço sideral que o enlouquecia e voltou-se para as outras paredes. Mas estas também pareciam estar começando a formar imagens.

Com medo, ele começou a arremessar todo o vidro que encontrava pela frente em direção às paredes. O que, nos primeiros golpes, parecia inútil. Porém, de tanto insistir, percebeu que os objetos se quebravam cada vez mais longe, cada vez mais profundamente para dentro dos espelhos. Aproveitou, então, para correr rumo à profundidade.

Correndo, sentia-se quebrando com o corpo inteiro alguns espelhos muito finos e leves em seu caminho, que iam deixando pedacinhos de vidro cortantes em sua pele. Até que, após algum tempo dessa insistência cega, as barreiras acabaram e, quando menos esperava, deu de cara com a rua.

Todo dolorido e aliviado tinha, enfim, chegado à saída. E lá estava o mundo. Era mundo para todo lado. Estava livre para pedir ajuda.

Mas, poucos segundos depois, quando olhou para o próprio corpo, Godofredo agora era de vidro. E, dele, pendiam fios interligados a outros vidros pela rua. Vidros grossos e resistentes, dentro dos quais, ele conseguia distinguir, embora um tanto embaçados, aquela senhora que dias atrás ele vira arrumando espelhos em casa, aquele senhor que recebera um caminhão de espelhos de encomenda e o seu amigo vizinho. Todos com olhares paralisados, como se estivessem mortos, em uma mistura bizarra de reflexo e fotografia.

Agora, Godofredo, todo no vidro fechado, nunca mais iria mesmo conseguir enxergar a sua própria imagem envidraçada. Somente as imagens dos outros. Todas elas, para ele, mórbidas, paralisadas, pois não reagiam, nem jamais reagiriam, a todos aqueles seus socos espelhados, eternos e emparedados.

Atrasados, alguns dias depois, bombeiros arrombaram a porta, à procura de Godofredo. Mas não o encontravam. O que viram mesmo, um tanto intrigados, foi apenas um espelho pequeno de vidro escurecido, em cima da sua cama, virado para cima, todo rachado.


GLAUBER COSTA publicou as crônicas “No longe, no dentro” e “Gênese”, ambas pela Coletânea Eldorado, da Celeiro de Escritores. Publicou o conto “Meu velho” na Revista Subversa, texto que faz parte do primeiro volume impresso. Escreve no blog glauber-manuscritos.blogspot.com.br e na Fanpage do Facebook chamada Manuscritos. | GLAUBER.COSTA@HOTMAIL.COM

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1 Comentário

  1. Sinildes Costa Fernandes 1 de abril de 2016 em 19:23

    Ao ler o texto, não pude deixar de pensar nos olhos. Pois dizem que estes são o espelho da alma e refletem a forma como nos sentimos. O não olhar para o espelho é igual ao não levantar a cabeça, erguer o olhar e seguir em frente. É igual ao andar de olhos no chão, sem prestar atenção ao que se passa à nossa volta. Sem se importar com nada, andar sozinho e de olhar vazio. Vazio de emoções, mas carregado de tristeza e solidão. Difícil é enfrentar o espelho, os nossos medos e fragilidades.
    Mais uma vez, querido, tocas num assunto muito importante.

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